Edição 1902 . 27 de abril de 2005

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Especial
Declínio na casa do papa

Apesar da popularidade de João Paulo II,
debandada de fiéis esvazia as igrejas e expõe
o desencanto dos católicos europeus


Diogo Schelp e Ruth Costas


Gabriel Bouys/AFP
Experiência mística: 2 milhões de jovens católicos para ouvir o papa João Paulo II em Roma, em 2000
NESTA REPORTAGEM
Quadro: A pouca sorte dos papa alemães


A Europa, cuja identidade cultural foi construída pelo cristianismo e serviu de plataforma para a expansão global da fé católica, é hoje, paradoxalmente, um continente de igrejas vazias. Nas imponentes catedrais há mais turistas admirados com a arquitetura do que fervor religioso. João Paulo II atingiu índices de popularidade de celebridades pop, mas seu pontificado assistiu, atônito, ao virtual colapso do catolicismo europeu. Apenas dois de cada dez católicos comparecem com regularidade à missa na Europa Ocidental. No Leste Europeu são 14%. Nos anos 60, quando Joseph Ratzinger, atual Bento XVI, chegou a Roma para assessorar os cardeais nas discussões do Concílio Vaticano II, oito de cada dez crianças nascidas em lares católicos na França recebiam o batismo. Hoje, só uma em duas. A debandada do rebanho é sentida com intensidade até nos países cuja maioria católica é avassaladora, como a Espanha (90% dos jovens espanhóis jamais vão à missa) e a Itália (só um em cada quatro católicos vai à igreja). Na Alemanha, terra natal do novo pontífice, o comparecimento à missa é de reles 15%.

Em vários países faltam padres por causa da queda no número de seminaristas. Em 2004, menos de noventa padres foram ordenados na França. Na Alemanha, há 9.000 sacerdotes para 13.000 paróquias. De exportadora de missionários com a palavra de Cristo, a Europa agora recruta padres na África e na Ásia. Só na Alemanha há 1 400 padres africanos e asiáticos atuando em suas paróquias. Os teólogos debatem há anos as causas da debandada do rebanho europeu – mas não há, por enquanto, uma resposta que sirva a todas as perguntas. As pesquisas demonstram que não se trata de um surto de ateísmo. Só 4% dos europeus se declaram inteiramente ateus. Também não é certo falar em crise de espiritualidade. Apesar de escassas nos bancos das igrejas, multidões se lançam em peregrinações a Santiago de Compostela, na Espanha, ao Santuário de Fátima, em Portugal, ou vão a Roma com a esperança de ver o papa. "Na Europa, o interesse na Igreja Católica diminuiu porque, cada vez mais, as pessoas encaram a fé religiosa como algo individual e privado, que dispensa a intermediação de uma instituição", disse a VEJA o teólogo alemão Christian Schmidtmann. Segundo ele, em lugar de aceitar como verdadeira uma única linhagem religiosa, os europeus atuais constroem verdadeiras "religiões de retalhos", costuradas apenas com os elementos que lhes interessam, descartando o resto.

FilippoMonteforte/AFP
Católicos alemães comemoram a escolha de Ratzinger como papa: na Alemanha, o dízimo é cobrado com impostos


Uma das grandes preocupações de Bento XVI é exatamente combater o que ele chama de "relativismo" da fé – ou seja, a tendência moderna de acreditar que as religiões se equivalem e que é possível estabelecer uma identidade religiosa individual com fragmentos de cada uma. Antes de ser eleito papa, ele qualificou o fenômeno como prova do declínio espiritual, moral e cultural da Europa. Para o papa, o avanço do individualismo faz com que as pessoas obedeçam também no campo religioso a uma ética hedonista, de busca dos pequenos prazeres e satisfações pessoais. A questão é como ele pretende atrair ao seio da Igreja os católicos europeus que tocam a vida mais de acordo com os costumes modernos do que com os ensinamentos tradicionais da Santa Sé. O fenômeno é claramente europeu e se deve, em parte, ao fato de a Europa ser o berço do racionalismo. Com o avanço da ciência e do acesso à educação para uma parcela maior da população, as pessoas passaram a encontrar na razão respostas para questões que antes só a religião podia oferecer. Na África, o número de católicos triplicou nos últimos 25 anos. Na Ásia, quase dobrou. Na América Latina, a religião continua confortavelmente majoritária, apesar do assédio pentecostal.

Para traçar planos para enfrentar o êxodo de fiéis, Bento XVI pode muito bem recorrer ao ecumenismo. Isso porque entre os protestantes o cenário é igualmente desolador. Durante o pontificado de João Paulo II, tornou-se mantra a tese de que o catolicismo europeu vivia uma espécie de exílio, à espera de um papa de idéias mais liberais. A idéia defendida por teólogos liberais é a de que o rigor do papa em temas morais – como o veto ao uso de preservativos, ao aborto, ao sacerdócio feminino e ao casamento homossexual – estava na contramão da vida moderna e, com isso, afugentava os fiéis. Quanto a isso, vale a pena olhar o que acontece nas igrejas protestantes que na Europa levaram mais longe a experiência de se adaptar aos tempos modernos. Apesar de ter adotado uma linha tolerante em relação ao homossexualismo, ao controle de natalidade e ao divórcio, a Igreja Anglicana está se exaurindo com maior rapidez que a católica. Se 23% dos católicos ingleses vão à missa, entre os anglicanos os praticantes não passam de 4%. "Na verdade, os ensinamentos sociais e familiares da Santa Sé não explicam o desinteresse dos europeus pela Igreja, mas servem de atestado da perda de influência da instituição", diz o historiador americano Roger Minert, da Universidade Brigham Young, dos Estados Unidos.

