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| Fotos: Alvaro Elkis |
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| Gloria
ensina tudo: conselhos preciosos para os perdidos na selva do closet |
Bons tempos (para eles) aqueles em que moda era assunto
de mulher e homem que era homem no máximo condescendia em experimentar,
entre demonstrações explícitas de impaciência, uma roupa nova, para ver
se assentava. Hoje em dia, é difícil encontrar um engravatado disposto
a negar que o cuidado com a aparência é fundamental na hora de arrumar
um emprego, uma namorada ou um bom cliente, não necessariamente nesta
ordem. Homem que é homem agora se interessa, sim, por moda, estilo e combinação
de roupas. Duro mesmo é desvendar seus mistérios. O mundo aparentemente
restrito do guarda-roupa masculino convencional calça, camisa,
gravata e umas coisinhas esportivas para o fim de semana reserva
dilemas excruciantes. Como usar gravata estampada com camisa listrada?
A cor da meia acompanha o quê? Qual o comprimento correto do paletó do
terno? Quem se atormenta com dúvidas desse tipo já pode enfrentar o provador
de ombro empinado. Chega às livrarias nesta semana Chic Homem
Manual de Moda e Estilo, em que a ultra-elegante Gloria
Kalil, consultora de moda e colaboradora de VEJA, ensina aos marmanjos,
tintim por tintim, como estar bem vestido nas mais diversas ocasiões (ao
longo desta reportagem, ela faz um resumo dos escorregões mais comuns
e de como evitá-los).
O livro é conseqüência natural do Chic
para mulheres, que Gloria lançou no fim de 1996, vendeu
como Prada a preço de modinha popular e já está na
15ª edição. O manual masculino, no entanto, tem sua
própria e muito sólida razão de ser: um público
ávido de informação. "Nas palestras que faço
pelo Brasil, percebi que tanto homens quanto mulheres
pediam um livro desses, que não é só sobre moda, mas
sobre imagem, o que envolve comportamento e outros
aspectos", diz a autora, que atribui à
superproteção feminina uma parcela da culpa pela
insegurança diante do espelho de marmanjos capazes de
criar programas de computador ou entender os arcanos da
crise asiática. "O problema dos homens é que as
mulheres não ensinam, elas dão pronto. Primeiro a mãe,
depois a mulher ou namorada escolhem a roupa e entregam o
pacote para ele vestir. Quando deixam de ter essa mulher
on-line, as dúvidas começam", explica Gloria. Para
contornar essa bem-intencionada sonegação de
informações, o livro tem uma preciosa seção de
bê-á-bá: o terno tal combina com tais gravatas, tais
camisas, tais meias, tais sapatos e tais cintos. Sob
medida para perdidos na selva do closet como um amigo de
Gloria, que lhe contou ter travado uma batalha com o
próprio guarda-roupa quando se separou da mulher.
"Ele se queixou de que era o mesmo armário, as
mesmas roupas, os mesmos sapatos, mas, por algum motivo,
nada ficava bom nele", lembra.
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Carreira
em ascensão, conta bancária recheada? Cuidado com os exageros do "visual de novo-rico". Gravata (curta demais) combinando com o lencinho está definitivamente por fora. Os dourados na fivela, no prendedor, na pulseirinha evocam um outro tipo de banqueiro |
| Terno
uva (e correlatos), nem pensar, ainda mais com paletó curto e calça que faz pregas sobre o sapato. O terno pode ter uma cor intensa, mas confiável. Camisa e gravata escuras é chique e moderno. Jogue no lixo as meias clarinhas |
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| O mesmo terno, com os acessórios certos
e a barra da calça na altura correta, denota refinamento. A mistura de listas na camisa com bolinhas na gravata baixa o tom formal do preto e produz uma roupa sofisticada no ponto certo |
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Babá visual
Para mentes viciadas no mais repetido mantra masculino quando o assunto
é o bem trajar "Eu não ligo para esse negócio de roupa"
, pode ser complicado mesmo. Tanto que começa a fazer nome entre
pessoas comuns uma figura que antigamente só atuava entre artistas e,
mais raramente, políticos: a consultora de imagem, uma espécie de babá
do visual, contratada com a missão de montar um guarda-roupa completo
para o cliente e, se não for caso perdido, muni-lo das ferramentas para
um dia se virar sozinho. Entre essas armas está a cartela das cores ideais,
como a que a consultora Ilana Berenholc organizou para o físico paulista
Alfredo Bianco, da qual ele não desgruda em momento algum. Dono de uma
empresa de informática que o obriga a visitar clientes com freqüência,
Bianco, que se descreve como "nem alto nem propriamente magro",
garante ter aprendido muita coisa. "Não divido mais minha silhueta.
