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Especial Declínio
na casa do papa Apesar da popularidade de João
Paulo II, debandada de fiéis esvazia as igrejas e expõe
o desencanto dos católicos europeus  Diogo
Schelp e Ruth Costas
Gabriel
Bouys/AFP
 | | Experiência
mística: 2 milhões de jovens católicos para ouvir o papa João Paulo II em Roma,
em 2000 | |
A Europa,
cuja identidade cultural foi construída pelo cristianismo e serviu de plataforma
para a expansão global da fé católica, é hoje, paradoxalmente,
um continente de igrejas vazias. Nas imponentes catedrais há mais turistas
admirados com a arquitetura do que fervor religioso. João Paulo II atingiu
índices de popularidade de celebridades pop, mas seu pontificado assistiu,
atônito, ao virtual colapso do catolicismo europeu. Apenas dois de cada
dez católicos comparecem com regularidade à missa na Europa Ocidental.
No Leste Europeu são 14%. Nos anos 60, quando Joseph Ratzinger, atual Bento
XVI, chegou a Roma para assessorar os cardeais nas discussões do Concílio
Vaticano II, oito de cada dez crianças nascidas em lares católicos
na França recebiam o batismo. Hoje, só uma em duas. A debandada
do rebanho é sentida com intensidade até nos países cuja
maioria católica é avassaladora, como a Espanha (90% dos jovens
espanhóis jamais vão à missa) e a Itália (só
um em cada quatro católicos vai à igreja). Na Alemanha, terra natal
do novo pontífice, o comparecimento à missa é de reles 15%.
Em vários países faltam padres por
causa da queda no número de seminaristas. Em 2004, menos de noventa padres
foram ordenados na França. Na Alemanha, há 9.000 sacerdotes para
13.000 paróquias. De exportadora de missionários com a palavra de
Cristo, a Europa agora recruta padres na África e na Ásia. Só
na Alemanha há 1 400 padres africanos e asiáticos atuando em suas
paróquias. Os teólogos debatem há anos as causas da debandada
do rebanho europeu mas não há, por enquanto, uma resposta
que sirva a todas as perguntas. As pesquisas demonstram que não se trata
de um surto de ateísmo. Só 4% dos europeus se declaram inteiramente
ateus. Também não é certo falar em crise de espiritualidade.
Apesar de escassas nos bancos das igrejas, multidões se lançam em
peregrinações a Santiago de Compostela, na Espanha, ao Santuário
de Fátima, em Portugal, ou vão a Roma com a esperança de
ver o papa. "Na Europa, o interesse na Igreja Católica diminuiu porque,
cada vez mais, as pessoas encaram a fé religiosa como algo individual e
privado, que dispensa a intermediação de uma instituição",
disse a VEJA o teólogo alemão Christian Schmidtmann. Segundo ele,
em lugar de aceitar como verdadeira uma única linhagem religiosa, os europeus
atuais constroem verdadeiras "religiões de retalhos", costuradas apenas
com os elementos que lhes interessam, descartando o resto.
FilippoMonteforte/AFP
 | | Católicos
alemães comemoram a escolha de Ratzinger como papa: na Alemanha, o dízimo é cobrado
com impostos |
Uma das grandes preocupações
de Bento XVI é exatamente combater o que ele chama de "relativismo" da
fé ou seja, a tendência moderna de acreditar que as religiões
se equivalem e que é possível estabelecer uma identidade religiosa
individual com fragmentos de cada uma. Antes de ser eleito papa, ele qualificou
o fenômeno como prova do declínio espiritual, moral e cultural da
Europa. Para o papa, o avanço do individualismo faz com que as pessoas
obedeçam também no campo religioso a uma ética hedonista,
de busca dos pequenos prazeres e satisfações pessoais. A questão
é como ele pretende atrair ao seio da Igreja os católicos europeus
que tocam a vida mais de acordo com os costumes modernos do que com os ensinamentos
tradicionais da Santa Sé. O fenômeno é claramente europeu
e se deve, em parte, ao fato de a Europa ser o berço do racionalismo. Com
o avanço da ciência e do acesso à educação para
uma parcela maior da população, as pessoas passaram a encontrar
na razão respostas para questões que antes só a religião
podia oferecer. Na África, o número de católicos triplicou
nos últimos 25 anos. Na Ásia, quase dobrou. Na América Latina,
a religião continua confortavelmente majoritária, apesar do assédio
pentecostal.
Para traçar planos para enfrentar
o êxodo de fiéis, Bento XVI pode muito bem recorrer ao ecumenismo.
Isso porque entre os protestantes o cenário é igualmente desolador.
Durante o pontificado de João Paulo II, tornou-se mantra a tese de que
o catolicismo europeu vivia uma espécie de exílio, à espera
de um papa de idéias mais liberais. A idéia defendida por teólogos
liberais é a de que o rigor do papa em temas morais como o veto
ao uso de preservativos, ao aborto, ao sacerdócio feminino e ao casamento
homossexual estava na contramão da vida moderna e, com isso, afugentava
os fiéis. Quanto a isso, vale a pena olhar o que acontece nas igrejas protestantes
que na Europa levaram mais longe a experiência de se adaptar aos tempos
modernos. Apesar de ter adotado uma linha tolerante em relação ao
homossexualismo, ao controle de natalidade e ao divórcio, a Igreja Anglicana
está se exaurindo com maior rapidez que a católica. Se 23% dos católicos
ingleses vão à missa, entre os anglicanos os praticantes não
passam de 4%. "Na verdade, os ensinamentos sociais e familiares da Santa Sé
não explicam o desinteresse dos europeus pela Igreja, mas servem de atestado
da perda de influência da instituição", diz o historiador
americano Roger Minert, da Universidade Brigham Young, dos Estados Unidos.
