Edição 1902 . 27 de abril de 2005

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Continuar para mudar

Ao eleger papa o alemão Ratzinger, chamado
de "o cardeal panzer", a Igreja Católica optou
pelo apego à pureza doutrinária e à tradição
como estratégia para se impor a um mundo
volátil e de frágeis valores morais


Mario Sabino, de Roma


Patrick Hertzog/AFP
O papa Bento XVI em sua primeira aparição para os fiéis: "Depois do grande papa João Paulo II, os senhores cardeais me elegeram, um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor..."


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O papa panzer, o pastor alemão. "Um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor." Num ponto qualquer entre as alcunhas pejorativas que lhe foram aplicadas nos jornais e a maneira modesta como se referiu a si próprio, depois do anúncio público de que ele havia sido eleito o 265° pontífice da Igreja Católica, encontra-se a verdade sobre o cardeal Joseph Ratzinger, agora papa Bento XVI. Onde fica exatamente esse ponto – que Deus perdoe os precipitados – só será possível verificar no decorrer do seu pontificado, que não deverá ser tão longo quanto o anterior, visto que o novo ocupante do Trono de Pedro conta com 78 anos. João Paulo II tinha 58 quando foi feito papa. Mas um fato é incontestável: em Roma, Bento XVI já realizou o milagre de fazer com que João Paulo II se tornasse uma página virada na história. O severo e reservado guardião da doutrina vem se mostrando afabilíssimo nos seus contatos com a multidão – e parece ter tomado gosto em fazê-lo. Melhor que seja assim, porque não há mais como evitar esses encontros desde que seu antecessor escancarou o Vaticano para o mundo. Meio milhão de pessoas eram esperadas para a primeira grande missa celebrada por Bento XVI, neste domingo.

A eleição de Ratzinger desfez uma convicção e um lugar-comum com raízes na realidade. A convicção: a de que dificilmente seria escolhido um pontífice proveniente de uma nação poderosa, para evitar que houvesse uma coincidência entre o papado e uma potência política e econômica. O lugar-comum: o de que quem entra papa num conclave sai cardeal. Ratzinger entrou papa e saiu papa. Foi uma candidatura que começou a chamar atenção na Páscoa, quanto ele substituiu o combalido João Paulo II na tradicional via-crúcis em torno do Coliseu, em Roma. Em sua homilia, Ratzinger surpreendeu ao falar da "sujeira dentro da Igreja", no que se afigurou como o esboço de um programa de governo. Nas exéquias de Wojtyla, voltaria a causar espanto, mas por outra razão – em sua fala, o duro cardeal alemão revelou-se um amigo emocionado e grato. "O nosso papa, sabemos todos, jamais quis salvar a própria vida, tê-la para si; quis dar-se sem reservas, até o último momento, por Cristo e também por nós", disse Ratzinger. Sua candidatura desabrocharia por inteiro na missa que antecedeu o conclave. Ali, na presença de todos os cardeais eleitores e milhares de fiéis, ele atacou o que chamou de "ditadura do relativismo" e defendeu que a Igreja mantivesse com rigor seus princípios nos campos da moral e da ética. A homilia, que ficou conhecida como "o manifesto de Ratzinger", foi interpretada como uma mensagem corajosa aos participantes do conclave de que ele não abriria mão de sua linha para angariar votos (veja reportagem). Mesmo seus inimigos (e eles não são poucos) se impressionaram. Além disso, seu desempenho nas congregações-gerais, as reuniões de prelados que ocorrem durante a Sé Vacante para decidir sobre aspectos administrativos do Vaticano, foi um exemplo de firmeza e equanimidade. "Muitos viram que ali estava alguém capaz de governar a Igreja", disse um cardeal a VEJA.


Arturo Mari/AFP
"Annuntio vobis gaudium magnum; habemus Papam: Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum, Dominum Josephum Sanctae Romanae Ecclesiae Cardinalem Ratzinger qui sibi nomen imposuit Benedictum XVI"

"Anuncio-vos com a maior alegria, temos o papa: Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor Joseph Ratzinger, cardeal da Santa Igreja Romana, que atribuiu a si mesmo o nome de Bento XVI"

Ratzinger era para ser apenas um candidato simbólico da ala de cardeais mais conservadora. Uma vez verificado o tamanho desse campo ideológico, por meio do número de sufrágios obtido, seria lançada uma segunda candidatura, mais palatável a outras correntes e costurada por acordos e acomodações. Essa é uma estratégia comum nas eleições para papa. Mas Ratzinger, tanto pela sua atuação nas diversas ocasiões que pontuaram o pré-conclave como por falta de adversários à altura, não demoraria a passar de candidato simbólico a efetivo. Foram suficientes apenas quatro votações para elegê-lo, o que também desmentiu a tese de que a opção por Ratzinger sairia de um conclave particularmente difícil. Na primeira, de um total de 115 votos, ele obteve em torno de quarenta. Seu rival, o italiano Carlo Maria Martini, candidato simbólico da ala reformista, conseguiu cerca de trinta. Nos escrutínios seguintes, Ratzinger foi aumentando gradualmente seu cacife, até chegar aos dois terços necessários para a eleição. Alguns jornais italianos publicaram que, na primeira votação, Martini superou o alemão e que, ao final, Ratzinger obteve uma vitória triunfal, com perto de 100 sufrágios. Não é verdade. VEJA apurou que Martini nunca esteve à frente de Ratzinger e que este, para ser eleito, angariou pouco mais de 77 votos, os dois terços requeridos.


