Edição 1902 . 27 de abril de 2005

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Comportamento
Capitais da solidão

Pesquisa mostra quais são as
cidades brasileiras com maior
número de mulheres sozinhas


Monica Weinberg e Erin Mizuta


Mulheres sozinhas interessadas em encontrar um parceiro há tempos deparam com uma dificuldade: a desvantagem numérica. No Brasil, o número de mulheres solteiras, separadas e viúvas supera o de homens nas mesmas condições faz quatro décadas. No último censo do IBGE, o de 2000, elas eram 20 milhões – eles, 15 milhões. Agora, pesquisa realizada pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que as solitárias brasileiras com pretensão de abandonar o celibato, além de ter de superar a concorrência, precisam também se apressar. O estudo indica que, a partir dos 35 anos de idade, a taxa de solidão feminina aumenta e a do homem diminui. A cada período de cinco anos, a diferença entre elas cresce, em média, 5 pontos porcentuais. "Na idade adulta, quatro de cada dez mulheres brasileiras estão sozinhas", diz o economista Marcelo Neri, coordenador da pesquisa. Na faixa dos 50 anos, o número de mulheres que vivem sozinhas é mais que o dobro do de homens. Por volta dos 60, essa proporção praticamente triplica. O trabalho da FGV traduz em números o que se constata na prática: quanto mais a mulher amadurece, menos chance tem de encontrar um parceiro. Com o homem é diferente: a taxa de solidão chega a diminuir na passagem dos 40 para os 50 anos – e se mantém estável até por volta dos 60 (veja quadro).

Inacio Teixeira/Coperphoto
Salvador: na capital da Bahia, mais de 50% das mulheres vivem só


O número de mulheres sozinhas supera o de homens na mesma situação, primeiro por um motivo de ordem demográfica. Na faixa dos 30 anos, quando a solidão feminina começa a ultrapassar a masculina, a população de mulheres é 4% maior que a de homens. Aos 60, essa diferença salta para 13%. Isso ocorre, basicamente, porque elas vivem mais do que eles – em média, oito anos. Outras razões contribuem para inflar as taxas de solidão feminina. Estudos mostram que homens, sobretudo os da idade madura, tendem a procurar mulheres mais jovens do que eles para se casar. Pesquisa feita pelo professor Ailton Amélio da Silva, do departamento de psicologia experimental da Universidade de São Paulo, indica que homens que se casam na faixa dos 60 anos escolhem uma parceira, em média, catorze anos mais nova.

Se eles priorizam a juventude na busca de uma companheira, elas se guiam por outros critérios: "A mulher procura um parceiro que considera mais bem-sucedido e mais inteligente do que ela mesma", afirma o professor Amélio. E reside aí uma dificuldade adicional para as solteiras que são, elas próprias, profissionais de sucesso. Como, nesse caso, o grau de exigência em relação ao companheiro tende a aumentar, o leque de opções fatalmente se reduz. O estudo da FGV ilustra o fenômeno. Segundo a pesquisa, as mulheres sozinhas são justamente as que têm melhor situação socioeconômica. Solteiras, separadas e viúvas costumam ser, em relação à média das brasileiras, as que têm mais empregos, melhores salários e um nível de escolaridade maior (veja quadro).

A exigência feminina, afirmam especialistas, aumenta na mesma proporção em que cresce a autonomia das mulheres. O princípio se aplica tanto às que estão em busca de um parceiro quanto às que optaram pela separação. "Entre as mulheres de classes mais altas, com bom nível educacional e carreira bem estruturada, as possibilidades de encerrar uma união que consideram insatisfatória são maiores", observa a socióloga Célia Belém, que estuda o assunto há duas décadas. Pesquisa da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, feita com 800 mulheres sozinhas no ano passado, mostrou que, embora a quase totalidade das entrevistadas tenha declarado estar em busca de um companheiro, apenas 20% admitiram a idéia de casar-se com um homem que não julgassem "plenamente satisfatório".

O estudo da FGV listou ainda os municípios brasileiros onde há maior concentração de mulheres sozinhas. Das dez cidades campeãs, oito estão localizadas na Bahia. Na capital, Salvador, 51% da população feminina adulta está desacompanhada. Os acadêmicos apontam dois motivos para explicar o fenômeno. O primeiro é que, enquanto no Brasil a opção pela solidão é um fenômeno concentrado nas classes mais altas, na Bahia aspectos culturais possibilitam que ela se estenda para outros estratos de renda. Por causa da tradição matriarcal que vigora no estado, com forte influência do candomblé, mulheres freqüentemente compõem lares chefiados por mulheres. "É comum encontrar várias gerações de mulheres de uma família vivendo sob o mesmo teto", diz a socióloga Maria Gabriela Ita, da Universidade Federal da Bahia. "A cultura local serve como amparo para que elas sobrevivam sem um parceiro que as sustente e acaba por garantir-lhes a escolha por permanecer solitárias", diz. A migração é outro fator que contribui para as altas taxas de solidão feminina na Bahia. Entre os oito municípios do estado com as maiores taxas de mulheres sozinhas, sete estão no interior. São cidades pobres, que apresentam elevado índice de evasão populacional, notadamente masculina. Tradicionalmente, parte dos homens a iniciativa de deixar a terra natal em busca de melhores oportunidades de trabalho. No ranking das dez cidades brasileiras onde há menor concentração de mulheres solitárias, sete estão situadas no estado de Mato Grosso. Aí, ocorre o fenômeno inverso: as cidades mato-grossenses, por fazer parte de uma próspera fronteira agrícola onde a principal atividade econômica é a soja, tornaram-se pólos de atração de migrantes. Mais trabalho, mais homens. E, portanto, menos mulheres sozinhas.

Hoje, estima-se que pelo menos 30% das mulheres do planeta vivam sem um companheiro. Nos Estados Unidos, a solidão atinge quase a metade da população feminina. A considerar apenas a variante demográfica, a situação tende a se acentuar. Em 1980, segundo o IBGE, havia 98,7 homens para cada 100 mulheres brasileiras. Em 2000, o número de homens caiu para 97. A projeção para 2050 não é exatamente animadora para elas: serão 95 homens para cada 100 mulheres. A concorrência vai apertar.

 

 

 

Fonte: Fundação Getúlio Vargas

...mas ganham mais

Em relação à média das brasileiras, a mulher sozinha...

Tem um salário melhor
Sua renda é 10% mais alta do que a média nacional

Consegue mais trabalho
48% estão empregadas, contra 42% das brasileiras

Chega em maior número à universidade
12% conseguem acesso ao curso superior, contra uma média nacional de 9%

Consegue mais empregos no setor de serviços
68% trabalham no ramo do mercado que oferece os salários mais altos – a média nacional é de 63%

 
 
 
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