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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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Feira dos brinquedos milionários

Mesmo no vermelho, empresas
vão às compras durante a maior
exposição de aviões do mundo

Guido Orgis


Fotos Boeing/AFP/AP
os Boeing/AFP/AP
O americano Sonic Cruiser, o russo Antonov e o zepelim alemão: principais estrelas do evento

A primeira impressão de quem vê a foto abaixo é que se trata de um retrato de algum parque de diversões, como o futurista Epcot Center, da Disney. Uma olhada mais atenta, porém, basta para revelar que os "brinquedos" são de verdade – e custam milhões de dólares. O cenário em que eles estão expostos é o Aeroporto de Le Bourget, a 10 quilômetros de Paris, na França. Nos últimos dias, realizou-se ali a mais importante feira de aviação do mundo. Entre os estandes dos mais de 1.800 expositores de 43 países, era possível encontrar de tudo – caças franceses, foguetes russos e até um zepelim alemão. Um dos lugares mais concorridos era onde o consórcio europeu Airbus exibia peças do formidável A380. Com capacidade para mais de 600 pessoas, ele provoca furor desde que sua construção foi anunciada. Os primeiros modelos devem entrar em operação daqui a cinco anos. O centro das atenções, no entanto, foi um projeto dos americanos da Boeing, a principal concorrente da Airbus. Durante o evento, os engenheiros da Boeing mostraram os detalhes de um novo avião com o formato de um ônibus espacial alongado, duas turbinas traseiras e duas asas pequenas na parte dianteira. Batizada pela companhia de Sonic Cruiser (cruzador sônico, em português), a aeronave foi anunciada como a solução tecnológica mais bem-acabada para voar com rapidez e conforto.

AFP

A mostra de Paris: 1 800 expositores de 43 países

O Sonic Cruiser promete conciliar lucratividade e rapidez acima da média. Até hoje, o único projeto com a mesma pretensão foi o do Concorde. Ele começou a ser construído por ingleses e franceses na década de 70 e se transformou num dos mais retumbantes fiascos comerciais da história da aviação. Hoje, as duas únicas companhias que ainda operam o modelo calculam que ele será aposentado em, no máximo, oito anos. Além de um espaço interno pequeno e desconfortável, com capacidade para apenas 100 passageiros, o Concorde tem um custo operacional quatro vezes maior que o de um jato comum. Segundo os engenheiros da Boeing, o novo Sonic Cruiser não repete os mesmos erros. Em relação à velocidade, ele fica num meio-termo entre os jatos convencionais e o Concorde. Capaz de atingir até 1.100 quilômetros horários, é 20% mais rápido que um avião comum e pode voar de Paris a Nova York em seis horas e meia (contra oito horas de vôo dos modelos antigos). Nesse campo, o Concorde permanece imbatível – completa o mesmo trecho em três horas e meia.

Para resolver a equação "muita rapidez e conforto", os projetistas da Boeing prepararam o Sonic Cruiser para voar um pouco abaixo da velocidade do som. Segundo os engenheiros americanos, isso permitiu reduzir sensivelmente os custos operacionais e aumentar o espaço interno para até 300 passageiros (o triplo da capacidade do supersônico). Para quebrar a barreira do som, seria necessário um avião com bico afilado e corpo bastante estreito, como o Concorde. O desenho é fundamental para suportar a resistência do ar. Em conseqüência da altíssima velocidade, vão se formando ondas de choque sobre a aeronave. Se ela for arredondada, as ondas constituem uma barreira invisível que só pode ser superada com força adicional. "Nessa área, força significa acrescentar um número maior de motores, ainda mais potentes, coisa que inviabiliza completamente o projeto de um Concorde para mais passageiros", afirma o tenente-coronel Maurício Pazini Brandão, professor de engenharia do Instituto Tecnológico de Aeronáutica.

Além das novidades, a exposição em Paris serviu para mostrar um paradoxo curioso da indústria aeronáutica. Apesar de haver um número considerável de companhias com as contas no vermelho, todas foram às compras na França. A gigante American Airlines, dos Estados Unidos, encontra-se pendurada numa dívida bilionária e chegou a cortar comissões de agentes de viagem. Mesmo assim, seus executivos enviados a Paris falavam seriamente na possibilidade de adquirir várias unidades do Sonic Cruiser. "As companhias investem nas novidades porque isso funciona como um bom chamariz para atrair passageiros", explica David Barioni Neto, vice-presidente técnico da Gol, que ainda enfrenta dificuldades para decolar no mercado brasileiro. "Além disso, os gastos com manutenção têm sido reduzidos com constância pela adoção de tecnologias mais modernas", completa ele. Vítima da alta do dólar e com taxa de ocupação de assentos inferior a 60%, a brasileira TAM fechou o primeiro trimestre do ano com prejuízo de quase 100 milhões de reais. Mesmo assim, seu presidente, o comandante Rolim Amaro, esteve em Le Bourget na semana passada e comprou de uma tacada só 45 aviões para renovar a frota de sua companhia – 25 modelos da Embraer e vinte da Airbus. Os valores envolvidos no negócio não foram divulgados oficialmente, mas é coisa acima de 1 bilhão de dólares.

   
 
   
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