Um garoto esperto e
uma idéia maluca

A idéia, a mais maluca do século, é o
totalitarismo. O menino é Umberto Eco,
o futuro autor de O Nome da Rosa

Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália? Este era o tema do concurso de redação proposto pelos organizadores dos Ludi Juvenile (Jogos Juvenis) aos jovens fascistas italianos — vale dizer, a todos os jovens italianos. Estamos em 1942, e não era o governo que era fascista, na concepção que se diz hoje que tal governo é liberal e tal outro, socialista, ou não era apenas o governo — era a Itália. Toda a Itália. Vale dizer que todos os italianos eram fascistas. Portanto, também todos os jovens italianos. Essa era pelo menos a pretensão do regime — pegar tudo. Começa-se a compreender aí o sentido da palavra totalitário. O regime totalitário tem todas as respostas, dita normas para a totalidade da vida, e por isso mesmo foi feito para acolher sob seu teto, amplo como o céu que cobre a terra, a todos. Trata-se de uma singular extravagância filosófica, que no entanto era aceita com naturalidade, quando não como a salvação da humanidade, naquela quadra da História.

Devemos morrer pela glória de Mussolini e pelo destino imortal da Itália? Entre os jovens fascistas — todos os jovens italianos — que deveriam dissertar sobre o tema estava um garoto de 10 anos, Umberto Eco, que ao crescer viria a ser um dos intelectuais italianos mais conhecidos no mundo, autor de O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, mestre da semiótica, notável crítico de literatura e de cultura. O menino Eco na época vivia cercado de camisas-negras, o uniforme dos fascistas — uma moda italiana que, segundo diz, fazia mais sucesso mundo afora do que fazem hoje Armani e Versace. Também faziam parte do universo do menino os discursos de Mussolini. Na escola, tinham de decorá-los. No caso do tema daquela dissertação, Eco optou por uma resposta afirmativa e caprichou na retórica. "Eu era um garoto esperto", diz. Ganhou o primeiro prêmio.

Esse episódio está contado por Eco, com a inteligência e o bom humor de sempre, no livro Cinco Escritos Morais, lançado agora no Brasil (Editora Record). O fascismo é em geral abordado, nos romances, no cinema ou nos livros de história, em seus aspectos macro. Fala-se sobretudo das tragédias que provocou. Nesse trecho de Eco, na verdade um fiapo autobiográfico em meio a uma conferência que versa sobre o conceito de fascismo, tem-se o fenômeno observado pelos olhos miúdos de um menino. O mundo era fascista, para ele. Não é só que os fascistas desejavam que toda a Itália fosse fascista. Eles quase o conseguiam.

A força da onda fascista, impulsionada por aquela insana idéia de que todos têm de ser a mesma coisa, é captada num belo filme italiano da década de 70, Um Dia Muito Especial, de Ettore Scola. O dia em questão é em 1938, quando Adolf Hitler visitou o amigo Mussolini em Roma. A excitação era geral. Toda a Roma foi à Via dos Foros Imperiais, a avenida triunfal da cidade, para recepcionar o visitante, os homens devidamente paramentados nas camisas negras, quando não de botas e lenços no pescoço, as mulheres de saias e boinas negras. Foi uma celebração embriagante como uma orgia. O filme apresenta, como fundo sonoro, uma transmissão de rádio em que o evento é descrito no tom de final de Copa do Mundo.

Só duas pessoas, na história, não participam do entusiasmo geral. São as duas únicas, do prédio em que moram, que não foram ao desfile e ficaram, cada uma, em seu apartamento — um homossexual (Marcello Mastroianni) e uma dona de casa simples (Sophia Loren). Eles acabam se conhecendo por acaso e vivem quase uma história de amor, longe da fúria da multidão lá fora. Os dois são os "diferentes" do filme. São o contraponto à unanimidade encenada na Via dos Foros Imperiais, o desmentido à fantasia tola e perversa de que o coração de toda a Itália estaria pulsando ao ritmo do coração do Duce.

De um livro fomos a um filme. Voltemos ao livro. No ano seguinte ao daquele prêmio de redação, em 1943, no dia 27 de julho, o menino Eco é informado de que Mussolini fora deposto. A mãe manda-o comprar os jornais, e na banca ele tem uma surpresa. Os jornais apresentavam-se diferentes do costume. Cada um dizia uma coisa. E havia uma mensagem assinada por partidos de que nunca ouvira falar — Democrata-Cristão, Socialista, Comunista... Até então, pensara que só existia um partido, o Fascista. Eco, na argúcia de seus 11 anos, concluiu que aqueles partidos não podiam ter surgido durante a noite. Já existiam, mas não apareciam nos jornais. O que queria dizer que, ao contrário das aparências, na Itália não eram todos fascistas. No filme de Scola, o fato de que havia gente diferente é ilustrado pelo casal Mastroianni-Sophia Loren. No livro de Eco, surge na mente de um menino ao passar os olhos por uma página de jornal. A noção de que um regime político podia embrenhar-se em cada alma e dominar cada cabeça fez-se e desfez-se em um ano, na percepção do menino. Na História do século XX, demorou mais para desfazer-se. Garoto esperto.




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