|
|
Especial O
manifesto de Ratzinger Na missa Pro Eligendo Romano
Pontifice, celebrada na Basílica de São Pedro pouco antes do
início do conclave, o então cardeal Joseph Ratzinger, agora
papa Bento XVI, conclamou a Igreja a permanecer imune ao relativismo,
às ideologias modernas e modas filosóficas. A homilia, cujos
principais trechos são reproduzidos abaixo, foi determinante para
conquistar o voto de muitos eleitores até aquele momento indecisos.
Jerry Lampen/Reuters  |
| Ratzinger reza a última missa antes do conclave: ele
representa uma certa continuidade | | Nesta hora
de grande responsabilidade, escutemos com atenção especial o que
o Senhor nos disse com suas próprias palavras. Das três leituras,
escolhi apenas os trechos que nos dizem respeito diretamente num momento como
este.
A primeira leitura oferece
um retrato profético da figura do Messias um retrato que adquire
todo o seu significado a partir do momento em que Jesus lê este texto na
sinagoga de Nazaré, quando diz: "Hoje realizou-se esta escritura". No cerne
do texto profético encontramos uma palavra que ao menos à
primeira vista parece contraditória. O Messias, falando de si, diz
que foi mandado "para promulgar o ano da misericórdia do Senhor, um dia
de vingança para o nosso Deus". Escutemos, com alegria, o anúncio
do ano de misericórdia: a misericórdia divina impõe um limite
ao mal disse-nos o Santo Padre. Jesus Cristo é a misericórdia
divina personificada: encontrar Cristo significa encontrar a misericórdia
de Deus. A misericórdia de
Cristo não é uma graça barata, não supõe uma
banalização do mal. Cristo carrega no seu corpo e na sua alma todo
o peso do mal, toda a sua força destrutiva. Ele queima e transforma o mal
no sofrimento, no fogo do seu amor sofredor. O dia da vingança e o ano
da misericórdia coincidem no mistério pascal, no Cristo morto e
ressuscitado. É esta a vingança de Deus: Ele mesmo, na pessoa do
Filho, sofre por nós. Passemos
à segunda leitura, à epístola aos Efésios. Aqui se
trata, substancialmente, de três coisas: em primeiro lugar, dos ministérios
e dos carismas da Igreja, como presentes do Senhor ressuscitado e ascendido ao
céu; depois, do amadurecimento da fé e do conhecimento do Filho
de Deus, como condição e conteúdo da unidade no corpo de
Cristo; e, por fim, da participação comum no crescimento do corpo
de Cristo, ou seja, da transformação do mundo na comunhão
com o Senhor. Detenhamo-nos apenas
em dois pontos. O primeiro é o caminho em direção à
"maturidade de Cristo"; assim diz, simplificando um pouco, o texto italiano. Mais
precisamente deveríamos, de acordo com o texto grego, falar da "medida
da plenitude de Cristo", à qual somos chamados a atingir para sermos realmente
adultos na fé. Não deveríamos permanecer crianças
na fé, em estado de menoridade. E em que consiste sermos crianças
na fé? Responde São Paulo: "Significa sermos arrastados pelas ondas
e levados para lá e para cá por qualquer vento doutrinário".
Uma descrição muito atual!
Quantos ventos doutrinários conhecemos nestes últimos decênios,
quantas correntes ideológicas, quantos modos de pensamento... O pequeno
barco do pensamento de muitos cristãos foi, não raro, agitado por
essas ondas jogado de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo,
até a libertinagem; do coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo
a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo, e assim por diante.
A cada dia nascem novas seitas e se realiza aquilo que diz São Paulo sobre
o engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir ao erro. Ter uma
fé clara, segundo o credo da Igreja, muitas vezes é rotulado como
fundamentalismo. Enquanto o relativismo, ou seja, o deixar-se levar "para lá
e para cá e para lá por qualquer vento doutrinário", aparece
como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo
uma ditadura do relativismo, que não reconhece nada como definitivo e que
deixa como última medida somente o eu e as suas vontades.
