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Feira dos brinquedos
milionários
Mesmo
no vermelho, empresas
vão
às compras durante a maior
exposição de aviões do mundo

Guido Orgis
A primeira
impressão de quem vê a foto abaixo é que se trata
de um retrato de algum parque de diversões, como o futurista Epcot
Center, da Disney. Uma olhada mais atenta, porém, basta para revelar
que os "brinquedos" são de verdade e custam milhões
de dólares. O cenário em que eles estão expostos
é o Aeroporto de Le Bourget, a 10 quilômetros de Paris, na
França. Nos últimos dias, realizou-se ali a mais importante
feira de aviação do mundo. Entre os estandes dos mais de
1.800 expositores de 43 países, era
possível encontrar de tudo caças franceses, foguetes
russos e até um zepelim alemão. Um dos lugares mais concorridos
era onde o consórcio europeu Airbus exibia peças do formidável
A380. Com capacidade para mais de 600 pessoas, ele provoca furor desde
que sua construção foi anunciada. Os primeiros modelos devem
entrar em operação daqui a cinco anos. O centro das atenções,
no entanto, foi um projeto dos americanos da Boeing, a principal concorrente
da Airbus. Durante o evento, os engenheiros da Boeing mostraram os detalhes
de um novo avião com o formato de um ônibus espacial alongado,
duas turbinas traseiras e duas asas pequenas na parte dianteira. Batizada
pela companhia de Sonic Cruiser (cruzador sônico, em português),
a aeronave foi anunciada como a solução tecnológica
mais bem-acabada para voar com rapidez e conforto.
AFP

A mostra
de Paris: 1 800 expositores de 43 países |
O Sonic Cruiser
promete conciliar lucratividade e rapidez acima da média. Até
hoje, o único projeto com a mesma pretensão foi o do Concorde.
Ele começou a ser construído por ingleses e franceses na
década de 70 e se transformou num dos mais retumbantes fiascos
comerciais da história da aviação. Hoje, as duas
únicas companhias que ainda operam o modelo calculam que ele será
aposentado em, no máximo, oito anos. Além de um espaço
interno pequeno e desconfortável, com capacidade para apenas 100
passageiros, o Concorde tem um custo operacional quatro vezes maior que
o de um jato comum. Segundo os engenheiros da Boeing, o novo Sonic Cruiser
não repete os mesmos erros. Em relação à velocidade,
ele fica num meio-termo entre os jatos convencionais e o Concorde. Capaz
de atingir até 1.100 quilômetros
horários, é 20% mais rápido que um avião comum
e pode voar de Paris a Nova York em seis horas e meia (contra oito horas
de vôo dos modelos antigos). Nesse campo, o Concorde permanece imbatível
completa o mesmo trecho em três horas e meia.
Para resolver
a equação "muita rapidez e conforto", os projetistas da
Boeing prepararam o Sonic Cruiser para voar um pouco abaixo da velocidade
do som. Segundo os engenheiros americanos, isso permitiu reduzir sensivelmente
os custos operacionais e aumentar o espaço interno para até
300 passageiros (o triplo da capacidade do supersônico). Para quebrar
a barreira do som, seria necessário um avião com bico afilado
e corpo bastante estreito, como o Concorde. O desenho é fundamental
para suportar a resistência do ar. Em conseqüência da
altíssima velocidade, vão se formando ondas de choque sobre
a aeronave. Se ela for arredondada, as ondas constituem uma barreira invisível
que só pode ser superada com força adicional. "Nessa área,
força significa acrescentar um número maior de motores,
ainda mais potentes, coisa que inviabiliza completamente o projeto de
um Concorde para mais passageiros", afirma o tenente-coronel Maurício
Pazini Brandão, professor de engenharia do Instituto Tecnológico
de Aeronáutica.
Além
das novidades, a exposição em Paris serviu para mostrar
um paradoxo curioso da indústria aeronáutica. Apesar de
haver um número considerável de companhias com as contas
no vermelho, todas foram às compras na França. A gigante
American Airlines, dos Estados Unidos, encontra-se pendurada numa dívida
bilionária e chegou a cortar comissões de agentes de viagem.
Mesmo assim, seus executivos enviados a Paris falavam seriamente na possibilidade
de adquirir várias unidades do Sonic Cruiser. "As companhias investem
nas novidades porque isso funciona como um bom chamariz para atrair passageiros",
explica David Barioni Neto, vice-presidente técnico da Gol, que
ainda enfrenta dificuldades para decolar no mercado brasileiro. "Além
disso, os gastos com manutenção têm sido reduzidos
com constância pela adoção de tecnologias mais modernas",
completa ele. Vítima da alta do dólar e com taxa de ocupação
de assentos inferior a 60%, a brasileira TAM fechou o primeiro trimestre
do ano com prejuízo de quase 100 milhões de reais. Mesmo
assim, seu presidente, o comandante Rolim Amaro, esteve em Le Bourget
na semana passada e comprou de uma tacada só 45 aviões para
renovar a frota de sua companhia 25 modelos da Embraer e vinte
da Airbus. Os valores envolvidos no negócio não foram divulgados
oficialmente, mas é coisa acima de 1 bilhão de dólares.
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