Edição 1902 . 27 de abril de 2005

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Fato extraordinário:
um papa alemão

Bento XVI viveu a barbárie nazista; aprendeu
a responder ao totalitarismo com totalitarismo

O jovem Joseph Ratzinger pertenceu à Juventude Hitlerista. Tinha apenas 14 anos, ingressou na organização porque era obrigatório e nela ficou pouco tempo – mas não deixa de ser assombroso que tenha ascendido ao trono de São Pedro alguém que, um dia, pertenceu às hostes do diabólico campeão do mal no século XX. A Juventude Hitlerista era, segundo descrição de William Shirer, o autor de Ascensão e Queda do III Reich, "uma imensa organização, instituída em linhas paramilitares semelhantes às SA [tropas de choque do partido nazista] e na qual os jovens de caráter recebiam treinamento sistemático não apenas em acampamento, esportes e ideologia nazista, mas em arte militar". Ratzinger, segundo seu biógrafo John Allen, não chegou a participar de nenhuma dessas atividades. Logo conseguiu dispensa para voltar ao seminário.

O.k., não se deve dar importância ao que não tem. É errado conferir à breve passagem do agora papa Bento XVI pela associação dos jovens de Hitler o caráter de um problema em seu passado. Muita gente boa teve de se alistar no mesmo compulsório clubinho, inclusive o romancista prêmio Nobel Günter Grass e o filósofo Jürgen Habermas. Ingressar na Juventude Hitlerista tornou-se obrigatório, para os jovens entre 14 e 18 anos, em março de 1939. Os pais foram avisados de que, caso não se vergassem à nova ordem, os filhos lhes seriam tomados e encaminhados a orfanatos. Pode-se imaginar a angústia do pai de Ratzinger, ele que, segundo o filho, era antinazista. O.k., o hitlerismo do menino Joseph foi tão breve e desimportante quanto a primeira espinha que lhe brotou no rosto. Mas, ora bolas, também não é para passar em branco a extraordinária circunstância de que o papa um dia deve ter vestido uma boina, ou uma braçadeira, decorada com a suástica.

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E por falar em Alemanha... Ratzinger não é só o ortodoxo dos ortodoxos, o imperador do "não" – não ao divórcio, não aos anticoncepcionais, não ao casamento dos padres e à ordenação de mulheres. Também não é só o grande inquisidor, o homem que, com mão-de-ferro, comandou a Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo Ofício, por mais de duas décadas e ao longo de mais de 100 condenações por desvios da linha justa. Ele é também alemão. Eis uma circunstância que, irrigada pelos clichês que cercam essa nacionalidade, lhe reforça o perfil de durão e inspira apelidos pouco carinhosos: "Panzercardinal", "Rottweiler de Deus".

A experiência do nazismo foi decisiva para firmar Ratzinger na fé e na estrita observância da doutrina católica, segundo seu biógrafo. Ele via no catolicismo um escudo contra a barbárie. O.k., dá para entender. A religiosidade tradicional da Baviera campônia onde nasceu e cresceu oferecia-lhe um contraponto à brutalidade triunfante. É surpreendente, no entanto, a conclusão que ele tira de tal experiência histórica e pessoal. "Tendo visto o fascismo em ação, Ratzinger acredita que o melhor antídoto ao totalitarismo político é o totalitarismo eclesiástico", escreve o mesmo biógrafo. "Em outras palavras, ele acredita que a Igreja Católica serve à causa da liberdade humana ao restringir a liberdade em suas fileiras, dessa forma mantendo-se clara a respeito do que ensina e do que acredita." Qual seja: combate-se o totalitarismo com totalitarismo, e serve-se à liberdade suprimindo-a. Habita o primeiro papa do século XXI a alma de um soldado da Contra-Reforma.

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E por falar em soldado... Além da breve experiência na Juventude Hitlerista, Ratzinger também foi à guerra, como conscrito. Serviu numa unidade antiaérea, mas conta que, quando sua unidade sofreu uma investida aliada, em 1943, não atirou. Nem saberia fazê-lo, pois uma infecção no dedo o tinha afastado das instruções de tiro. Os maldosos diriam que mais nobre seria não atirar por convicção, não por uma miserável infecção no dedo, mas deixemos de maldade. O importante é atentar para esse outro fato singular que é ter um papa que já foi soldado – e, por azar dos azares, lutou do lado errado.

Tudo isso nos conduz a ressaltar o fato extraordinário, ainda não devidamente ressaltado, que é ter um papa alemão. A conquista do campeonato mundial de futebol, em 1954, foi um primeiro momento de redenção, para uma Alemanha arrasada em culpa e castigos. Agora, um alemão conquista o papado. Seria outro momento de redenção, ainda mais em se tratando de um alemão que atravessou a provação de Hitler e da II Guerra Mundial. De quantas conquistas mais a Alemanha necessitará? Sobre esse país pesa uma sentença assim formulada pelo famoso cineasta polonês Andrzej Wajda: "A Alemanha continua a significar, entre muitas outras coisas, Auschwitz. Quer dizer: Goethe e genocídio, Beethoven e câmaras de gás, Kant e botinas nazistas. Tudo isso pertence indelevelmente à herança alemã". A Alemanha está sempre na corrida para pagar uma conta impagável.

 
 
 
 
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