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Psiquiatria
S.A.
Depois de seis anos na OMS, o médico
brasileiro condena laboratórios por
excesso de ganância e governos
por falta de ação
Ronaldo França
Selmy Yassuda
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Costa
e Silva: "Se o indivíduo não se cuidar, ao passar pela
porta de um psiquiatra sai de lá com um tratamento"
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O
psiquiatra carioca Jorge Alberto da Costa e Silva tem, como poucos de
seus pares, uma visão global de seu ofício. Durante os últimos
22 anos, ocupou os cargos mais altos de sua especialidade. Foi presidente
da Associação Mundial de Psiquiatria e, por seis anos, dirigiu
a divisão de saúde mental, comportamento e toxicomanias
da Organização Mundial de Saúde (OMS). Nesse período,
visitou 142 países, nos quais tinha de, entre outras incumbências,
ouvir os relatos sobre o funcionamento dos sistemas de saúde locais.
Desde que deixou a OMS, há aproximadamente um ano, tem preferido
falar. Nesta semana, estará em Paris, num congresso da Unesco,
dissertando sobre os avanços no estudo do cérebro no século
XXI. Será o único brasileiro ouvido por uma platéia
que terá, entre outras autoridades, o presidente francês
Jacques Chirac e o secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Antes,
porém, Costa e Silva resolveu abandonar o tom diplomático
das últimas décadas. Recebeu VEJA em seu consultório
no Rio de Janeiro e, sem alterar a voz serena, disparou críticas
à organização dos sistemas de saúde em todo
o mundo.
Veja Um número cada vez maior de pessoas está
se tratando de males como depressão, pânico, fobias. A que
se deve essa onda?
Costa
e Silva Há
uma psiquiatrização ocorrendo na sociedade. Já existem
quase 500 tipos descritos de transtorno mental e do comportamento. Com
tantas descrições, quase ninguém escaparia de um
diagnóstico de problemas mentais. Se o sujeito é tímido
e você forçar um pouquinho, ele pode ser enquadrado na categoria
de fobia social. Se ele tem uma mania, leva um diagnóstico de transtorno
obsessivo-compulsivo. Se a criança está agitada na escola,
podem achar que está tendo um transtorno de atenção
e hiperatividade. Coisas normais da vida estão sendo encaradas
como patologias. Hoje em dia, se o indivíduo não tomar cuidado
e passar desavisado pela porta de um psiquiatra, pode entrar numa categoria
dessas e sair de lá com um diagnóstico e um tratamento na
mão. Até eu, se não me cuidar, acabo me enquadrando
em quatro ou cinco casos. Às vezes atendo clientes que saem muito
chateados porque eu digo que eles não têm nada.
Veja Como se deu essa explosão de novos diagnósticos?
Costa
e Silva
Aconteceu com o desenvolvimento das neurociências, a partir das
décadas de 70 e 80. A Associação Psiquiátrica
Americana lançou o DSM-3, manual estatístico dos distúrbios
mentais. Essa publicação serviu de modelo para o capítulo
sobre doenças mentais na Classificação Internacional
de Doenças, feita pela Organização Mundial de Saúde.
Esses trabalhos foram importantíssimos. Foi um grande progresso
unificar a linguagem diagnóstica. Isso facilitou o lançamento
de novos medicamentos no mercado de psicotrópicos, possibilitou
a organização da assistência psiquiátrica e
os estudos epidemiológicos das doenças mentais.
Veja Então qual foi o problema?
Costa
e Silva
Houve excesso de diagnósticos psiquiátricos. Essa variedade
atende mais aos interesses e à saúde financeira da indústria
que à saúde dos pacientes. À medida que as patentes
dos medicamentos foram vencendo, seus detentores originais tiveram de
indicá-los para outros transtornos. Senão perderiam mercado
para os demais laboratórios, que passaram a ter o direito de também
fabricar o remédio. Assim, o laboratório continua a fazer
o mesmo produto, só que com dosagem diferente e, às vezes,
com outro nome. O caso do Prozac é clássico. Para depressão,
o paciente devia tomar 20 miligramas ao dia. Indicado para bulimia, a
dosagem passou a ser de 80 miligramas.
Veja Num mundo de tanta escassez de medicamentos existe excesso
de remédios para o tratamento de doenças mentais?
Costa
e Silva
O curioso é que não. O que há é uma fartura
de categorias para enquadrar os transtornos. Muitas vezes os remédios
são os mesmos para tratar quatro ou cinco diagnósticos,
o que é mais uma evidência do excesso. Isso ocorre também
por uma estratégia da indústria. Para remunerar o investimento,
o mesmo medicamento fica sendo indicado para diferentes situações.
Enquanto ele não se pagar e der lucro, não se lança
uma nova droga, mais específica para este ou aquele mal. Você
começa a tratar bulimia, que é um transtorno alimentar,
com antidepressivo. Da mesma maneira, trata-se o pânico com antidepressivo.
