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Edição 1 706 - 27 de junho de 2001
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Sérgio Abranches

Ajustes que desajustam

"Desde que assumiu, o ministro Cavallo
está nessa ciranda de consertos que
pouco resolvem e arriscam terminar
no colapso do regime monetário"


 
O pacote de medidas lançado por Domingo Cavallo nasceu destinado a ser tão controvertido quanto seu heterodoxo patrono. Por isso, Cavallo não tem feito outra coisa senão explicá-lo aos mercados. Ele está assumindo alto risco ao mexer no pilar central do regime econômico argentino, a convertibilidade, no calor de uma crise que se agrava a cada dia.

Parece uma maldição contra os ministros das Finanças que enfrentam stress cambial: no começo da crise, quando ainda há chance de ação preventiva, mediante uma ruptura no curso da política econômica, nada parece tão grave que justifique o custo da mudança. Quando a crise já está em estágio avançado e os custos de qualquer saída muito elevados, a equipe econômica prefere ajustar a economia por meio de pacotes que apenas corrigem as deficiências de superfície do regime econômico. Esses ajustes freqüentemente têm conseqüências imprevistas que neutralizam os efeitos pretendidos e realimentam a crise. Após um período de calmaria, a crise ressurge, pedindo outro pacote.

Desde que assumiu, o ministro está nessa ciranda de consertos que pouco resolvem e arriscam terminar no colapso do regime monetário. Parece ter-se tornado prisioneiro da lógica simples dos "ajustes que desajustam". Incapaz de atacar a raiz do problema, implementa medidas pontuais na busca de algum equilíbrio. Após um certo tempo, porém, efeitos colaterais não antecipados anulam os resultados pretendidos e levam a um novo patamar de desequilíbrio.

Na busca de maior competitividade no comércio externo, cuja ausência se deve a falhas estruturais da economia argentina que o câmbio fixo agrava, abre uma cunha no regime de paridade, criando o "câmbio comercial". Essa fissura aumenta a percepção de risco e a desconfiança no regime cambial, visto como cada vez "menos intocável". O aumento da percepção de risco faz com que o mercado antecipe a possibilidade de uma ruptura cambial, ao mesmo tempo que supõe que o "efeito tango" será forte no Brasil, e por isso pressiona o câmbio brasileiro, provocando uma onda de forte desvalorização do real. A queda do real atualiza a defasagem cambial com a Argentina e neutraliza boa parte dos ganhos que a medida inicial poderia ter.

O mesmo se aplica às medidas de estímulo ao crescimento, misturadas a ações que podem inibi-lo, como o "impostaço". O efeito dos estímulos diante dos desestímulos pode não ser de compensação, e sim de anulação recíproca. Se esse for o caso, não haverá reforço tributário duradouro nem estímulo ao crescimento, e a resultante pode ser recessiva. A elevação repetida do risco desestimula o crescimento ao aumentar a taxa de juros, que reduz investimentos produtivos, e ao provocar a desvalorização no Brasil. Esse impacto negativo sobre o nível de investimento pode, por sua vez, diminuir a receita e neutralizar a elevação dos impostos. O resultado seria recessão com aprofundamento do desequilíbrio fiscal.

O efeito composto e acumulado desses desajustes provocados por ajustes emergenciais pode ser devastador. Foi assim em boa parte dos planos de estabilização, hoje no cemitério das ações bem-intencionadas, destruídos por seus efeitos colaterais. Foi assim também nas tentativas de "desvalorização controlada", desde a crise do México, sepultadas na alameda das ações heróicas, desse mesmo cemitério das boas intenções.

Mas o xis da questão é a credibilidade, que pode ser perdida na sucessão de pacotes, que não resultam em esforço coerente para promover a mudança do regime econômico argentino. Conte-se a favor de Cavallo o apoio interno, a reputação pessoal e a capacidade de persuasão. Conte-se contra ele que o balanço de pagamentos está furado, o equilíbrio fiscal comprometido, a economia estagnada, consumidores e investidores arredios, o presidente enfraquecido e sem chance de fortalecimento, com seu partido ameaçado de fragorosa derrota em outubro, e o ministro da Economia sustentado pela oposição peronista, cada vez mais envolvida em seus próprios problemas internos. O PIB está caindo 2%, apesar das medidas anteriores. E se não voltar a subir? Os ingredientes são explosivos e o cenário aponta para fortes emoções à frente.


Sérgio Abranches é cientista político
(
sergioabranches@sda.com.br)

 
 
   
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