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Sérgio
Abranches
Ajustes que desajustam
"Desde
que assumiu, o ministro Cavallo
está nessa ciranda de consertos que
pouco resolvem e arriscam terminar
no colapso do regime monetário"
O pacote de
medidas lançado por Domingo Cavallo nasceu destinado a ser tão
controvertido quanto seu heterodoxo patrono. Por isso, Cavallo não
tem feito outra coisa senão explicá-lo aos mercados. Ele está
assumindo alto risco ao mexer no pilar central do regime econômico
argentino, a convertibilidade, no calor de uma crise que se agrava a cada
dia.
Parece uma
maldição contra os ministros das Finanças que enfrentam
stress cambial: no começo da crise, quando ainda há chance
de ação preventiva, mediante uma ruptura no curso da política
econômica, nada parece tão grave que justifique o custo da
mudança. Quando a crise já está em estágio
avançado e os custos de qualquer saída muito elevados, a
equipe econômica prefere ajustar a economia por meio de pacotes
que apenas corrigem as deficiências de superfície do regime
econômico. Esses ajustes freqüentemente têm conseqüências
imprevistas que neutralizam os efeitos pretendidos e realimentam a crise.
Após um período de calmaria, a crise ressurge, pedindo outro
pacote.
Desde que
assumiu, o ministro está nessa ciranda de consertos que pouco resolvem
e arriscam terminar no colapso do regime monetário. Parece ter-se
tornado prisioneiro da lógica simples dos "ajustes que desajustam".
Incapaz de atacar a raiz do problema, implementa medidas pontuais na busca
de algum equilíbrio. Após um certo tempo, porém,
efeitos colaterais não antecipados anulam os resultados pretendidos
e levam a um novo patamar de desequilíbrio.
Na busca
de maior competitividade no comércio externo, cuja ausência
se deve a falhas estruturais da economia argentina que o câmbio
fixo agrava, abre uma cunha no regime de paridade, criando o "câmbio
comercial". Essa fissura aumenta a percepção de risco e
a desconfiança no regime cambial, visto como cada vez "menos intocável".
O aumento da percepção de risco faz com que o mercado antecipe
a possibilidade de uma ruptura cambial, ao mesmo tempo que supõe
que o "efeito tango" será forte no Brasil, e por isso pressiona
o câmbio brasileiro, provocando uma onda de forte desvalorização
do real. A queda do real atualiza a defasagem cambial com a Argentina
e neutraliza boa parte dos ganhos que a medida inicial poderia ter.
O mesmo
se aplica às medidas de estímulo ao crescimento, misturadas
a ações que podem inibi-lo, como o "impostaço". O
efeito dos estímulos diante dos desestímulos pode não
ser de compensação, e sim de anulação recíproca.
Se esse for o caso, não haverá reforço tributário
duradouro nem estímulo ao crescimento, e a resultante pode ser
recessiva. A elevação repetida do risco desestimula o crescimento
ao aumentar a taxa de juros, que reduz investimentos produtivos, e ao
provocar a desvalorização no Brasil. Esse impacto negativo
sobre o nível de investimento pode, por sua vez, diminuir a receita
e neutralizar a elevação dos impostos. O resultado seria
recessão com aprofundamento do desequilíbrio fiscal.
O efeito
composto e acumulado desses desajustes provocados por ajustes emergenciais
pode ser devastador. Foi assim em boa parte dos planos de estabilização,
hoje no cemitério das ações bem-intencionadas, destruídos
por seus efeitos colaterais. Foi assim também nas tentativas de
"desvalorização controlada", desde a crise do México,
sepultadas na alameda das ações heróicas, desse mesmo
cemitério das boas intenções.
Mas o xis
da questão é a credibilidade, que pode ser perdida na sucessão
de pacotes, que não resultam em esforço coerente para promover
a mudança do regime econômico argentino. Conte-se a favor
de Cavallo o apoio interno, a reputação pessoal e a capacidade
de persuasão. Conte-se contra ele que o balanço de pagamentos
está furado, o equilíbrio fiscal comprometido, a economia
estagnada, consumidores e investidores arredios, o presidente enfraquecido
e sem chance de fortalecimento, com seu partido ameaçado de fragorosa
derrota em outubro, e o ministro da Economia sustentado pela oposição
peronista, cada vez mais envolvida em seus próprios problemas internos.
O PIB está caindo 2%, apesar das medidas anteriores. E se não
voltar a subir? Os ingredientes são explosivos e o cenário
aponta para fortes emoções à frente.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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