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Estilingue lunar
Empresa
empurra satélite em direção à Lua
para fisgá-lo de volta na órbita correta
Está em curso uma
missão de resgate digna dos melhores filmes de ficção
científica que, se bem-sucedida, deve proporcionar novo
fôlego à indústria espacial. Lançado em dezembro
passado para fornecer serviços de telecomunicações a
toda a Ásia, à Índia, ao Oriente Médio e ao Leste
Europeu, o satélite HGS-1 perdeu o rumo após uma falha
no foguete que o levou para o espaço. Em vez de se
posicionar num ponto a 36800 quilômetros da superfície,
como estava planejado, ficou à deriva numa órbita bem
inferior. Havia se transformado numa sucata de 200
milhões de dólares orbitando erraticamente em volta da
Terra, para desespero de seu fabricante, a Hughes Global
Services, e da seguradora da empresa que iria
controlá-lo, a Asia Satellite Telecommunications. Foi
então que a Hughes engendrou uma inédita manobra de
salvamento.
Com disparos nos
pequenos foguetes usados para corrigir a posição do
satélite, os técnicos fizeram com que ele fosse
impulsionado para órbitas elípticas cada vez mais
longínquas da Terra. Numa dessas órbitas, o satélite
foi atraído pela Lua, cuja força gravitacional
funcionou como um estilingue, lançando-o de volta à
Terra, que, por sua vez, o devolveu novamente em
direção à Lua. Na semana passada, ele estava no meio
desse movimento de vaivém, que, num período de algumas
semanas e em duas viagens consecutivas, o levará a
percorrer mais de 2 milhões de quilômetros entre a
Terra e a Lua. Segundo a previsão dos técnicos
encarregados da operação, no começo de junho o
satélite será capturado definitivamente pela gravidade
terrestre. Poderá, então, ser colocado na órbita
correta, prevista inicialmente, ao redor da linha do
Equador.
Mais barato
"Nunca foi tentado algo tão
extremo", diz o presidente da Hughes, Ronald
Swanson. A manobra foi inspirada em operação semelhante
feita pela Nasa, a agência espacial americana, em 1970.
Na ocasião, a nave tripulada Apollo 13,
originalmente destinada a pousar na Lua, entrou em pane e
só retornou à Terra lançada de volta com a ajuda da
força gravitacional lunar. A epopéia da Apollo 13 foi
celebrizada por um filme de Hollywood. A idéia de
lançar um objeto ao espaço e trazê-lo de volta após
contornar a Lua, contudo, é muito mais antiga. Já havia
sido usada em 1865 por Julio Verne, o pai da literatura
mundial de ficção. Em seu romance Da Terra à Lua, o
escritor francês já havia criado uma história em que o
protagonista era lançado ao espaço num colossal tiro de
canhão e voltava depois de contornar o satélite natural
da Terra. O que podia ser ficção para Verne, hoje em
dia é bastante real. Ao retornar à Terra depois de seu
giro lunar, o HGS-1 viaja no espaço a uma velocidade de
15.200 quilômetros por hora. A parte mais delicada da
manobra ainda está por vir. O satélite terá de ser
freado, com a ajuda de seus foguetes, de modo a entrar
sem maior impacto na órbita desejada.
O
resgate do HGS-1 mostra o grau de avanço atingido pela indústria de satélites,
um dos maiores negócios do momento na economia mundial. Lançar satélites
ao espaço já deixou de ser operação exclusiva de órgãos governamentais
e está se tornando uma atividade comercial em franca expansão. Já existem
em órbita da Terra 500 satélites comerciais, que formam um negócio de
77 bilhões de dólares. Os lucros com a operação de satélite, segundo prevêem
as companhias, devem dobrar até o ano 2000. Cerca de 40% dessas máquinas
espaciais destinam-se às telecomunicações.
Uma amostra do ritmo galopante em
que o espaço vem sendo ocupado comercialmente foi o lançamento na semana
passada dos cinco últimos integrantes de um sistema de 66 satélites criado
pela Iridium World Communications, que será explorado pela Motorola. Quando
for acionada, em setembro, essa rede permitirá utilizar pagers e telefones
celulares digitais em qualquer ponto do planeta. Isso permitirá coisas
inacreditáveis atualmente. Uma pessoa que estiver na Floresta Amazônica,
a milhares de quilômetros de um centro urbano, poderá, por exemplo, fazer
uma ligação para outra num ponto qualquer do Deserto do Saara.
Aline Angeli

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