A
Alemanha, terra natal de Bento XVI, oferece um bom exemplo de como isso ocorre.
Pesquisa realizada nas maiores cidades do país mostrou que menos da metade
dos cristãos praticantes seguia as orientações morais de
suas igrejas. O catolicismo divide com o protestantismo luterano a preferência
religiosa dos alemães. Há 26,2 milhões de católicos
e 25,8 milhões de luteranos. Somados, eles representam quase dois terços
da população. Ambas as religiões são atormentadas
pela evasão de fiéis. A Igreja Católica perde 120.000 fiéis
por ano. A Luterana perde 100.000. Na Alemanha, esses números podem ser
calculados com segurança porque os fiéis pagam um imposto religioso,
recolhido pelo governo e repassado às igrejas. Quem quiser suspender a
contribuição que representa 10% do que é pago em imposto
territorial e de renda para o Estado deixa oficialmente de ser membro da
Igreja. O "imposto de igreja", criado no século XIX, foi incorporado à
Constituição da Alemanha depois da II Guerra. "A
pergunta que os alemães fazem é para quê, afinal, eles precisam
da Igreja", disse a VEJA o teólogo alemão Medard Kehl, professor
da Faculdade Filosófica e Teológica de Frankfurt, na Alemanha. "A
conclusão é muitas vezes a de que estão pagando apenas para
comemorar o Natal de cada ano e celebrar o casamento uma vez na vida. Se for assim,
não há razão para continuar a ser membro da Igreja." Nas
últimas duas décadas, o Vaticano foi especialmente severo com a
ala mais liberal da Igreja Católica alemã. O cardeal Ratzinger,
como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, foi o
ideólogo de boa parte dessas medidas. Na década de 90, exigiu obediência
dos teólogos alemães às instruções de ensino
determinadas por Roma. Há três anos, o papa proibiu as paróquias
alemãs de manter centros de aconselhamento de gestantes, uma atividade
que era subsidiada pelo governo da Alemanha. Quase 300 centros foram fechados,
com o argumento de que estavam facilitando o acesso das mulheres grávidas
ao aborto legal. E, há dois anos, um padre católico foi suspenso
por dar a comunhão a 2.000 pessoas em uma igreja protestante, onde rezou
uma missa ecumênica. Bento XVI sabe dessas dificuldades que enfrentará
em sua terra natal. Em uma entrevista publicada no livro O Sal da Terra,
de 1997, ele disse sobre a Alemanha: "Aumentam, por todos os lados, a divisão
interior da Igreja e o desinteresse pela fé". Na semana passada, ele prometeu
que um de seus primeiros compromissos como papa será uma visita a um encontro
de jovens católicos em Colônia, na Alemanha.
"QUO NOMINE VIS VOCARI?"
Como um papa recém-eleito escolhe o nome pelo qual será conhecido
seu pontificado
AP
 | | Bento
XV: Ratzinger homenageia o papa que tentou acabar com a I Guerra e canonizou Joana
D'Arc | |
Logo depois de aceitar o
cargo, um papa recém-eleito responde à pergunta: "Quo nomine
vis vocari?" (Por qual nome deseja ser chamado?). Se quiser, ele pode manter
o nome de batismo, mas há 450 anos isso não acontece. O último
papa a fazê-lo foi Marcelo II, em 1555. Ao escolher Bento XVI, Joseph Ratzinger
prestou homenagem a São Bento, monge do século VI a quem já
declarou admirar como um guardião da verdadeira fé em seu tempo.
Vários vaticanólogos vêem na escolha uma indicação
de que a Europa está no centro das atenções do novo pontífice
isso porque São Bento é patrono do continente. Trata-se,
na verdade, de uma dupla homenagem, pois Ratzinger também desejou reverenciar
a memória de Bento XV, o italiano Giacomo della Chiesa, pontífice
de 1914 a 1922. Eleito um mês depois de eclodir a I Guerra, Bento XV empenhou-se
sem sucesso na busca da paz. Ele também tentou um diálogo com os
muçulmanos e canonizou Joana D'Arc.
A tradição
de adotar um novo nome ao ser escolhido papa tem raízes no Evangelho e
remonta ao primeiro deles, São Pedro. Jesus Cristo, ao entregar sua igreja
ao apóstolo Simão, dizendo que ele seria a pedra fundamental sobre
a qual ela se ergueria, deu-lhe o novo nome de Pedro. Não há uma
regra fixa para a escolha de um nome. O primeiro a adotar um pseudônimo,
em 533, foi João II, que originalmente se chamava Mercúrio. Ele
concluiu que o nome de uma divindade pagã não condizia com seu novo
papel de chefe da Igreja Católica. Em 983, um papa chamado Pedro adotou
o nome de João XIV, achando que se tornar Pedro II seria não apenas
falta de respeito ao primeiro papa como prova de indesculpável falta de
humildade. Desde aquela época, a troca de nomes tornou-se a regra, com
poucas exceções. No cômputo geral, os papas já adotaram
81 nomes. O mais freqüente é João, escolhido 22 vezes. Em seguida
vêm Bento e Gregório (dezesseis vezes), Clemente (catorze), Inocêncio
(treze), Leão (treze) e Pio (doze). João Paulo I foi o primeiro
a adotar um nome duplo, em homenagem aos dois antecessores imediatos, João
XXIII e Paulo VI. Eleito sob o impacto da morte precoce do papa, Karol Wojtyla
escolheu ser João Paulo II. Do outro lado da balança, um mau papado
pode condenar um nome ao Índex. Há 300 anos nenhum papa se arrisca
a evocar Alexandre VI, o integrante do clã italiano Bórgia que durante
seu reinado, no início do século XVI, colecionava amantes e chafurdava
na corrupção. | |
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