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apartamento na Praia do Flamengo, diante de obras de arte que não consegue mais admirar, como a escultura vermelha do amigo Franz Weissmann, ele revela: "Tenho medo da morte" |
| Foto: Paulo Jares |
Durante cinco décadas, uma dor de cabeça infernal acompanhou o poeta João Cabral de Melo Neto. Apareceu quando ele tinha 16 anos e sumiu quando já havia completado 66, tão misteriosamente quanto começara. Era um tormento contínuo, sem trégua, capaz inclusive de arrancá-lo do sono. Mas não era inimigo de sua poesia. Ele agüentava à custa de comprimidos, no mínimo seis por dia, e não parava de escrever. Chegou até a zombar da doença: em Num Monumento à Aspirina compara o remédio a um "sol artificial", a uma lente que, "por detrás da retina", punha o mundo novamente em foco. Quando já não precisava dessa lente analgésica, João Cabral foi traído pelos olhos. Como o romancista Jorge Amado, ele passou a sofrer de degeneração da retina. Só que no seu caso o processo foi bem mais acelerado. Não há tratamento nem cura. Aos 78 anos, o maior poeta brasileiro vivo, um dos maiores da língua portuguesa, constantemente cogitado para o Prêmio Nobel de Literatura, está cego e desistiu de escrever. "Quando publiquei o livro Sevilha Andando, em 1990, eu não sabia, mas acabava de acrescentar o ponto final à minha obra."
Alguns escritores já enfrentaram a cegueira. O argentino Jorge Luis Borges foi um deles: aprendeu a ditar e, desse modo, não precisou deixar o ofício. João Cabral, no entanto, era guiado pela visão. Não se considera capaz de criar um poema sem vê-lo tomar forma no papel. "Eu jamais funcionei pelo ouvido", diz. Fora da literatura, suas maiores influências vieram da arquitetura sem adornos de Le Corbusier, da arte construtivista, de pintores como Mondrian. Por isso mesmo, a perda da capacidade de enxergar teve um efeito devastador sobre o poeta de O Cão sem Plumas. A palavra depressão entrou em seu vocabulário. "Estou constantemente deprimido", ele repete para as poucas pessoas com quem ainda mantém contato e se dispõe a conversar. O poeta recorre a medicamentos para dormir e se acalmar, mas suspeita que eles estejam corroendo sua memória. Seu cotidiano se tornou severino, uma espécie de morte em vida. João Cabral pouco sai de casa, temendo a violência e as calçadas esburacadas do Rio de Janeiro, onde vive desde 1987. "Tenho receio de tropeçar", diz. Privado da leitura, seu maior prazer, passa o tempo ao lado de um rádio. Ele não gosta de música, como demonstram seus versos, de métrica pouco amistosa para o ouvido acostumado à lírica luso-brasileira. Escuta notícias e muitas vezes se angustia com elas. João Cabral sempre foi um homem miúdo e seco. Mais miúdo e seco agora, por causa das armadilhas da saúde. Recentemente, teve uma pneumonia dupla. Sente dificuldade para falar por causa da respiração ofegante.
O poeta nasceu no Recife, em 9 de janeiro de 1920, e teve infância de menino de engenho. Um "menino bastante guenzo", ou magrinho, como ele mesmo menciona num poema. Sua família era abastada, mas a procissão dos que fugiam da seca passava em frente da casa-grande. Informações sobre a miséria nordestina estão entre aquelas que o perturbam. Não que ele se mostre sentimental sobre o assunto. Sentimentalismo é o contrário de tudo que buscou como artista. Professa, no entanto, uma "eterna solidariedade" para com a região de onde veio. Uma das grandes viradas em sua carreira deu-se justamente ao ganhar uma nova consciência dos problemas nordestinos. Aconteceu "num susto", por volta de 1950. Ele exercia seu primeiro cargo diplomático em Barcelona (entrou na carreira em 1945 e aposentou-se em 1990), quando leu na revista El Observador Económico que a expectativa de vida dos habitantes da Índia era de 29 anos, enquanto a dos habitantes de Pernambuco era de apenas 28. Chamado às falas pela realidade, resolveu deixar de lado os assuntos por demais "abstratos" (como a lógica da criação artística, que tinha explorado no livro Psicologia da Composição). Radicalizando as pesquisas em que já estava empenhado, adotou para sempre uma poética baseada na palavra concreta, na linguagem rigorosa e direta. Voltou-se para os temas sociais. Daí surgiram obras como O Rio, no qual é o próprio Capibaribe quem fala, narrando seu percurso pelo Nordeste, ou Morte e Vida Severina, seu poema mais conhecido, sobre a tragédia dos retirantes.