Domenico Stinellis/AP
O papa é cercado por uma multidão ao sair de seu antigo apartamento, em Roma: os cardeais fizeram a escolha em menos de 24 horas

Entre outras coisas, os cardeais reformistas gostariam que a Igreja permitisse a ordenação de mulheres e anseiam por um afrouxamento nas condenações aos métodos contraceptivos, ao aborto e ao reconhecimento legal do casamento entre homossexuais (o último país a fazê-lo foi a Espanha). Porque o Vaticano é contra tudo isso que está aí, argumentam eles, o catolicismo vem sangrando há vários anos, especialmente na Europa, onde o rebanho diminui a cada ano. Como não conseguirão nada disso sob Bento XVI, os reformistas tendem a crer que a Igreja permanecerá congelada durante o seu pontificado. Que dominará um wojtylismo cinzento – e, pior, sem o carisma nem a criatividade de Wojtyla no campo do diálogo inter-religioso e do ecumenismo. Dessa perspectiva, o catolicismo teria começado a viver um inverno com uma duração, na mais branda hipótese, de quatro a cinco anos, até que Bento XVI seja enterrado nas grutas vaticanas. Parece improvável, no entanto, que o vaticínio se verifique por completo. Logo em seu primeiro discurso aos cardeais, o novo papa abordou uma questão muito cara aos reformistas e esconjurada pelos conservadores: a da colegialidade no governo da Igreja, uma das deliberações do Concílio Vaticano II que permanecem em aberto. E o fez de uma forma que não se esperava: emitindo um sinal positivo. Disse Bento XVI: "Como Pedro e os outros apóstolos constituíram por vontade do Senhor um único colégio apostólico, do mesmo modo o sucessor de Pedro e os bispos, sucessores dos apóstolos – o Concílio reafirmou isso com força –, devem estar estreitamente unidos. Esta comunhão colegial, apesar da diversidade dos papéis e das funções do pontífice romano e dos bispos, está a serviço da Igreja e da unidade na fé, da qual depende em importante medida a eficácia das ações evangelizadoras no mundo contemporâneo. Neste caminho, portanto, no qual avançaram os meus venerados predecessores, entendo prosseguir, unicamente preocupado em proclamar ao mundo inteiro a presença viva de Cristo".


AFP
AP
Aos 8 anos, em 1935, Ratzinger fez a primeira comunhão em Aschau am Inn, na Alemanha (acima). Aos 14, tornou-se membro da Juventude Hitlerista, o que era compulsório para estudantes. Aos 16 anos, ele fez parte da guarnição de uma unidade antiaérea em Munique (ao lado, em uniforme militar). Em 1945, desertou do Exército nazista

Está certo que, como várias das conclusões do Concílio Vaticano II são vagas, é possível dizer que se está seguindo o caminho previsto por aquela grande assembléia, cujo escopo era abrir as portas da Igreja à modernidade, ainda que se faça o contrário. Mas Ratzinger, na juventude um reformista empedernido, integrante do grupo apelidado de "Teenagers do Concílio", é de uma sinceridade e uma objetividade bem acima da média clerical, qualidades que sempre ficaram evidentes ao longo dos 23 anos em que permaneceu à frente da Congregação para a Doutrina da Fé. Se falou em colegialidade, não terá sido apenas para fazer média. Vaticanistas abalizados acreditam que ele talvez tenha constatado que é impossível governar bem uma multinacional gigante como a Igreja sem uma participação mais ativa dos gerentes de suas filiais pelo mundo – ou seja, os bispos. Longe de abrir mão da autoridade de Roma, e de resvalar no assembleísmo demagógico tão ao gosto dos padres de conveniência, como o brasileiro Frei Betto, Bento XVI poderá, sim, propor um sistema de colegialidade que diminua um pouco a influência e as responsabilidades do aparato burocrático encastelado no Vaticano, a Cúria – na qual, por enquanto, manteve os mesmos nomes do pontificado de João Paulo II. Entre eles, o cardeal Angelo Sodano, secretário de Estado e um de seus desafetos.