Algo está errado. Eu, por exemplo, não gostaria de ser tratado
de uma febre com antiespasmódicos, que são medicamentos
para dor de barriga.
Veja No cenário que o senhor descreve, a indústria
farmacêutica parece reinar absoluta no país, administrando
seus interesses sem nenhuma interferência do governo. Não
há algo errado aí?
Costa
e Silva Em
primeiro lugar, é preciso lembrar que, quando falo da indústria
e do mercado, não estou me referindo apenas ao Brasil. Estou falando
de coisas que vivenciei nos 22 anos em que estive à frente de organizações
internacionais. Mas é certo que os governos em todo o mundo, e
nesse caso também falo do Brasil, deixaram a indústria mandar
sozinha. A minha crítica é ao fato de os governos e as organizações
intergovernamentais terem permitido que um progresso tão importante
ficasse apenas nas mãos do setor privado. É ela quem decide
que linha de pesquisa vai adotar, que moléculas vai pesquisar e
de que forma colocará no mercado. No final, só apresenta
uma planilha relatando suas intenções. E os governos, depois,
ficam brigando para baixar o preço lá na farmácia,
que é a ponta final. Ora, querer que a indústria não
tenha lucros é uma insanidade. Os laboratórios têm
naturalmente um olho no doente e outro em Wall Street, na bolsa de valores.
Veja Qual deveria ser a ação governamental?
Costa
e Silva
Os governos deveriam ser parceiros na elaboração dos projetos
e na definição das linhas de pesquisa. Até para determinar
prioridades. Se o governo atua no início do processo, habilita-se
a discutir o preço no final. Pode influir no peso das patentes
sobre o custo. Além disso, garante que a pesquisa contemple as
reais necessidades de saúde da população. Como isso
não acontece, não se tem hoje medicamentos eficazes contra
a malária e muitas verminoses, que são doenças do
Terceiro Mundo, onde o mercado é pobre e não oferece compensações
financeiras ao investimento dos laboratórios. É uma lógica
simples. Se os governos não cuidarem do que está sendo lançado,
são as indústrias que vão decidir.
Veja Como lida com essa questão o FDA (Food and Drug
Administration), o departamento que cuida de alimentos e medicamentos
nos Estados Unidos?
Costa
e Silva
O FDA é um organismo do governo americano e, portanto, tem de defender
os interesses do governo dos EUA. Já vi muitos casos em que a própria
comunidade científica daquele país questionou atitudes do
FDA. Eu não caio nessa de que é um órgão interessado
em defender a saúde no mundo. É um absurdo que países
como a Rússia baseiem sua política de medicamentos nas decisões
do FDA. Até porque seus métodos têm sido muito questionados
nos Estados Unidos.
Veja O senhor está dizendo que o Brasil não
deve orientar-se pelos critérios da principal entidade de avaliação
e liberação de medicamentos do mundo?
Costa
e Silva
Estou querendo dizer que o FDA não é um sistema infalível.
Ele serve aos interesses do governo e do povo americano. É muito
bem equipado e com grandes cientistas, mas não pode ser um parâmetro
internacional, porque o mundo não é os Estados Unidos.
Veja Essa situação que o senhor descreve significa
o risco de estarmos consumindo medicamentos ineficazes?
Costa
e Silva
Não é bem assim. A psiquiatria teve avanços importantíssimos
para a qualidade de vida dos doentes nos últimos cinqüenta
anos, mas todos os medicamentos se concentraram no controle dos sintomas.
O sujeito estava lá, ouvindo vozes, achando que era Napoleão,
dava-se o remédio e ele parava com aquilo. Isso não é
ruim. As pessoas estruturam sua vida em torno dos sintomas das doenças.
É evidente que, cessados esses sintomas, a personalidade pode estruturar-se
melhor. O sujeito deixa de achar que o estão perseguindo e começa
a ter uma vida praticamente normal, volta a sair às ruas. Nesse
ponto, foram passos fundamentais. Mas isso não basta. O que queremos
é a cura.
Veja Qual é o próximo passo?
Costa
e Silva
É preciso chegar à causa da doença para tratá-la.
Ninguém quer simplesmente conviver de forma confortável
com a esquizofrenia. As pessoas querem curá-la, mas até
agora só se conseguiu diminuir os efeitos colaterais e dar mais
conforto e qualidade de vida aos doentes. O que não é pouco,
aliás. Nesse aspecto, houve uma revolução. Graças
ao uso dos medicamentos que temos, hoje conseguimos reduzir drasticamente
os casos em que a internação dos doentes mentais em manicômios
é inevitável. Hospital psiquiátrico asilar não
cura, faz doentes. Mas uma nova luta se inicia. A sociedade continua estigmatizando
e não aceitando o doente mental. O trabalho daqui para frente é
investir o dinheiro que era colocado nos hospitais em projetos educacionais
para eles. A sociedade civil tem de se organizar com a ajuda do governo.
