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O quartel-general
da quadrilha

O maior fraudador da Sudam alugou
uma mansão em Brasília onde se
reuniu com o senador Jader Barbalho

Ana d'Angelo

Beto Barata/Folha Imagem
Jader Barbalho, ex-sócio de Osmar Borges: "Mais uma canalhice"


Nos últimos oito meses, Jader Barbalho foi acusado de enriquecimento ilícito, suas declarações de imposto de renda apresentaram indícios de sonegação fiscal, as empresas do senador deram calote de 8,2 milhões de reais na Previdência, descobriu-se uma sociedade oculta entre Jader e o maior fraudador da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) – e até sua mulher, Márcia Cristina, apareceu como suspeita de desviar 9,6 milhões de reais da autarquia. Algumas das suspeitas sobre o senador não são um dado novo. Jader deixou um rastro de escândalos em todos os cargos que ocupou. Como governador do Pará, desviou dinheiro do banco do Estado para contas particulares suas e de familiares. Como ministro da Reforma Agrária, no governo Sarney, até hoje é investigado por desapropriar fazendas que não existiam e emitir títulos da dívida agrária (TDAs) fajutos que enriqueceram pessoas muito próximas a ele. Com essa biografia, conseguiu ser eleito presidente do Senado em fevereiro passado. Vem sendo metralhado desde então por novas denúncias. A pergunta a se fazer é: o que mantém o senador Jader Barbalho intocável na chefia do Senado e do Congresso?

Para seu partido, o PMDB, Jader tornou-se um constrangimento. O Planalto, que o tinha como aliado para votações de interesse do governo, já parece ter cruzado os braços, deixando Jader entregue à própria sorte. Os partidos de oposição querem abrir investigação sobre as denúncias que pesam contra o senador. É crescente o número de senadores governistas que defendem a mesma coisa. Pergunta-se novamente: o que ainda mantém Jader Barbalho num dos mais altos e ambicionados postos da República? Essa pergunta só os senadores podem responder.

A sucessão de denúncias contra Jader tornou-se um ritual tão repetido, tão comum, que a própria gravidade das acusações parece ir perdendo a força de espantar. E, no entanto, as histórias não param de emergir. VEJA descobriu na semana passada que Jader Barbalho freqüentava a mansão mantida em Brasília pelo maior fraudador da Sudam, José Osmar Borges. O crime organizado sempre tem um quartel-general onde são planejadas as operações mais audaciosas. A quadrilha acusada de desviar 133 milhões de reais dos cofres da Sudam tinha o seu em Brasília. Durante oito meses, Osmar Borges manteve uma casa no Lago Sul, o bairro mais nobre da cidade, onde promovia encontros reservados com velhos parceiros de golpe, como o policial Alberto Coury Júnior, preso em abril. O interessante é que o QG de Osmar Borges também recebia visitantes ilustres. O senador Jader Barbalho, presidente do Congresso, era um deles. O deputado José Priante (PMDB-PA), primo de Jader, outro. O ex-ministro Fernando Bezerra, da Integração Nacional, apareceu certa vez junto com Jader. Essas visitas ao bunker do maior fraudador da Sudam foram feitas entre julho e dezembro do ano passado, período em que a quadrilha era alvo de uma profunda investigação.

O quartel-general de Osmar Borges era conhecido pela Polícia Federal havia meses. Em abril deste ano, uma megaoperação de escuta telefônica desbaratou a quadrilha que assaltava os cofres da Sudam. Foram presos 27 suspeitos, entre eles o empresário Osmar Borges e Coury. O mandado de prisão preventiva expedido pela Justiça identificou dois endereços onde ele poderia ser localizado. Um era de um apartamento em Cuiabá, em Mato Grosso. A polícia já sabia que o fraudador havia alugado uma mansão em Brasília, onde morou até janeiro passado. O que ninguém desconfiava é que, além de visitantes com prontuários policiais, a casa 3 do conjunto 8 da QL 24 do Lago Sul também recebia políticos de alto coturno. O senador Jader Barbalho reuniu-se com Osmar Borges em pelo menos três ocasiões. Em duas delas, estava acompanhado do deputado Priante e de Fernando Bezerra. Em outra, Jader chegou à mansão junto com Coury.

 
Fotos Ana Araujo
Fotos Ana Araujo
O caseiro Osmar Ferreira, que recebeu Jader no portão, e a mansão no Lago Sul onde o grupo se encontrava

Os encontros foram todos testemunhados por Osmar Ferreira, caseiro da residência, que confirmou a VEJA as reuniões. No primeiro deles, Jader Barbalho chegou a bordo de um carro importado Lexus preto. Acompanhado de Coury, foi recebido pelo caseiro e se reuniu com Osmar Borges na ampla sala de estar da mansão. No segundo encontro, além de Jader e de Coury, participaram mais dois personagens que o caseiro, de início, não soube identificar. "Vieram um senhor gordo, grisalho e de sobrancelha grossa e um moreno baixo, mais forte. Esse senhor grisalho é bem conhecido. Só não estou lembrado do nome", disse Osmar Ferreira na primeira entrevista, há duas semanas. A terceira reunião entre Osmar Borges e Jader, segundo o caseiro, também contou com a presença dos mesmos convidados. Os encontros ocorreram sempre à tarde, entre 17 e 17h30. Não passavam de uma hora. Osmar Ferreira servia uísque, Coca light em lata e petiscos – em geral, frango à passarinho e castanhas.

