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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Fato
extraordinário: um papa alemão
Bento
XVI viveu a barbárie nazista; aprendeu a responder ao totalitarismo
com totalitarismo O jovem Joseph Ratzinger
pertenceu à Juventude Hitlerista. Tinha apenas 14 anos, ingressou na organização
porque era obrigatório e nela ficou pouco tempo mas não deixa
de ser assombroso que tenha ascendido ao trono de São Pedro alguém
que, um dia, pertenceu às hostes do diabólico campeão do
mal no século XX. A Juventude Hitlerista era, segundo descrição
de William Shirer, o autor de Ascensão e Queda do III Reich, "uma
imensa organização, instituída em linhas paramilitares semelhantes
às SA [tropas de choque do partido nazista] e na qual os jovens de caráter
recebiam treinamento sistemático não apenas em acampamento, esportes
e ideologia nazista, mas em arte militar". Ratzinger, segundo seu biógrafo
John Allen, não chegou a participar de nenhuma dessas atividades. Logo
conseguiu dispensa para voltar ao seminário.
O.k., não se deve dar importância ao que não tem. É
errado conferir à breve passagem do agora papa Bento XVI pela associação
dos jovens de Hitler o caráter de um problema em seu passado. Muita gente
boa teve de se alistar no mesmo compulsório clubinho, inclusive o romancista
prêmio Nobel Günter Grass e o filósofo Jürgen Habermas.
Ingressar na Juventude Hitlerista tornou-se obrigatório, para os jovens
entre 14 e 18 anos, em março de 1939. Os pais foram avisados de que, caso
não se vergassem à nova ordem, os filhos lhes seriam tomados e encaminhados
a orfanatos. Pode-se imaginar a angústia do pai de Ratzinger, ele que,
segundo o filho, era antinazista. O.k., o hitlerismo do menino Joseph foi tão
breve e desimportante quanto a primeira espinha que lhe brotou no rosto. Mas,
ora bolas, também não é para passar em branco a extraordinária
circunstância de que o papa um dia deve ter vestido uma boina, ou uma braçadeira,
decorada com a suástica. •
• • E por falar em Alemanha... Ratzinger não
é só o ortodoxo dos ortodoxos, o imperador do "não"
não ao divórcio, não aos anticoncepcionais, não ao
casamento dos padres e à ordenação de mulheres. Também
não é só o grande inquisidor, o homem que, com mão-de-ferro,
comandou a Congregação para a Doutrina da Fé, o antigo Santo
Ofício, por mais de duas décadas e ao longo de mais de 100 condenações
por desvios da linha justa. Ele é também alemão. Eis uma
circunstância que, irrigada pelos clichês que cercam essa nacionalidade,
lhe reforça o perfil de durão e inspira apelidos pouco carinhosos:
"Panzercardinal", "Rottweiler de Deus". A experiência
do nazismo foi decisiva para firmar Ratzinger na fé e na estrita observância
da doutrina católica, segundo seu biógrafo. Ele via no catolicismo
um escudo contra a barbárie. O.k., dá para entender. A religiosidade
tradicional da Baviera campônia onde nasceu e cresceu oferecia-lhe um contraponto
à brutalidade triunfante. É surpreendente, no entanto, a conclusão
que ele tira de tal experiência histórica e pessoal. "Tendo visto
o fascismo em ação, Ratzinger acredita que o melhor antídoto
ao totalitarismo político é o totalitarismo eclesiástico",
escreve o mesmo biógrafo. "Em outras palavras, ele acredita que a Igreja
Católica serve à causa da liberdade humana ao restringir a liberdade
em suas fileiras, dessa forma mantendo-se clara a respeito do que ensina e do
que acredita." Qual seja: combate-se o totalitarismo com totalitarismo, e serve-se
à liberdade suprimindo-a. Habita o primeiro papa do século XXI a
alma de um soldado da Contra-Reforma. •
• • E por falar em soldado... Além da breve
experiência na Juventude Hitlerista, Ratzinger também foi à
guerra, como conscrito. Serviu numa unidade antiaérea, mas conta que, quando
sua unidade sofreu uma investida aliada, em 1943, não atirou. Nem saberia
fazê-lo, pois uma infecção no dedo o tinha afastado das instruções
de tiro. Os maldosos diriam que mais nobre seria não atirar por convicção,
não por uma miserável infecção no dedo, mas deixemos
de maldade. O importante é atentar para esse outro fato singular que é
ter um papa que já foi soldado e, por azar dos azares, lutou do
lado errado. Tudo isso nos conduz a ressaltar o
fato extraordinário, ainda não devidamente ressaltado, que é
ter um papa alemão. A conquista do campeonato mundial de futebol, em 1954,
foi um primeiro momento de redenção, para uma Alemanha arrasada
em culpa e castigos. Agora, um alemão conquista o papado. Seria outro momento
de redenção, ainda mais em se tratando de um alemão que atravessou
a provação de Hitler e da II Guerra Mundial. De quantas conquistas
mais a Alemanha necessitará? Sobre esse país pesa uma sentença
assim formulada pelo famoso cineasta polonês Andrzej Wajda: "A Alemanha
continua a significar, entre muitas outras coisas, Auschwitz. Quer dizer: Goethe
e genocídio, Beethoven e câmaras de gás, Kant e botinas nazistas.
Tudo isso pertence indelevelmente à herança alemã". A Alemanha
está sempre na corrida para pagar uma conta impagável. |