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Panelão
literário na TV
A
carreira de Bernard Pivot, que
se
tornou celebridade na França
falando de livros

Ruth
de Aquino, de Paris
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| Visitantes
brasileiros: com Jô Soares e com o cineasta Walter Salles
Júnior |
Só
mesmo na França: o jornalista Bernard Pivot tornou-se uma celebridade
falando de livros na televisão. Nas noites de sexta-feira, 1 milhão
de telespectadores sacia o apetite literário com o Bouillon
de Culture (Panelão de Cultura, em francês), o programa
de Pivot no canal France 2, no ar desde 1991. Em 28 anos de carreira,
ele entrevistou figuras do primeiro time da literatura, como Vladimir
Nabokov, Charles Bukowski (que bebeu até quase cair, um vexame),
Marguerite Duras, Alexander Soljenitsin, Marguerite Yourcenar, Lévi-Strauss.
De brasileiros, Jorge Amado, Jô Soares, Paulo Coelho, dom Hélder
Câmara, Chico Buarque (que até cantou) e o fotógrafo
Sebastião Salgado. O balanço de sua carreira é impressionante:
mais de 6.000 escritores conversaram com ele na televisão. Assim,
é natural que o anúncio de que o "Panelão" está
com os dias contados esteja causando um tremendo frisson entre os franceses.
O último programa será transmitido em 29 de junho.
Vai acabar porque ficou impossível mantê-lo em horário
nobre. Tradicionalmente às 21h30, o programa foi sendo empurrado
para cada vez mais tarde. Isso porque a France 2, que é estatal,
decidiu adotar a mesma programação popularesca da concorrência.
Aos 66 anos, Pivot acha melhor dar um tempo. "Não se passa uma
semana sem que eu encontre alguém que me confidencia ter tomado
gosto por livros graças a mim", disse, numa entrevista. "Mas esse
papel de iniciador e missionário cultural eu só consigo
exercer às 9 e meia da noite. Não às 11 ou quase
meia-noite." Telespectadores inconformados, que beiram a militância
cega, bombardeiam com cartas os jornais pedindo o boicote ao canal estatal,
incitando a população a erguer barricadas. Temem que com
ele também desapareçam os livros da tela da televisão.
Até o ator americano Kirk Douglas lamentou, por escrito, a "renúncia".
O semanário Le Nouvel Observateur pôs o jornalista
na capa. Pesquisa publicada na revista Beaux Arts chegou a apontá-lo
como o favorito dos franceses para ser o futuro ministro da Cultura.
Pivot começou na TV em preto-e-branco, em 1973. Tinha 38 anos.
Direto ao vivo, sem ensaio nenhum, embora só tivesse trabalhado
até então para a imprensa escrita. Tentou ensaiar em casa
em frente ao espelho, mas se sentiu tão ridículo que decidiu
relaxar e ser ele mesmo. Esqueceu que estava na TV, e deu tudo certo,
ou quase: a diretora do programa achou "insuportável" seu casaco
listrado. Pivot experimentou vários canais e títulos, como
"Apostrophes", até chegar ao temperado Bouillon da France
2. Sua fórmula sempre foi "democratizar ou popularizar a literatura"
em conversas que, segundo ele, parecem mais "encontros para jantar num
restaurante" do que "uma recepção na Academia". É
por isso que seus entrevistados vão "Chez Pivot" (à sua
casa) e não a um programa qualquer. Sua técnica consiste
em ter vários convidados, atuando como mediador de uma mesa-redonda.
Com seu jeito nada arrogante, Pivot vem cozinhando, com humor e a fogo
lento (uma hora e meia de programa), a comilança que está
agora provocando uma indigestão nos executivos da France 2. O interesse
que o fim do "Panelão" de Pivot desperta não pode ser explicado
apenas por seu carisma. Em toda a Europa fumega o debate sobre a privatização
das TVs, que no continente costumavam ser estatais na maioria. Com a briga
pelo ibope, a "inteligência" está sendo empurrada para horários
cada vez mais impróprios, depois da meia-noite, e os programas
são nivelados por baixo. Realidade conhecida dos brasileiros. Como
disse Pivot, "sou muito pessimista em relação ao futuro
do livro na TV. Acho que tudo que se refere à cultura será
rejeitado e expulso para a periferia. Relegado, como a caça e a
pesca, a canais temáticos e a cabo".
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FRASES
DE PIVOT SOBRE ESCRITORES,
LIVROS E CELEBRIDADES
"Lembro-me
de uma pergunta que fiz a Marguerite Duras: 'Por que você
era alcoólatra?'. Pergunta atrevida, mas podia fazer porque
havia lido todos os seus livros e, por isso, tinha com ela uma familiaridade
imensa, como se fizesse muito tempo que a conhecesse. Ela me respondeu
de forma bem pouco feminista: 'Bebia muito porque conheci homens
que me fizeram beber'."
"Pode-se
ser muito feliz e muito sábio sem ler jamais. Mas, lendo,
vive-se mais. Vivem-se outras vidas e com mais profundidade."
"Parto
do princípio de que tenho menos a dizer do que meus entrevistados.
Em alguns programas literários, o entrevistador fala mais
do que os autores..."
"Sempre
haverá livros. Guardei
artigos de escritores
do século XIX alarmados porque a invenção
da
bicicleta acabaria com
o hábito da leitura."
"Algumas
respostas ficam na memória. Como quando Georges Simenon falou
sobre a sinceridade: 'Prefiro ser odiado pelo que sou a ser admirado
pelo que não sou'."
"Não
gostaria de entrevistar jogadores de futebol. Gosto mesmo
é do jogo em si. Os atletas dão entrevistas muito
ruins. Gabriel
García Márquez, jogando futebol, também não
lotaria nenhum estádio."
"Não
escrevo romances porque
meu vício, meu prazer, minha paixão é a leitura.
Prefiro
ser bom jornalista a
autor de livros ruins."
"Jamais
me tornei amigo de
algum desses escritores que
entrevistei. A intimidade termina ali, na tela da TV. Faz
parte do meu temperamento não misturar vida profissional
e
pessoal. (Marguerite) Duras tentou falar comigo várias
vezes depois do programa, me ligava às
2 horas da manhã. Fiquei
com um medo
enorme."
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Veja também
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