A Alemanha, terra natal de Bento XVI, oferece um bom exemplo de como isso ocorre. Pesquisa realizada nas maiores cidades do país mostrou que menos da metade dos cristãos praticantes seguia as orientações morais de suas igrejas. O catolicismo divide com o protestantismo luterano a preferência religiosa dos alemães. Há 26,2 milhões de católicos e 25,8 milhões de luteranos. Somados, eles representam quase dois terços da população. Ambas as religiões são atormentadas pela evasão de fiéis. A Igreja Católica perde 120.000 fiéis por ano. A Luterana perde 100.000. Na Alemanha, esses números podem ser calculados com segurança porque os fiéis pagam um imposto religioso, recolhido pelo governo e repassado às igrejas. Quem quiser suspender a contribuição – que representa 10% do que é pago em imposto territorial e de renda para o Estado – deixa oficialmente de ser membro da Igreja. O "imposto de igreja", criado no século XIX, foi incorporado à Constituição da Alemanha depois da II Guerra.

"A pergunta que os alemães fazem é para quê, afinal, eles precisam da Igreja", disse a VEJA o teólogo alemão Medard Kehl, professor da Faculdade Filosófica e Teológica de Frankfurt, na Alemanha. "A conclusão é muitas vezes a de que estão pagando apenas para comemorar o Natal de cada ano e celebrar o casamento uma vez na vida. Se for assim, não há razão para continuar a ser membro da Igreja." Nas últimas duas décadas, o Vaticano foi especialmente severo com a ala mais liberal da Igreja Católica alemã. O cardeal Ratzinger, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, foi o ideólogo de boa parte dessas medidas. Na década de 90, exigiu obediência dos teólogos alemães às instruções de ensino determinadas por Roma. Há três anos, o papa proibiu as paróquias alemãs de manter centros de aconselhamento de gestantes, uma atividade que era subsidiada pelo governo da Alemanha. Quase 300 centros foram fechados, com o argumento de que estavam facilitando o acesso das mulheres grávidas ao aborto legal. E, há dois anos, um padre católico foi suspenso por dar a comunhão a 2.000 pessoas em uma igreja protestante, onde rezou uma missa ecumênica. Bento XVI sabe dessas dificuldades que enfrentará em sua terra natal. Em uma entrevista publicada no livro O Sal da Terra, de 1997, ele disse sobre a Alemanha: "Aumentam, por todos os lados, a divisão interior da Igreja e o desinteresse pela fé". Na semana passada, ele prometeu que um de seus primeiros compromissos como papa será uma visita a um encontro de jovens católicos em Colônia, na Alemanha.

 

"QUO NOMINE VIS VOCARI?"

Como um papa recém-eleito escolhe o nome
pelo qual será conhecido seu pontificado

AP
Bento XV: Ratzinger homenageia o papa que tentou acabar com a I Guerra e canonizou Joana D'Arc
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Quem foram os outros Bentos


Logo depois de aceitar o cargo, um papa recém-eleito responde à pergunta: "Quo nomine vis vocari?" (Por qual nome deseja ser chamado?). Se quiser, ele pode manter o nome de batismo, mas há 450 anos isso não acontece. O último papa a fazê-lo foi Marcelo II, em 1555. Ao escolher Bento XVI, Joseph Ratzinger prestou homenagem a São Bento, monge do século VI a quem já declarou admirar como um guardião da verdadeira fé em seu tempo. Vários vaticanólogos vêem na escolha uma indicação de que a Europa está no centro das atenções do novo pontífice – isso porque São Bento é patrono do continente. Trata-se, na verdade, de uma dupla homenagem, pois Ratzinger também desejou reverenciar a memória de Bento XV, o italiano Giacomo della Chiesa, pontífice de 1914 a 1922. Eleito um mês depois de eclodir a I Guerra, Bento XV empenhou-se sem sucesso na busca da paz. Ele também tentou um diálogo com os muçulmanos e canonizou Joana D'Arc.

A tradição de adotar um novo nome ao ser escolhido papa tem raízes no Evangelho e remonta ao primeiro deles, São Pedro. Jesus Cristo, ao entregar sua igreja ao apóstolo Simão, dizendo que ele seria a pedra fundamental sobre a qual ela se ergueria, deu-lhe o novo nome de Pedro. Não há uma regra fixa para a escolha de um nome. O primeiro a adotar um pseudônimo, em 533, foi João II, que originalmente se chamava Mercúrio. Ele concluiu que o nome de uma divindade pagã não condizia com seu novo papel de chefe da Igreja Católica. Em 983, um papa chamado Pedro adotou o nome de João XIV, achando que se tornar Pedro II seria não apenas falta de respeito ao primeiro papa como prova de indesculpável falta de humildade. Desde aquela época, a troca de nomes tornou-se a regra, com poucas exceções. No cômputo geral, os papas já adotaram 81 nomes. O mais freqüente é João, escolhido 22 vezes. Em seguida vêm Bento e Gregório (dezesseis vezes), Clemente (catorze), Inocêncio (treze), Leão (treze) e Pio (doze). João Paulo I foi o primeiro a adotar um nome duplo, em homenagem aos dois antecessores imediatos, João XXIII e Paulo VI. Eleito sob o impacto da morte precoce do papa, Karol Wojtyla escolheu ser João Paulo II. Do outro lado da balança, um mau papado pode condenar um nome ao Índex. Há 300 anos nenhum papa se arrisca a evocar Alexandre VI, o integrante do clã italiano Bórgia que durante seu reinado, no início do século XVI, colecionava amantes e chafurdava na corrupção.

 
 
 
 
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