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Brasil A CPI da Petrobras,
criada para investigar contratos
Se fosse um país, a Petrobras, a maior empresa brasileira e uma das maiores petrolíferas do mundo, seria uma nação mais rica que a Nova Zelândia. Com um faturamento anual de 284,8 bilhões de reais e guardiã das economias de 200 000 acionistas privados, a estatal é um patrimônio e, na visão do nacionalismo exacerbado, até um símbolo da pátria. Na semana passada, não bastasse estar sob o crivo de uma comissão de investigação, a Petrobras virou objeto de uma vergonhosa disputa política entre parlamentares cobiçosos de cargos e riquezas. Nos próximos 180 dias, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) investigará especificamente sete negócios realizados pela empresa nos últimos anos. Não se sabe o potencial inflamável das suspeitas que motivaram a instalação da CPI, tampouco se haverá combustível político suficiente para extrair delas alguma medida saneadora na hipótese de se materializarem mesmo algumas irregularidades. Fosse isso, seria o caso de celebrar o bom funcionamento das instituições. Mas não se subestime a esperteza do atual Congresso. Instalada a CPI, as raposas trataram de lucrar pessoalmente com ela. Proposta pela oposição, a CPI é, no entanto, controlada pelo partido aliado do governo, o PMDB, aquele que, conforme o desabafo de um de seus próceres mais ilustres, o senador Jarbas Vasconcelos, "só pensa em cargos e corrupção". Nas mãos do PMDB, a CPI vira uma incógnita, e seu eventual desfecho dependerá da tradicional barganha por cargos e privilégios, matéria-prima política do partido. Para se ter uma ideia do tipo de manobras em curso, o candidato a investigador-mor da CPI é ninguém menos que o ex-presidente Fernando Collor, derrubado da Presidência da República em 1992 por corrupção graças justamente aos trabalhos de uma CPI. Secundando Collor, aparece outro notório parlamentar, o senador Renan Calheiros, um tipo que só se move por interesse próprio e de seu nebuloso grupo político-empresarial. Estão o tempo todo em busca de cargos e acesso ao Erário. Renan encara a CPI da Petrobras, cuja instalação ele apoiou, como uma excelente oportunidade de negócio. Seus representantes na CPI, como sempre, vão apoiar o governo em troca de favores. O grupo já colocou no pano verde sua principal reivindicação: a nomeação de um aliado para o cargo de diretor da Petrobras responsável pelo pré-sal, a bilionária reserva encontrada a 7 000 metros de profundidade no litoral sudeste. "Ninguém tem o direito de se surpreender com as práticas fisiologistas do PMDB", afirmou Jarbas Vasconcelos. Mas ainda assim o senador Pedro Simon ficou chocado: "Isso é um escândalo. Sinto-me envergonhado. Eles pelo menos deveriam fingir alguma decência". Isso, sim, seria novidade de espantar os mais incrédulos. Fora das intenções negociais da dupla Renan-Collor, uma CPI da Petrobras se justifica? Em tese, sim. Por seu gigantismo, volume de gastos e atuação política, uma estatal como a Petrobras sempre acaba cometendo deslizes. Durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a estatal ganhou autonomia para firmar certo tipo de contrato sem licitação. O objetivo era dar-lhe mais agilidade na competição internacional com as grandes petrolíferas do mundo. A decisão, é óbvio, acabou servindo de porta para toda espécie de abuso. Recentemente, uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou indícios de superfaturamento, no valor de 100 milhões de reais, na construção de uma refinaria em Pernambuco. Alguns contratos para reforma de plataformas de exploração de petróleo também são alvo de suspeitas. Há ainda indícios de descontrole de contratos publicitários e de direcionamento político no uso das verbas de patrocínio. A investigação da CPI vai ser voltada também para a Agência Nacional do Petróleo (ANP), uma entidade antes respeitada que se tornou uma espécie de Detran, loteada que foi por sindicalistas e aliados do PT. A criação da CPI ganhou força com a recente revelação de que a estatal fez uma manobra contábil para ludibriar o Fisco. Enfim, se a ideia fosse mesmo investigar e dar transparência maior aos gastos da estatal, haveria trabalho a ser feito. Pena que a motivação seja outra.
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