Talvez por hábito de diplomata, João Cabral é muito esquivo quanto às suas preferências políticas. Sabe-se que professava o marxismo, corrente político-filosófica que ainda admira. Sofreu um choque que até hoje persiste transmutado em discrição sobre o assunto quando a ditadura soviética veio abaixo, depois da queda do Muro de Berlim, e os crimes cometidos pelo regime durante setenta anos assumiram proporções ainda mais espantosas. "Mataram meu único ídolo: Stalin", chegou a comentar com um amigo. Mas ele insiste que jamais pôs em prática suas convicções no papel de militante. Ainda fala com uma dose de ressentimento da intriga que quase o tirou do Itamaraty em 1953, quando, em meio à paranóia do regime getulista, ele e cinco colegas foram acusados de subversão e "comunismo".
O João Cabral de hoje é um homem lacônico. Um encontro com ele é vazado por silêncios. Vários testemunhos, no entanto, provam que se tratava de um grande conversador. Ainda jovem, no Recife, fez parte de um círculo animado de intelectuais, que se reunia no Café Lafayette para discutir literatura. O hábito de sentar com amigos para conversar sobre estética se prolongou pela vida. João Cabral preferia falar a escrever cartas. Seu acervo de correspondência é pequeno comparado aos de outras figuras-chave da literatura brasileira deste século. "Devo ser o único escritor brasileiro que nunca recebeu uma correspondência do Mário de Andrade, aquele sim um sujeito que redigia cartas compulsivamente", diz. Murilo Mendes, Drummond, Rubem Braga e Vinicius de Moraes foram alguns dos seus interlocutores. Nos postos de diplomata, sobretudo na Espanha, também encontrou parceiros. Impedido de expor ou formar grupos artísticos pelo governo fascista do general Franco, Joan Miró, um dos mestres da pintura moderna, passava as tardes trocando idéias com João Cabral, quando este foi cônsul em Barcelona. Outros artistas guardam memórias de conversas com ele. Segundo o poeta catalão Joan Brossa, João Cabral teve um papel fundamental para toda uma geração de poetas e pintores que amadureceram durante a ditadura franquista. "Por meio dele, obtínhamos informação sobre a arte que estava sendo feita no mundo", diz Brossa.
Agora, o próprio João Cabral sofre com as dificuldades de saber o que acontece à sua volta. Ele se ressente das poucas visitas e da ausência da família. Sua filha mora em Cuba. Ele e o irmão, o historiador Evaldo Cabral de Melo, se afastaram por causa de um desentendimento envolvendo uma relíquia familiar. A companhia constante é mesmo a da mulher e também poeta Marly de Oliveira (a admiração artística é recíproca entre eles). No apartamento espaçoso da Praia do Flamengo, diante de objetos de arte que não mais consegue admirar, como a escultura vermelha assinada pelo amigo Franz Weissmann, João Cabral revela: "Tenho um medo danado da morte". Ao lado da aversão pela poesia floreada e declamatória ("Enquanto os padres liam Olavo Bilac, eu só pensava em futebol"), esse medo é o único legado que uma educação católica lhe trouxe. "Como artista, sempre desejei olhar para fora, para os objetos e pessoas que estavam fora de mim", diz ele. "Agora, estou passando por uma situação perturbadora." Um crepúsculo em preto-e-branco, mesmo para o poeta que desejou "cultivar o deserto como um pomar às avessas".
Copyright © 1998, Abril
S.A. |