
Exagero
faz mal à saúde
Informar-se
sobre as bases da alimentação saudável é quase
uma obrigação para quem quer cuidar bem de si e da família,
mas
as boas intenções às vezes abrem espaço a
ideias distorcidas
ou simplesmente erradas. Alguns dos mitos mais frequentes
sobre nutrição e dieta são analisados aqui por especialistas
Sandro
Falsetti
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Beber
muita água afina o corpo
Apesar das qualidades propaladas
por modelos e atrizes, água não tem efeito algum. Primeiro, não
queima caloria. "Não há comprovação científica
de que ingeri-la em grandes quantidades ajuda a aumentar o metabolismo",
diz Daniel Magnoni, cardiologista e nutrólogo do Instituto de Metabolismo
e Nutrição, em São Paulo. Segundo, não desincha. "O
inchaço, principalmente aquele que acontece na fase pré-menstrual,
se dá devido a um processo hormonal que termina por reter água nos
espaços existentes entre as células. A água que bebemos não
vai parar nesses espaços. Ela toma um caminho diferente; parte é
eliminada, parte cai na corrente sanguínea. São dois metabolismos
diferentes", explica Dan Linetzky, professor de gastroenterologia da Faculdade
de Medicina da USP, em São Paulo. Terceiro, não acelera a eliminação
de toxinas. "Os rins, por meio da urina, de fato eliminam subprodutos dos
alimentos, como gorduras e radicais livres. Mas essa eliminação
já acontece normalmente, com a ingestão de uma quantidade adequada
de água", informa Magnoni. Por quantidade adequada entenda-se 30 mililitros
de água para cada quilo do corpo, ou seja, uma pessoa de 70 quilos deve
tomar cerca de 2 litros de água por dia. Por fim, a única verdade
sobre a questão: beber água atenua muito levemente a fome. "O
estômago cheio de água dá certa sensação de
saciedade", diz Magnoni.
Adoçante
dá câncer
Há basicamente cinco tipos de adoçante:
aspartame, ciclamato, estévia, sacarina e sucralose. Existem estudos que
relacionam câncer na bexiga à sacarina e ao ciclamato, duas substâncias
químicas estévia é uma planta, aspartame é
uma combinação de aminoácidos e sucralose, um derivado do
açúcar. "Mesmo esses estudos, porém, mostram que a relação
só existe quando há altíssimo consumo dessas substâncias,
algo como um frasco de adoçante por dia", informa Celso Cukier, cardiologista
e nutrólogo do hospital São Luiz, de São Paulo.
A
dieta do abacaxi funciona
Em meados dos anos 80, a americana Judy Mazel
criou a Dieta de Beverly Hills, regime para emagrecer feito com frutas, sobretudo
abacaxi. O consumo de leite e derivados era proibido e o de proteínas,
muito limitado. Ou seja, uma loucura que volta e meia ressurge. "É
claro que um regime em que se come apenas um tipo de alimento faz emagrecer. Mas
é claro também que, ao voltar à dieta normal, os quilos voltam
junto", diz Magnoni. "Além disso, deixar de comer carne causa
deficiência de ferro e zinco, o que pode levar à anemia e até
a problemas cardíacos", esclarece Cukier.
Desintoxicação
limpa por dentro
Clínicas de desintoxicação oferecem
programas especiais para "limpar o organismo", com duração
mínima de uma semana. A alimentação é primordialmente
líquida sucos, chás e sopas , acompanhada de lavagens
intestinais diárias (batizadas de "hidroterapia do cólon")
e laxantes. Conforme a propaganda, a pessoa sai de lá com o corpo livre
de corantes, conservantes, pesticidas e resíduos de carne vermelha, açúcar,
farinhas brancas, derivados do leite e cafeína e outros venenos. Até
pedras na vesícula são eliminadas, segundo a crença. "Para
começar, a vesícula não se liga ao intestino. Dessa maneira,
não há modo de, por meio de uma lavagem intestinal, pedras da vesícula
serem eliminadas", diz o gastroenterologista Linetzky. "Aliás,
as pedras formadas na vesícula não têm nenhuma relação
com a alimentação. Elas se formam devido a alterações
inflamatórias da mucosa do órgão." Lavagens constantes
podem modificar a flora intestinal. "O fígado e os rins já
são excelentes máquinas de eliminação de escórias
alimentares. O fígado separa o que é alimento bom de restos, como
colesterol e radicais livres, e os rins os expelem. Essas desintoxicações,
além de perigosas, são inúteis", alerta Magnoni.
Carne
apodrece no sistema digestivo
A carne em ambiente natural se decompõe
devido à ação de bactérias presentes no ar, responsáveis
pelas secreções que quebram as fibras musculares. Essa quebra desencadeia
reações químicas que liberam as proteínas, as gorduras
e os açúcares presentes na composição da carne. As
três substâncias viram comida para as bactérias e combustível
de um processo reprodutivo espetacularmente rápido. Em cerca de dez horas,
se estiver crua, e o dobro disso, se for cozida, a carne está estragada.
Na carne ingerida, a quebra das fibras musculares é feita pelo suco gástrico,
no estômago, e pelo suco pancreático mais bile, no intestino; o processo
todo leva, no máximo, três horas. Proteínas, açúcares
e gorduras liberados são em parte absorvidos pelo corpo e em parte expelidos.
"Até existem bactérias no intestino, mas elas não participam
da quebra das fibras. Ao contrário, ajudam na regeneração
das células intestinais", explica o nutrólogo Magnoni.
Chá
verde emagrece
O chá verde contém substâncias que
aceleram o metabolismo ao elevar os batimentos cardíacos, sendo a mais
conhecida a cafeína. Mas esse aumento é ínfimo. Uma pessoa
que consumir 1 500 calorias e tomar quatro xícaras de chá
verde por dia vai perder, em um ano, no máximo 2 ou 3 quilos. O chá
verde é, de fato, uma interessante fonte de antioxidantes, moléculas
que teoricamente retardam o envelhecimento, embora o processo seja de extrema
complexidade. "Uma xícara por dia é o suficiente para turbinar
a capacidade antioxidante do organismo", diz Magnoni. "O chá
verde também aumenta a elasticidade arterial, o que ajuda a controlar a
arteriosclerose, e atua na diminuição do LDL, o mau colesterol."