Edição 1902 . 27 de abril de 2005

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Tales Alvarenga
Assume mas não leva

"Romero Jucá pediu que as investigações
contra ele sejam apressadas para provar
sua inocência mais cedo. Polícia Federal e
procuradores não andarão mais rápido só
por isso. Quem terá de se mexer é o autor
do gol contra, Lula, por mais que relute em fazê-lo"

Conclave no Palácio do Planalto decidiu nomear o senador peemedebista Romero Jucá, de Roraima, como ministro da Previdência. Jucá assumiu o cargo há um mês e até hoje não tomou posse de fato. Não se sabe quanto tempo de seu dia Jucá dedica aos problemas da Previdência. Mas tudo que os jornais publicam a seu respeito são novas denúncias e as tentativas que ele faz de responder aos ataques, alegando inocência.

O presidente Lula e seus ministros também foram sugados pela crise. São obrigados a comentar o caso Jucá com mais insistência do que são chamados a opinar sobre a eleição do papa. Nessas condições, Romero Jucá dificilmente terá condições de se transformar em ministro de fato.

Não se pode condená-lo antecipadamente, mas há casos perdidos diante da opinião pública. Este é um deles. Ou Jucá se demite para deixar o governo Lula respirar outra vez, ou o presidente o convence a se licenciar até que tudo esteja apurado com resultado positivo para o senador. Se Jucá sair limpo das investigações, todos nós que escrevemos contra ele lamentaremos o engano e saudaremos sua bravura diante das intrigas políticas de que se diz vítima.

As denúncias contra Romero Jucá são tão variadas e numerosas que vamos citá-las (resumidas) apenas no fim deste artigo. Caso contrário, ocupariam estas duas colunas inteiras. A razão da escolha de Jucá não tem nada de misteriosa. O PT quer ter maioria no Congresso e reeleger Lula, dois objetivos perfeitamente legítimos. Para atingir essas metas, no entanto, até os contorcionismos políticos mais penosos são aceitáveis para o partido de Lula. A ansiedade de fazer amigos explica a nomeação descuidada de Romero Jucá, feita para agradar o PMDB e atraí-lo ao redil do PT.

A ficha do senador já era parcialmente conhecida. A parte ainda encoberta poderia ter sido facilmente levantada pela Agência Brasileira de Inteligência, a Abin. Para ficarmos num gênero de metáfora caro ao presidente da República, o PMDB pôs Jucá na sua frente e o instruiu a chutar o senador para dentro do ministério. Lula não hesitou. Só com o passar dos dias descobriu que fizera um gol contra.

Pressionado pelas denúncias, Jucá pediu que as investigações contra ele sejam apressadas para provar sua inocência mais cedo. Polícia Federal e procuradores não andarão mais rápido só por isso. Quem terá de se mexer é o autor do gol contra, Lula, por mais que relute em fazê-lo. Está fazendo o contrário. Na semana passada, declarou que "não dá para tirar ou colocar ministro, em função desta ou daquela manchete de jornal". Segundo Lula, "por enquanto, há muitas insinuações. É preciso que surjam coisas concretas". Pelo visto, as acusações só ganharão concretude quando saírem publicadas no Diário Oficial.

P.S.: O ministro Jucá foi acusado de desvio de verbas públicas, por indícios de compra de votos, uso de funcionários públicos em campanha eleitoral, tomada de empréstimo no Banco da Amazônia, com a apresentação de sete fazendas inexistentes como garantia, e abuso do poder econômico, sem contar indícios de esconder bens da Receita Federal por meio da doação de suas propriedades aos filhos.

 
 
 
 
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