Nós, ao contrário, temos uma outra medida: o Filho de Deus, o verdadeiro
homem. É ele a medida do verdadeiro humanismo. "Adulta" não é
uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e
madura é uma fé profundamente enraizada na amizade com Cristo. É
esta amizade que nos abre a tudo aquilo que é bom e nos dá o critério
para discernir entre verdadeiro e falso, entre engano e verdade. Devemos amadurecer
esta fé adulta, a esta fé devemos conduzir o rebanho de Cristo.
E é esta fé só a fé que cria unidade
e se realiza na caridade. Vamos agora
ao Evangelho, de cuja riqueza gostaria de extrair apenas duas pequenas observações.
O Senhor nos dirige estas maravilhosas palavras: "Não os chamo mais de
servos... mas os chamei de amigos". Muitas vezes sentimos ser e com razão
apenas servos inúteis. E, apesar disso, o Senhor nos chama de amigos,
nos torna seus amigos, nos dá sua amizade. O Senhor define a amizade de
uma dupla forma. Não há segredos entre amigos: Cristo nos diz tudo
aquilo que ouve do Pai; nos dá sua plena confiança e, com a confiança,
também o conhecimento. Revela-nos o seu rosto, o seu coração.
Mostra a sua ternura por nós, o seu amor apaixonado, que vai até
a loucura da cruz. Confia-se a nós, nos dá o poder de falar com
o seu eu: "este é meu corpo..."; "eu te absolvo". Confia seu corpo, a Igreja,
a nós. Confia às nossas frágeis mentes, às nossas
frágeis mãos, a sua verdade o mistério do Deus Pai,
Filho e Espírito Santo; o mistério do Deus que "amou tanto o mundo
a ponto de dar-lhe o seu Filho unigênito". Fez de nós seus amigos
e nós, como respondemos?
O segundo elemento com o qual Jesus define a amizade é a comunhão
das vontades. "Idem velle idem nolle" era também para os romanos
a definição de amizade. "Sois meus amigos, se fazeis aquilo que
vos ordeno." A amizade com Cristo coincide com o que expressa o terceiro pedido
do pai-nosso: "Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu".
O outro elemento do Evangelho
ao qual eu gostaria de acenar é o discurso de Jesus sobre levar
o fruto: "Eu vos constituí para que andeis e frutifiqueis e o vosso fruto
permaneça". Aparece aqui o dinamismo da existência do cristão,
do apóstolo: vos constituí para que andeis... Devemos ser animados
por uma santa inquietação: a inquietação de levar
a todos o dom da fé, da amizade com Cristo. Na verdade, a amizade, o amor
de Deus nos foi dado para que chegue também aos outros. Recebemos a fé
para doá-la aos outros somos sacerdotes para servir aos outros.
E devemos levar um fruto que permaneça. Todos os homens querem deixar um
traço que permaneça. Mas o que permanece? O dinheiro, não.
Também os edifícios não permanecem; nem mesmo os livros.
Depois de um certo tempo, mais ou menos longo, todas essas coisas desaparecem.
A única coisa que permanece eternamente é a alma humana, o homem
criado por Deus para a eternidade.
O fruto que permanece é, assim, aquilo que semeamos nas almas humanas
o amor, o conhecimento; o gesto capaz de tocar o coração; a palavra
que abre a alma à alegria do Senhor.
Voltemos enfim, mais uma vez, à epístola aos Efésios. A epístola
diz com as palavras do Salmo 68 que Cristo, ao subir ao céu,
"distribuiu presentes aos homens".
O vencedor distribui presentes. E estes presentes são apóstolos,
profetas, evangelistas, pastores e mestres. O nosso ministério é
um presente de Cristo aos homens, para construir o seu corpo o mundo novo.
Vivamos assim o nosso ministério, como presente de Cristo aos homens! Mas
nesta hora, sobretudo, peçamos com insistência ao Senhor que, depois
do grande presente do papa João Paulo II, nos dê novamente um pastor
que esteja em seu coração, um pastor que nos guie ao conhecimento
de Cristo, ao seu amor, à verdadeira alegria. Amém.
|