Uso roupas que têm continuidade e dão a sensação de alongar o corpo",
ensina, com orgulho de quem explica o princípio onda-partícula. Igualmente
satisfeito, o médico Claudio Lottenberg, um vaidoso assumido que só usava
terno com camisa branca e sapato e cinto da mesma cor por falta de confiança
no próprio gosto, agora arrisca misturas arrojadas, sob a orientação de
Christiana Francine. "Fiquei mais criativo, mais ousado, e todo mundo
está percebendo", festeja Lottenberg, satisfeito. São, certamente,
exceções. "O brasileiro em geral tem dificuldade em pedir opinião
sobre roupa", constata Christiana.
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Cheio
de gás e louco para arrasar com as gatas, tropeça na malandragem: manga arregaçada em cima do blazer (ele usa, mas ele é Rei), camisa aberta no peito (pior, só se for transparente), relojão de ouro, calça balão, metal no sapato. Descontração elegante pede roupas, cores e acessórios que resultem em uma silhueta bem definida |
Por isso mesmo, sua frio no provador.
"O cliente que faz compra sozinho geralmente fica indeciso",
confirma o vendedor de roupa masculina Roberto da Silva. A coisa muda
de figura se ele leva junto uma mulher: "Ela é fundamental na decisão.
É dela a opinião final". Ou era. Com o quesito aparência subindo
sem parar na consideração das empresas e do círculo social em geral, os
homens, e as mulheres também, querem quebrar a dependência, por conveniência
(quando o casal se separa) e necessidade (viagens mais freqüentes, mulheres
mais ocupadas). "Hoje, é raro entrar na loja um homem que não conheça
nada de moda", afirma Sérgio Pretto, gerente da griffe masculina
Vila Romana. Eles também estão se acostumando mais à idéia de gastar com
roupas, em lugar de investir tudinho naquele sensacional aparelho de som
de última geração. "O homem atual renova mais o guarda-roupa. Geralmente,
faz uma ou duas compras grandes por ano e depois vai fazendo pequenas
reposições: uma gravata diferente, uma camisa moderna", relata Adriana
Camelo, diretora da tradicionalíssima Confecções Camelo, de São Paulo,
que produz 15.000 paletós e 21.000 calças masculinas por mês. As fábricas,
por sua vez, vão se adaptando aos novos tempos, lançando mais novidades
mais vezes por ano. "Até há bem pouco tempo, o brasileiro só usava
paletó tipo jaquetão, com quatro ou seis botões", informa Adriana,
fazendo referência ao modelão celebrizado pelo ex-presidente José Sarney.