AFP
Em 1951, Ratzinger foi ordenado sacerdote com seu irmão mais velho e dois anos mais tarde concluiu doutorado em teologia na Universidade de Munique. Trabalhou no Concílio Vaticano II nos anos 60 e, em 1968, tomou posição contra os movimentos estudantis que abalaram a Europa


Teólogo brilhante, ainda mais poliglota do que João Paulo II (fala catorze línguas, o dobro do papa anterior) e dono de uma cultura literária e filosófica vastíssima (leu, inclusive, Karl Marx – e, claro, no original alemão), Bento XVI é autor de três dezenas de livros. Em todos, por meio de uma prosa cristalina e envolvente, capaz de dar prazer mesmo ao leitor que se lhe opõe, defende a validade da doutrina da Igreja e a necessidade de preservá-la intacta, também como referência e elemento constitutivo do Ocidente. Uma de suas conclusões é que a batalha em prol de um catolicismo mais puro na crença e mais integral na prática deve ser lutada, antes de mais nada, no berço em que, se não nasceu, cresceu: a Europa. Mesmo que isso signifique uma redução ainda maior no número de fiéis, seja no continente europeu, seja ao redor do planeta. Para usar outra vez a imagem da multinacional, Bento XVI acredita que é melhor ter uma sede mais enxuta e funcional – e não tantas filiais frágeis pelo mundo. Em linguagem mais direta, ele privilegia a qualidade dos fiéis, em lugar da quantidade. Há muitos anos, Ratzinger disse: "A Igreja diminuirá de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá extraído uma grande força do processo de simplificação que atravessou, da capacidade renovada de olhar para dentro de si. Porque os habitantes de um mundo rigorosamente planificado se sentirão indizivelmente sós. E descobrirão, então, a pequena comunidade de fiéis como algo completamente novo. Como uma esperança que lhes cabe, como uma resposta que sempre procuraram secretamente".

Ratzinger tem plano, tem projeto. Prova disso é o nome que tomou como papa. São Bento, patrono da Europa, foi alguém capaz de reanimar a fé cristã num momento em que ela experimentava a decadência. No discurso "A Europa na crise das culturas", feito um dia antes da morte de João Paulo II, Ratzinger referiu-se ao santo com enorme admiração: "Precisamos de homens como Bento da Norcia. Em um tempo de dissipação e decadência, ele mergulhou na solidão mais extrema e conseguiu, depois de todas as purificações pelas quais devia passar, voltar à luz". Bento XV, por sua vez, foi o papa que tentou evitar que o mundo se digladiasse na I Guerra – de onde é possível concluir também que o atual papa pretende ter um papel importante na pacificação dos conflitos em curso e de profilaxia para que outros não surjam. O primeiro, por sinal, é administrar um problema que ele próprio criou com a Turquia. Ratzinger declarou, quando era cardeal, que aquele país não deveria jamais entrar para a União Européia.

Na Cúria Romana, corre a historieta de que todos os papas, quando morrem, são convidados a ter um colóquio reservado com São Pedro, a respeito de teologia. Desse colóquio, eles invariavelmente saem em prantos, inconsoláveis pelo fato de que tenham errado tanto nessa matéria fundamental durante o pontificado. Mas quando Bento XVI morrer, completam os piadistas, quem sairá chorando dessa conversa sobre teologia será São Pedro. A rigidez doutrinária e moral do papa, somada à disposição que aparenta ter para remover a sujeira da Igreja, deverá causar lágrimas em gente que não é nada santa. Os padres pedófilos, os padres com mulher e filhos, os professores de seminários com os hormônios endiabrados, os padres moderninhos que defendem a teologia da liberação sexual – todo esse pessoal deverá ter a vida dificultada por Bento XVI.

Prevê-se, ainda, que o novo papa não terá a mesma sanha santificadora de João Paulo II. O diálogo inter-religioso é outra área em que Bento XVI deverá ser mais cuidadoso, apesar de dizer que continuará na mesma toada de seu antecessor. Adversário ferrenho da nivelação da fé católica às demais religiões, ele lutava contra os próprios instintos quando João Paulo II encasquetava de promover encontros com líderes de outras crenças. Nesse aspecto, reconheça-se, era um soldado. Em 1986, cardeais conservadores se escandalizaram com o fato de o papa reunir-se a protestantes, judeus, budistas, muçulmanos e representantes de mais uma dezena de religiões na Basílica de Assis para rezarem juntos. Para tais cardeais, isso soava como a equiparação do Deus católico a outros deuses, uma heresia (e, no caso dos budistas, que nem mesmo têm um Deus, uma heresia dupla). Ratzinger, então, saiu-se com uma fórmula sutil. Disse que João Paulo II e os representantes dessas religiões não estavam indo a Assis para rezar juntos. Estavam indo a Assis juntos para rezar. Ou seja, cada um iria orar para seu Deus ou algo que o valesse, e não para o mesmo Deus. Foi o bastante para acalmar os conservadores. Que ninguém subestime o cérebro que está por debaixo da mitra papal.

 
 
 
 
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