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O mar não está para peixe A
dieta do Mediterrâneo é um prodígio para a saúde.
Uma bela salada de tomate, pepino, azeitona e queijo de cabra. Peixe assado inteiro, temperado com ervas colhidas na hora. Grão-de-bico, berinjela, alho. Infindáveis litros de azeite de oliva. Frutas, nozes e castanhas. Vinho, vinho e mais vinho. Com esses ingredientes, a dieta do Mediterrâneo é considerada, com muitas pesquisas para provar, a receita para uma vida longa, saudável e deliciosamente temperada por boas refeições. Muito menos comentada, porém, é a contrapartida para consumir azeite à vontade e tomar vinho em todas as refeições sem engordar: subir e descer montanhas pastoreando ovelhas, dormir cedo e acordar idem, plantar a própria comida ou buscá-la no mar em barcos movidos a remo, exatamente como faziam gregos e troianos quando os primeiros estudos sobre a boa saúde dos povos mediterrâneos foram realizados na Ilha de Creta, no fim dos anos 40. "A dieta mediterrânea continua sendo garantia de uma vida saudável, mas temos de considerar que a nossa realidade mudou", reconhece Katherine McManus, mestra em nutrição e professora da Escola de Medicina de Harvard, autora de uma pesquisa que relaciona emagrecimento com a dieta do Mediterrâneo. "O maior problema é que nos acostumamos a comer imensas porções. A chave da dieta mediterrânea está na moderação e no planejamento, ou seja, em comer pequenas quantidades de alimentos variados e escolher o que se vai ingerir." A professora tem, claro, um ponto de vista americano, mas em matéria de maus hábitos os nacionais já estão empatando. "O brasileiro peca pela quantidade com muita facilidade. Se falar para comer castanha, ele não come duas ou três acaba com um pacote inteiro", diz a nutricionista Virginia Nascimento, vice-presidente da Associação Brasileira de Nutrição. "Outro ponto complicado é a falta de carne nessa dieta. Quando se tira ou se reduz muito a carne vermelha, a pessoa logo reclama que se sente fraca." Baseada no trio composto de trigo, uva e os milenares olivais, a alimentação dos povos que se desenvolveram em torno do Mar Mediterrâneo foi favorecida, de fato, pela aridez: o solo pobre e a geo-grafia montanhosa dificultam a criação de gado e a agricultura em larga escala. O primeiro estudo moderno sobre seus benefícios foi feito por Ancel Keys, da Universidade de Minnesota. Durante mais de dez anos, ele comparou Itália e Grécia com outros cinco países para desvendar por que seus habitantes viviam mais e melhor, mesmo com atendimento médico, à época, precário. A comprovação da relação direta entre hábitos alimentares e boa saúde foi publicada em 1980. Incontáveis pesquisas depois, a dieta do Mediterrâneo tornou-se sinônimo de longevidade saudável, com capacidade de prevenir diabetes, colesterol ruim e câncer. O próprio Keys, que a seguia religiosamente, morreu aos 100 anos. Estudos mais recentes mostram que a dieta também tem potencial para reduzir os efeitos da doença de Alzheimer em pessoas que começam a apresentar sinais. Nem os mediterrâneos, porém, escaparam das mudanças nos hábitos alimentares, especialmente a introdução de produtos industrializados. Na Grécia, três quartos dos adultos estão acima do peso a pior taxa da Europa, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, sendo que o índice de sobrepeso dos meninos de 12 anos cresceu mais de 135% entre 1982 e 2002 e continua a aumentar. Na Itália e na Espanha, metade da população também está acima do peso desejável. "É a prova de que os tradicionais hábitos mediterrâneos eram saudáveis. O que engorda é a combinação de uma alimentação pobre em nutrientes e altamente calórica com falta de atividade física", diz Antonia Trichopoulou, professora de epidemiologia da Universidade de Atenas, que lamenta as consequências sobre a silhueta e a sociedade. "Comer é um prazer e um evento social. As antigas refeições mediterrâneas eram preparadas na companhia de amigos e da família, feitas com calma, seguidas de um pequeno descanso. Mais do que a dieta, o estilo de vida foi fundamental para a boa saúde dos povos mediterrâneos", diz. Autoridades da Itália, da Espanha, da Grécia e do Marrocos estão apelando, literalmente: querem que a Unesco declare a dieta patrimônio cultural da humanidade, como forma de evitar sua extinção. Modos de vida, no entanto, não mudam por decreto.
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