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Comportamento
Capitais da solidão
Pesquisa mostra quais são as
cidades brasileiras com maior
número de mulheres sozinhas

Monica Weinberg e Erin Mizuta
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Mulheres sozinhas interessadas
em encontrar um parceiro há tempos deparam com uma dificuldade:
a desvantagem numérica. No Brasil, o número de mulheres
solteiras, separadas e viúvas supera o de homens nas mesmas
condições faz quatro décadas. No último
censo do IBGE, o de 2000, elas eram 20 milhões eles,
15 milhões. Agora, pesquisa realizada pelo Centro de Políticas
Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que
as solitárias brasileiras com pretensão de abandonar
o celibato, além de ter de superar a concorrência,
precisam também se apressar. O estudo indica que, a partir
dos 35 anos de idade, a taxa de solidão feminina aumenta
e a do homem diminui. A cada período de cinco anos, a diferença
entre elas cresce, em média, 5 pontos porcentuais. "Na idade
adulta, quatro de cada dez mulheres brasileiras estão sozinhas",
diz o economista Marcelo Neri, coordenador da pesquisa. Na faixa
dos 50 anos, o número de mulheres que vivem sozinhas é
mais que o dobro do de homens. Por volta dos 60, essa proporção
praticamente triplica. O trabalho da FGV traduz em números
o que se constata na prática: quanto mais a mulher amadurece,
menos chance tem de encontrar um parceiro. Com o homem é
diferente: a taxa de solidão chega a diminuir na passagem
dos 40 para os 50 anos e se mantém estável
até por volta dos 60 (veja
quadro).
Inacio Teixeira/Coperphoto
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| Salvador: na capital da Bahia, mais de 50%
das mulheres vivem só |
O número de mulheres sozinhas supera o de homens na mesma
situação, primeiro por um motivo de ordem demográfica.
Na faixa dos 30 anos, quando a solidão feminina começa
a ultrapassar a masculina, a população de mulheres
é 4% maior que a de homens. Aos 60, essa diferença
salta para 13%. Isso ocorre, basicamente, porque elas vivem mais
do que eles em média, oito anos. Outras razões
contribuem para inflar as taxas de solidão feminina. Estudos
mostram que homens, sobretudo os da idade madura, tendem a procurar
mulheres mais jovens do que eles para se casar. Pesquisa feita pelo
professor Ailton Amélio da Silva, do departamento de psicologia
experimental da Universidade de São Paulo, indica que homens
que se casam na faixa dos 60 anos escolhem uma parceira, em média,
catorze anos mais nova.
Se eles priorizam a juventude
na busca de uma companheira, elas se guiam por outros critérios:
"A mulher procura um parceiro que considera mais bem-sucedido e
mais inteligente do que ela mesma", afirma o professor Amélio.
E reside aí uma dificuldade adicional para as solteiras que
são, elas próprias, profissionais de sucesso. Como,
nesse caso, o grau de exigência em relação ao
companheiro tende a aumentar, o leque de opções fatalmente
se reduz. O estudo da FGV ilustra o fenômeno. Segundo a pesquisa,
as mulheres sozinhas são justamente as que têm melhor
situação socioeconômica. Solteiras, separadas
e viúvas costumam ser, em relação à
média das brasileiras, as que têm mais empregos, melhores
salários e um nível de escolaridade maior (veja
quadro).
A exigência feminina, afirmam
especialistas, aumenta na mesma proporção em que cresce
a autonomia das mulheres. O princípio se aplica tanto às
que estão em busca de um parceiro quanto às que optaram
pela separação. "Entre as mulheres de classes mais
altas, com bom nível educacional e carreira bem estruturada,
as possibilidades de encerrar uma união que consideram insatisfatória
são maiores", observa a socióloga Célia Belém,
que estuda o assunto há duas décadas. Pesquisa da
Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, feita com 800 mulheres
sozinhas no ano passado, mostrou que, embora a quase totalidade
das entrevistadas tenha declarado estar em busca de um companheiro,
apenas 20% admitiram a idéia de casar-se com um homem que
não julgassem "plenamente satisfatório".
O
estudo da FGV listou ainda os municípios brasileiros onde
há maior concentração de mulheres sozinhas.
Das dez cidades campeãs, oito estão localizadas na
Bahia. Na capital, Salvador, 51% da população feminina
adulta está desacompanhada. Os acadêmicos apontam dois
motivos para explicar o fenômeno. O primeiro é que,
enquanto no Brasil a opção pela solidão é
um fenômeno concentrado nas classes mais altas, na Bahia aspectos
culturais possibilitam que ela se estenda para outros estratos de
renda. Por causa da tradição matriarcal que vigora
no estado, com forte influência do candomblé, mulheres
freqüentemente compõem lares chefiados por mulheres.
"É comum encontrar várias gerações de
mulheres de uma família vivendo sob o mesmo teto", diz a
socióloga Maria Gabriela Ita, da Universidade Federal da
Bahia. "A cultura local serve como amparo para que elas sobrevivam
sem um parceiro que as sustente e acaba por garantir-lhes a escolha
por permanecer solitárias", diz. A migração
é outro fator que contribui para as altas taxas de solidão
feminina na Bahia. Entre os oito municípios do estado com
as maiores taxas de mulheres sozinhas, sete estão no interior.
São cidades pobres, que apresentam elevado índice
de evasão populacional, notadamente masculina. Tradicionalmente,
parte dos homens a iniciativa de deixar a terra natal em busca de
melhores oportunidades de trabalho. No ranking das dez cidades brasileiras
onde há menor concentração de mulheres solitárias,
sete estão situadas no estado de Mato Grosso. Aí,
ocorre o fenômeno inverso: as cidades mato-grossenses, por
fazer parte de uma próspera fronteira agrícola onde
a principal atividade econômica é a soja, tornaram-se
pólos de atração de migrantes. Mais trabalho,
mais homens. E, portanto, menos mulheres sozinhas.
Hoje, estima-se que pelo menos
30% das mulheres do planeta vivam sem um companheiro. Nos Estados
Unidos, a solidão atinge quase a metade da população
feminina. A considerar apenas a variante demográfica, a situação
tende a se acentuar. Em 1980, segundo o IBGE, havia 98,7 homens
para cada 100 mulheres brasileiras. Em 2000, o número de
homens caiu para 97. A projeção para 2050 não
é exatamente animadora para elas: serão 95 homens
para cada 100 mulheres. A concorrência vai apertar.
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