Adeus aos diamantes
Diamantina
ainda tem uma
fortuna no subsolo. Mas
garimpá-la é uma pedreira
Neide Oliveira
Divulgação

O casario:
bem cultural da humanidade em cima de uma reserva |
De acordo
com o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM),
no subsolo da cidade mineira de Diamantina deve haver 3 milhões
de quilates de diamantes. A preços de hoje, esse tesouro em que
90% das pedras têm qualidade para uso em joalheria vale pelo menos
meio bilhão de reais o equivalente a quarenta anos de arrecadação
no município. Agora, a má notícia: são cada
vez menores as possibilidades de que essa fortuna venha a ser garimpada.
Encravado no paupérrimo Vale do Jequitinhonha, o município
tem 70% das reservas de diamantes do país, mas acumula dificuldades
para a mineração.
Há
empecilhos técnicos, como a necessidade de cavucar áreas
profundas, com altos custos, mas boa parte dos problemas só existe
porque se decidiu preservar a cidade exatamente do modo como a riqueza
com a extração dos diamantes a produziu no passado. A área
urbana, rica em edificações coloniais, virou patrimônio
da humanidade no final de 1999. Embora os garimpos se concentrem na zona
rural, especialistas como o geólogo Pedro Ângelo Almeida
de Abreu acreditam que parte da reserva diamantífera pode estar
sob as vielas e o casario do centro histórico. O tombamento enterra
as chances de conferir essa teoria. A história de São João
del Rei que teve os alicerces roídos numa corrida do ouro
confirma a impossibilidade.
A condição
de patrimônio cultural também exige a preservação
do conjunto paisagístico do entorno. Por isso autoridades estaduais
e municipais apertaram o cerco contra os garimpeiros. De 5 000 homens
envolvidos na atividade, só uma centena tem os registros necessários.
A taxa de legalização é baixa, cerca de 850 reais,
mas a maioria cisca tão superficialmente o terreno que nem isso
fatura por mês. Os garimpeiros convivem, ainda, com uma lei estadual
de 1995 que transformou trechos ao longo do Rio Jequitinhonha em áreas
de preservação permanente. Vários desses pontos eram
lavras de diamante que estão longe de merecer essa honra.
Tudo isso
levou à quase completa paralisação da mineração
no município e a uma queda de aproximadamente 40% no comércio
local. "Estão matando nossa galinha dos ovos de ouro", afirma o
garimpeiro Ademir Werneck, multado em 36 500 reais pelo Conselho de Defesa
do Meio Ambiente de Diamantina por manter uma lavra ilegal. Agravando
o quadro, a única mineradora de grande porte instalada na cidade,
a Rio Novo, do grupo Andrade Gutierrez, deixará de atuar na região
dentro de três anos por causa do esgotamento da jazida explorada
pela empresa.
Em outros
tempos, com o dinheiro da extração de diamantes a família
do garimpeiro Cláudio Oliveira adquiriu casa, carros e até
um sítio. Ele chegou a morar nos Estados Unidos, onde aprendeu
a falar inglês. Desde que voltou para Diamantina, há dois
anos, Cláudio ganha a vida lecionando o idioma num curso pré-vestibular.
"Só fica no garimpo quem não tem outra opção",
ele diz.
Desbravada
por bandeirantes paulistas no início do século XVIII, a
região teve como primeira atividade econômica a extração
de ouro. Diz a lenda que um padre um dia viu habitantes locais brincando
com pedrinhas brilhantes e as identificou como diamantes, fugindo com
todas as que conseguiu carregar. Folclore à parte, data de 1771
a criação de uma colônia diamantífera oficial
da coroa portuguesa naquela área. "A cidade chegou a ser a maior
produtora dessa pedra no mundo", afirma o professor Friedrich Renger,
da Universidade Federal de Minas Gerais. "Os portugueses levaram pelo
menos 2 milhões de quilates e mais 1 milhão foi retirado
por garimpeiros." Metade da reserva total, portanto, ainda está
no solo.
|