"Agora oferecemos, e é muito bem-aceito, um corte mais reto, com
dois, três e até quatro botões enfileirados", acrescenta. Detalhe:
o de três botões anda arrasando, a ponto de até ameaçar a liderança do
jaquetão. Importante mesmo é não desanimar um mercado que movimenta quase
10 bilhões de reais por ano, ou 40% do faturamento total da indústria
de vestuário no Brasil.
| A
tentação de caprichar na hora da festa é um perigo. O smoking dispensa frufrus, camisas de cor e colarinhos que lembram os caninos de um vampiro. O clássico resolve. Nenhum problema em alugar, mas faça questão de que a calça seja do comprimento das suas pernas. Se puder, dê um toque de refinamento: use sapatos de verniz |
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É uma quantia relativamente razoável, num país onde o traje masculino mais comum, numa escala da pirâmide social, é a dupla calção com chinelo e, na outra, o imbatível uniforme dos engravatados. "Na minha opinião, o futuro da moda está em um traje mais informal, mais adaptado à vida moderna do que o terno, que já tem 100 anos", analisa o jornalista Fernando de Barros, que lança em agosto um livro sobre o tema, O Homem Casual. Mas no Brasil, diz ele, isso vai demorar muito, pois os homens ainda nem se recuperaram totalmente do trauma de anos e anos de inflação nas alturas e roupas a preços estratosféricos. Além disso, as empresas permanecem formalíssimas. "Algumas até hoje só aceitam camisa branca", critica. Apesar da obviedade das convenções, o fato é que a relação entre a moda e os homens ficou mais íntima ou voltou a ficar, já que na renascença, por exemplo, a fatiota era assunto seriíssimo justamente porque se vestir bem virou exigência, acima de tudo profissional, para muita gente. "Na procura de emprego, não basta um currículo impecável. A aparência influencia muito o sucesso do candidato e também sua ascensão na carreira", alerta Thomas Case, coordenador de pesquisas para o Grupo Catho, de seleção de executivos. No último estudo, que ouviu 443 executivos entre janeiro e abril deste ano, a boa impressão no emprego ganhou longe de itens como sucesso com as mulheres e aceitação social entre as situações em que aparência é importante (veja a pesquisa completa no quadro acima).
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É
possível errar com jeans? É, se ele for desbotado, baggy, enrugado em cima do sapato e decorado com um exuberante pesponto lateral. Acompanhar tudo isso com camisa bobinha, sem personalidade, é errar em dobro. Jeans tem de ser reto, sem firulas. E vá de xadrez, que tem caráter |
Sexta-feira
13 Como assegurar essa boa impressão? A resposta aparentemente
vem fácil: o campeoníssimo terno azul-marinho, tiro e queda para quem
procura emprego segundo 67% dos entrevistados pela Catho, é garantia de
sucesso. Mal administrado, no entanto, o terno azul-marinho pode deixar
o executivo ambicioso com pinta de segurança. As características específicas
também devem ser levadas em conta. Na DuPont, gigante do setor químico,
vendedores e executivos da área de produtos agrícolas não usam terno,
pois os fazendeiros e agrônomos com quem tratam estão sempre em mangas
de camisa. Do outro lado do corredor, na divisão de fibras sintéticas,
terno é obrigatório. "Cada negócio tem suas particularidades",
diz Riccardo Stoeckicht, diretor de recursos humanos da multinacional.
Formais ou informais, todos têm de se vestir bem tanto que a empresa
há dois anos promoveu uma palestra sobre imagem para orientar os funcionários.
| A bermuda está correta, mas nem parece, destroçada pela regata (proibida mais de meio metro além da piscina ou da praia, inclusive para corpos exuberantes) agarradinha, que põe em destaque a barriga e o chinelão. Até o jogo no radinho de pilha melhora com uma camiseta pólo escura, barba feita e sapato dock-sider |
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Apesar da importância atribuída à aparência,
porém, a atitude mais comum das empresas é deixar que os funcionários
descubram sozinhos o caminho das pedras. "Nunca tomamos uma atitude
específica nem temos uma política escrita sobre o que vestir", informa
Nora-Ney Cerneviva, consultora de recursos humanos do Citibank. Nem precisa.
"Somos uma multinacional do mercado financeiro, conhecido pela formalidade.