Muita gente saiu comemorando como se tivéssemos ganho o jogo. Esse
foi apenas o primeiro tempo.
Veja O senhor fala em caminhos para a cura. Existe essa possibilidade
no que se refere a distúrbios mentais? Em que se avançou
efetivamente nessa direção?
Costa
e Silva
Sigmund Freud abriu uma porta para o universo, com suas teorias da psicanálise,
mas os que vieram depois dele só conseguiram chegar à Lua.
Ficou todo mundo relendo Freud, e ninguém trouxe uma contribuição
revolucionária. A psicanálise não possui ainda um
material científico que possibilite avançar. Esse trabalho
vai ficar a cargo, agora, das neurociências. São elas que
nos vão trazer mais conhecimentos sobre o consciente e o inconsciente,
graças a uma coisa chamada patologia molecular. Os neurocientistas
estão descobrindo a importância da célula na formação
do psiquismo. Eles já constataram que a interação
do neurônio com o ambiente é real. Vai vir daí a grande
revolução.
Veja E como é que o senhor avalia o atual estágio
de desenvolvimento da psicoterapia?
Costa
e Silva
As psicoterapias têm de evoluir muito. Elas são ainda limitadas.
Ficam apenas ao nível da linguagem verbal. Pouco se explorou de
outras linguagens, como a corporal, a intuitiva e a empática. Já
se sabe que essas são formas de comunicação tão
poderosas quanto a linguagem verbal. E elas podem, muitas vezes, dizer
mais sobre o paciente do que ele próprio consegue relatar. Existem
estudos bastante interessantes nessa área sendo feitos nos Estados
Unidos.
Veja O que falta para que a psicoterapia seja vista como
um tratamento eficaz pelo sistema de saúde?
Costa
e Silva
As companhias de saúde precisam deixar. Hoje o sistema de saúde
no mundo inteiro obriga o médico a fazer a psiquiatria do sintoma,
em consultas só de cinco a quinze minutos. Não se dá
atenção ao paciente propriamente dito ou à doença.
Só aos sintomas. Elas não remuneram as consultas adequadamente,
não pagam ao médico para escutar o doente. Não se
pode fazer psiquiatria sem ouvidos. Para piorar, agora querem limitar
os tratamentos a doze ou quinze consultas por ano. É o mesmo que
dizer que uma cirurgia cardíaca tem de durar apenas 35 minutos,
senão elas não pagam. Não se pode precisar quanto
tempo vai durar um ato terapêutico.
Veja E em relação ao funcionamento do cérebro
humano? Quais são os principais avanços?
Costa
e Silva O
cérebro funciona organizando circuitos neuronais. Quando nasce,
o ser humano tem 200 bilhões de neurônios. O fantástico
não são eles, mas a capacidade que têm de se ligar
uns aos outros. Chama-se a isso de plasticidade cerebral. É graças
a esse mecanismo que nós aprendemos a falar, a fazer tudo na vida.
Os neurônios vão fazendo ligações entre si,
chamadas de sinapses. Na adolescência, o organismo promove uma limpeza
nelas. Elimina as anteriores e forma novas. Esse fenômeno, descoberto
há apenas seis anos, é chamado de poda. As sinapses começam
a ser literalmente podadas para que surjam novas ligações.
Tudo que surge no cérebro nesse momento a pessoa leva para o resto
da vida. Na Universidade de Nova York, onde dirijo um centro de pesquisa,
gosto especialmente da busca de um tratamento para a esquizofrenia, que
estamos empreendendo com resultados fascinantes até agora. Estamos
provando que, se a doença for tratada na fase da adolescência,
quando ocorre uma remodelação das ligações
neurais do indivíduo, as chances de cura são enormes. O
mesmo acontece com a dependência de drogas ou o alcoolismo.
Veja O Brasil tem chance de participar dessa revolução
científica na área do conhecimento do cérebro humano?
Costa
e Silva
É difícil, mas não por falta de competência
dos profissionais. São necessários investimentos muito altos.
Basta ver a verba operacional do Instituto de Saúde Mental dos
Estados Unidos. É de 1,8 bilhão de dólares. E veja
bem: isso é o investimento de um órgão de governo.
Se somar as universidades e os centros de pesquisa, é de muitas
vezes mais. Para se ter uma idéia do que isso representa, o orçamento
anual da OMS é de 1 bilhão de dólares para o mundo
todo, e para lidar com todas as doenças. No Brasil, o setor do
Ministério da Saúde dedicado à saúde mental
tem apenas dois funcionários. Essa é a medida da importância
que nós temos dado ao assunto.
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