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O
chefe Ramão, preso na semana passada |
| Foto: Egberto Nogueira |
A aldeia indígena de Dourados, em Mato
Grosso do Sul, tornou-se famosa graças a uma macabra
estatística. Entre seus 7.000 habitantes da etnia
guarani-caiová, 250 cometeram suicídio nos últimos dez
anos. O fenômeno atraiu a atenção internacional e deu
origem a uma teoria. Os índios decidiam tirar a própria
vida porque perdiam a identidade após o contato com os
brancos. Como deixavam de ser guerreiros para se
transformar em meros favelados, preferiam a morte. Foram
publicadas reportagens em revistas estrangeiras, houve
manifestações em Londres contra o descaso do governo
brasileiro e até o grupo de rock Sepultura compôs uma
música de protesto. Até que a antropóloga Roseli
Arruda, da Universidade Federal de Pernambuco, decidiu
estudar o assunto para uma tese de mestrado. Investigando
os casos mais recentes, ela descobriu que, de fato, boa
parte das mortes pode ser atribuída a suicídio. Mas
pelo menos 28 delas não passavam de assassinatos
disfarçados. E cometidos pelos próprios índios.
Roseli constatou que muitas cenas de suicídio eram de montagens grosseiras. Algumas vítimas apareciam enforcadas em bananeiras de meio metro de altura, outras em galhos incapazes de sustentar o peso de uma pessoa. Em muitos casos, a autópsia não apontou um indício sequer de asfixia. Em compensação, os corpos estavam cobertos de hematomas. "Há 28 homicídios evidentes. Mas, como a documentação sobre as mortes antigas é precária, o número pode ser maior", diz Roseli. O trabalho da antropóloga transformou-se numa denúncia que foi encaminhada ao Ministério Público. Os procuradores já analisaram três das mortes suspeitas e concluíram que foram, de fato, homicídios.
Segundo a investigação, os falsos suicidas costumam ser guaranis do sexo masculino, com idade entre 16 e 21 anos. É nessa fase da vida que, pela tradição da tribo, ganhariam o direito a um pedaço de terra. Os suicídios não passariam, então, de assassinatos em brigas pela terra. Os matadores pertenceriam ao Conselho Indígena, instituição criada pelos próprios índios, que faz o papel de polícia dentro da reserva. Quando o caiová Aguimar Peixoto, morto no ano passado, foi visto com vida pela última vez, era arrastado para fora da aldeia por integrantes do conselho e gritava por socorro. Apareceu dias depois, "enforcado" em um galho fino. "Foi assassinato", acusa seu irmão, Zenaide Peixoto. Na semana passada, a Justiça federal decretou a prisão preventiva do suposto mandante, o chefe da aldeia, Ramão Machado da Silva. O cacique, um índio terena que responde a processos por grilagem de terra e arregimentação de trabalho escravo, é acusado de agir como ditador e não tolerar dissidências. Ramão foi preso na quinta-feira e seus correligionários, em represália, fizeram prisioneiros cinco índios caiovás, dizendo que só os libertariam quando o cacique fosse solto.
Os falsos suicídios são apenas o capítulo mais recente da tumultuada história da reserva de Dourados. Ali, numa área originalmente dos guaranis, vivem várias tribos diferentes. Na década de 40, o governo decidiu juntá-las na mesma reserva com os terenas, mais avançados, que foram introduzidos para ensinar agricultura aos outros grupos. Acabaram submetendo as etnias restantes a seu comando.
Maurício Lima, de Dourados
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S.A. |