Quando um funcionário é admitido, observa os colegas e se adapta rapidamente
ao modo de vestir da casa", explica. A Xerox do Brasil informa os
candidatos a vagas que lidam com o público que terão de trabalhar todo
dia de terno e gravata. "Não temos política regulamentada, mas consideramos
importante o jeito de se vestir, principalmente para quem trata com clientes",
diz seu gerente de recursos humanos, João Quintanilha. Mais complicado
ainda fica o dilema do bem vestir nos escritórios em que se implantou
o sistema do casual friday, a sexta-feira em que os funcionários,
"para relaxar", deixam a segurança do terno em casa e se arriscam
no esportivo. "Logo que estabelecemos o casual friday, há
dois anos, pedimos bom senso aos funcionários", lembra Mauro Moreira,
sócio-diretor da Arthur Andersen Auditores no Rio de Janeiro. Traduzindo:
para não transformar o dia informal num festival de horrores à Sexta-feira
13, usam-se calça ("pode ser jeans, desde que novo e fino")
e camisa ("vale manga curta no verão").
Casual friday é justamente um dos capítulos do manual de Gloria Kalil, que também ensina como fazer malas, como se portar à mesa e como entreter no fim de semana um estrangeiro em visita à empresa além de dar conselhos trancados num envelope, por tratar de assuntos íntimos, como a higiene de base, alvo de constrangedoras reclamações por parte de inúmeras mulheres consultadas pela autora. "Eu fui falando de moda e, de repente, vi que não bastava. Havia uma demanda por refinamento", diz ela. Esse talvez seja o departamento mais carente, já que o puro e simples vestir-se bem, se ainda depara com afrontas atrozes, pelo menos tem sua importância amplamente reconhecida. Político em ano eleitoral, por exemplo, come até buchada de bode, mas, na hora de se vestir para um debate ou um programa de televisão, seu marketeiro é seu oráculo. As regras, nesse caso, obedecem a imperativos superiores à moda. "A estética é muito importante, mas tem de manter a coerência. O visual tem de acompanhar a história, idade e origem do candidato", ensina Duda Mendonça, especialista em marketing político e guru, entre outros, de Paulo Maluf e Marcello Alencar. Mendonça já trocou os óculos de Maluf e "de comum acordo", frisa tirou os brincos de Gilberto Gil na sua campanha para vereador em Salvador, "porque entre o povão não pega bem". Do alto da sua experiência, dá uma dica de graça ao presidente Fernando Henrique Cardoso. "O cabelo está muito curto e faz ele perder um pouco o ar intelectual, que é uma forte característica sua", alerta.
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A síndrome do fim
de semana produz isso: roupas que já deveriam ter seguido um destino melhor são teimosamente ressuscitadas do fundo do armário. Capricho não significa desconforto. Use roupas adequadas ao seu tamanho e sapato próprio para quem está de perna de fora |
Em estado não reeleitoreiro, o presidente
certamente dispensa conselhos: é um caso raro de político brasileiro bem
trajado e, mais do que isso, perfeitamente à vontade em suas escolhas.
Uma exceção, especialmente num país com grande número de jovens profissionais
despejados no mundo adulto do mercado competitivo, onde camisetas com
bandas de rock não fazem muito sucesso, e outros mais tentando não cair
fora dele. Com tantos homens precisando vestir-se bem, e tão poucos instrumentados
para isso, o livro de Gloria Kalil vai ser uma mão na roda. Por conta
das pesquisas e consultas que teve de fazer, Gloria, que nunca foi especialmente
ligada em moda masculina, passou a vê-la com olhos de admiradora. "O
fato de usar roupa com poucas variações põe em destaque a personalidade
e a cara dos homens. A moda masculina revela muito da pessoa", avalia
Gloria. Um ótimo argumento, certamente, para os cavalheiros repensarem
aquela história de não ligar nada para roupa.
Com reportagem de Dagmar Serpa
Copyright © 1998, Abril
S.A. |