Na semana passada, VEJA apresentou várias fotografias ao caseiro. Para não induzi-lo, foram levadas fotos de pessoas envolvidas com o escândalo e de outros parlamentares. "É ele mesmo. Tenho certeza", garantiu Osmar Ferreira, apontando para a foto do senador e ex-ministro da Integração Nacional Fernando Bezerra. Era o tal senhor grisalho de sobrancelhas grossas. O mesmo aconteceu ao ter em mãos a foto do deputado federal José Priante, do PMDB do Pará. Ele foi identificado pelo caseiro como o moreno forte. "É ele", disse, sem titubear. Entre as fotografias também havia uma de Jader Barbalho. "Esse aí eu já conheço bem." "Nunca estive em nenhum ambiente com esse senhor Osmar Borges. Não o conheço, nunca falei com ele", rebateu José Priante. "Nunca o vi pessoalmente na minha vida. Nunca estive nessa casa. Pode matar minha família inteira se isso for verdade", rebateu Fernando Bezerra. Coury não quis comentar e Jader Barbalho mandou dizer que isto é "mais uma canalhice".

A mansão no Lago Sul foi alugada em maio do ano passado por 5.500 reais mensais. Tem 360 metros quadrados, quatro quartos, sendo três suítes, salão, escritório, duas saunas e piscina. Osmar Ferreira já trabalhava na mansão como caseiro e Osmar Borges resolveu mantê-lo. O contrato era de dois anos, mas o escândalo acabou encerrando a estada do fraudador na capital. Em janeiro, com a Polícia Federal e o Ministério Público em seu encalço, Borges deixou a mansão. O contrato foi rescindido dois meses depois, em março. De volta a Cuiabá, onde sempre morou, ele levou apenas a cozinheira que havia sido contratada. Osmar Ferreira continuou tomando conta da casa. As reuniões, segundo o caseiro, aconteciam sempre no salão. O que se conversava nesses encontros é um segredo que somente os participantes poderão revelar. "Não cheguei a ouvir nada. Eu só chegava, colocava as coisas e retirava. O seu Osmar não deixava a gente ficar perto", lembra o caseiro.

Os primeiros indícios do envolvimento do senador Jader Barbalho com Osmar Borges surgiram com a descoberta de que os dois foram sócios em uma agropecuária de 1996 a 1998, período em que Borges já tragava o dinheiro da Sudam. Numa estranhíssima operação, o senador acabou com a sociedade ao comprar a parte de Borges na empresa e tornou-se o único dono da Fazenda Rio Branco. Na época, Jader pagou menos da metade do que valiam as terras, o que levantou suspeitas de que, na verdade, havia recebido um presente do sócio-fraudador. Mas ele explicou que não era nada disso. As terras se desvalorizaram porque tinham sido invadidas pelo MST. O problema é que não havia invasão alguma quando o negócio foi realizado. Para explicar a sociedade com um fraudador, o senador alegou que nessa época Borges era um empresário contra o qual não existia nenhuma acusação. Depois disso, só tiveram breves contatos, coisa sem importância. Na semana passada, VEJA revelou que o senador e o fraudador se falaram por telefone por dezoito vezes entre 1999 e 2000, quando Borges já era investigado pelo desvio de 133 milhões de reais. Jader, cauteloso, disse que não se lembrava de tais conversas.

O testemunho do caseiro Osmar Ferreira é um elo importante entre os diversos personagens envolvidos na fraude da Sudam. No grampo telefônico feito por ordem da Justiça a partir de setembro do ano passado, a Polícia Federal captou 369 diálogos de cerca de trinta envolvidos no esquema de corrupção. Por eles, ficou-se sabendo que o então secretário executivo do Ministério da Integração, Benivaldo Alves de Azevedo, braço direito de Fernando Bezerra, passava informações aos fraudadores. Ele perdeu o emprego. O nome do deputado José Priante apareceu na boca de Geraldo Pinto da Silva, um especialista em forjar projetos fantasmas, numa situação constrangedora. Silva dizia que o deputado estava cobrando "uma conta", numa alusão a pagamento de propina. Jader Barbalho é citado como o homem "que comanda os seus" na mesma conversa suspeita. É por isso que o testemunho do caseiro Osmar é um elemento que faz diferença. Jader Barbalho já freqüentava os diálogos da quadrilha. Sabe-se agora que também andou visitando seu quartel-general.

 
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