Truque literário

O ilusionismo de um aprendiz de mágico

Quando morreu, em 1985, o escritor Italo Calvino deixou um legado que extrapola a delicadeza de suas obras. Ele desenvolveu um tipo de literatura que expõe ao leitor a maneira como é confeccionada, a sua natureza de artifício, de prestidigitação. Calvino era como um mágico que não escondia de sua platéia os passos de cada truque. Outro italiano segue nessa trilha: Andrea Canobbio, autor de A Mudança (Editora Mandarim; tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade; 193 páginas; 20 reais). Aos 36 anos, ele ainda pode ser considerado um aprendiz de ilusionista. Seus números, na maioria das vezes, têm desenlaces que prometem muito e surpreendem pouco. Mas é forçoso reconhecer que Canobbio domina o ofício, escreve melhor que a média de sua geração.

O livro tem como ponto de partida a mudança de seu personagem central, o jovem tradutor Claudio, de um apartamento menor para outro maior. Em torno dessa situação que dá margem a considerações de caráter existencial, o narrador tece variantes segundo as alterações de seu estado de espírito. Ele próprio é um personagem que vive uma história paralela à de Claudio. Cheio de idas e vindas, intercaladas por reflexões sobre o que é chamado de "processo de criação do texto literário" nas faculdades de letras. A Mudança não é decerto obra de entretenimento, embora esteja longe de ser hermética. É um romance para quem nutre curiosidade pelos mecanismos dessa arte tão inútil quanto inóspita que é a literatura. Não se tomem, porém, essas características como defeitos. Justamente pelo fato de ter escassa utilidade prática, de estar distante das exigências do grande público, a literatura pode ser território de experimentações. Canobbio se esforça para pôr em prática essa lição.

M.S.




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line