
O
método escocês:
nem dó nem piedade
Divulgação
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FECHE
A PORTA, DEPRESSA A nutricionista Gillian
McKeith: você faz o que ela manda |
Baixinha,
magrinha e ruim como uma dose de purgante, a nutricionista escocesa Gillian McKeith,
49 anos, é uma celebridade improvável. Através do Você
É o que Você Come, exibido no Brasil pelo canal pago GNT, ela
se transformou na mais conhecida especialista em alimentação da
Inglaterra. Gillian confirma as suspeitas de quem vê um pendor masoquista
no público e, principalmente, nos participantes: propõe receitas
horríveis como alternativa saudável, pressiona até as lágrimas
os gordinhos que caem em suas garras e examina resíduos alimentares
isso mesmo que você está pensando em excessivos detalhes.
Aqui ela fala a sério, mas com a habitual impiedade, sobre sua especialidade.
A
senhora sempre foi durona?
No começo, não tinha coragem
de falar aquilo que pensava. É muito difícil dizer a verdade a pessoas
que já estão inseguras sobre sua aparência. Mas aprendi que
alguém tem de dizer a verdade. Elas não são gordas à
toa, seguem um estilo de vida totalmente errado, e eu não sou paga para
dizer que está tudo bem. Isso a família e os amigos já fazem.
Já teve algum caso perdido?
Nunca. Eu não trato só da comida, mas descubro a causa dos maus
hábitos. Para mudar a dieta de uma pessoa, entro na vida dela. Quem vem
a mim está desesperado, enfrentando problemas de saúde e de convívio
social. Precisa dar um jeito não só no peso, mas na vida.
Qual
é o paciente mais difícil?
É a pessoa fechada a novas
ideias. Hábitos alimentares se criam na infância. Quando peço
a alguém para deixar de comer alguma coisa que traz boas lembranças,
a pessoa fica vulnerável. Eu a tiro da zona de conforto e a obrigo a olhar
para si mesma e ver o que está errado.
A
senhora gosta de maltratar quem tem excesso de peso?
Não teria coragem
de fazer isso. O que eu faço é forçar a pessoa a encarar
seus problemas pela primeira vez na vida. Não aceito desculpa. Existe um
lado bondoso dentro de mim que, na edição do programa, não
aparece. Uma vez, um participante começou a contar que comia porque havia
perdido o pai muito cedo e sentia muita pressão para cuidar da família.
Ele nunca tinha chorado e se abriu comigo. No ar, só apareceu eu mostrando
tudo de errado que ele comia e ele caindo no choro. As pessoas na rua me diziam
que eu tinha ido longe demais. Tentei explicar que ele precisava chorar, que tinha
sido bom. Mas ninguém acreditou.
Obrigar
a tomar suco de salsão não é tortura?
Imagina. Essa
é apenas uma das maravilhosas opções que ofereço.
Salsão é um diurético natural e funciona como relaxante para
corpo e mente. Eu me vejo como educadora. Apresento opções que as
pessoas desconhecem, mas que fazem bem ao corpo.
Elas
aprendem a conviver com a ideia de nunca mais comer chocolate?
Não
digo que nunca mais vão comer chocolate, só não admito que
comam enquanto estiverem seguindo meu plano. Aliás, faço uma vitamina
de cacau, banana e leite de arroz que é deliciosa e não contém
as substâncias químicas nem o açúcar do chocolate industrializado.
Seus pacientes reconhecem o que faz
por eles?
Depois que emagrecem, eu pareço mais boazinha. Muitos
me mandam cartas. Há pouco tempo, uma menina escreveu que eu fui uma santa
que entrou na vida dela. Eu sei que não sou uma santa. Foi ela quem disse.
A
senhora sempre controlou o que come?
Não. Quando entrei na faculdade,
não ia muito bem e comecei a descontar na comida. Engordei 18 quilos, fiquei
mal, não tinha vontade de sair da cama. Quando me dizem "você
não sabe como é ser gordo", respondo: "Sei, sim. E acho
horrível. Pare de reclamar e me obedeça".
O
que a senhora mais gosta de comer?
Manga. Faço vitaminas de manga
maravilhosas. Também faço uma torta de feijão-azuqui e um
sanduíche de alga que são deliciosos. Adoro comida e como muito,
mas só o que é certo e faz bem.
Existe
alguma comida saudável de que a senhora não goste?
Eu aprendi
a gostar de tudo o que faz bem. Funciona assim: é preciso experimentar
de tudo pelo menos doze vezes. Se na 12ª a pessoa ainda não gostar,
é porque não tem jeito mesmo.
Qual
é a maior reclamação de seus pacientes?
Bom, eu adoro
minha sopa de abacate e pepino, mas ninguém concorda comigo. Abacate é
muito polêmico. As pessoas amam ou odeiam. Igual a mim.
A
senhora percebe problemas de saúde só de olhar para a pessoa?
Eu considero a língua uma janela dos órgãos, que mostra pela
coloração o que está acontecendo dentro do corpo. Ela deve
ser rosada e sem manchas. Unhas e cabelos quebradiços também mostram
deficiências de vitaminas. Pele manchada, olheiras profundas e erupções
são sinais óbvios de que alguma coisa está errada. O sinal
mais fácil de ver é prisão de ventre. Quem come corretamente
vai ao banheiro duas vezes por dia.
Examinar
o resultado disso diante das câmeras não é apelativo demais?
As fezes dão excelente indício de como anda a saúde do paciente.
Consigo ver se está comendo muita gordura, se está digerindo os
alimentos corretamente, se o fígado está funcionando bem. Não
é agradável, mas é necessário. As pessoas ficam horrorizadas.
Minha mãe me liga perguntando se tenho mesmo de fazer isso, porque meu
programa passa bem na hora do jantar dela. Eu respondo: "Mãe, 20 horas
é muito tarde para jantar".
Seus
amigos controlam o que comem na sua frente?
A maioria dos meus amigos come
direito, mas, se a pessoa não me conhece bem, fica pedindo desculpa a cada
garfada. É muito irritante. E não recebo muitos convites para festas
em que vai ter comida.
É possível
ser gordo e feliz?
Não. Pode parecer que sim, mas ninguém
é feliz estando na lista dos possíveis candidatos a um ataque cardíaco.