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Especial Continuar
para mudar Ao eleger papa o alemão Ratzinger,
chamado de "o cardeal panzer", a Igreja Católica optou pelo apego
à pureza doutrinária e à tradição como
estratégia para se impor a um mundo volátil e de frágeis
valores morais 
Mario Sabino, de Roma
Patrick Hertzog/AFP  |
| O papa Bento XVI em sua primeira aparição
para os fiéis: "Depois do grande papa João Paulo II, os senhores
cardeais me elegeram, um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor..."
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O papa panzer, o pastor alemão.
"Um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor." Num ponto qualquer entre
as alcunhas pejorativas que lhe foram aplicadas nos jornais e a maneira modesta
como se referiu a si próprio, depois do anúncio público de
que ele havia sido eleito o 265° pontífice da Igreja Católica,
encontra-se a verdade sobre o cardeal Joseph Ratzinger, agora papa Bento XVI.
Onde fica exatamente esse ponto que Deus perdoe os precipitados
só será possível verificar no decorrer do seu pontificado,
que não deverá ser tão longo quanto o anterior, visto que
o novo ocupante do Trono de Pedro conta com 78 anos. João Paulo II tinha
58 quando foi feito papa. Mas um fato é incontestável: em Roma,
Bento XVI já realizou o milagre de fazer com que João Paulo II se
tornasse uma página virada na história. O severo e reservado guardião
da doutrina vem se mostrando afabilíssimo nos seus contatos com a multidão
e parece ter tomado gosto em fazê-lo. Melhor que seja assim, porque
não há mais como evitar esses encontros desde que seu antecessor
escancarou o Vaticano para o mundo. Meio milhão de pessoas eram esperadas
para a primeira grande missa celebrada por Bento XVI, neste domingo.
A eleição de Ratzinger desfez uma convicção e um lugar-comum
com raízes na realidade. A convicção: a de que dificilmente
seria escolhido um pontífice proveniente de uma nação poderosa,
para evitar que houvesse uma coincidência entre o papado e uma potência
política e econômica. O lugar-comum: o de que quem entra papa num
conclave sai cardeal. Ratzinger entrou papa e saiu papa. Foi uma candidatura que
começou a chamar atenção na Páscoa, quanto ele substituiu
o combalido João Paulo II na tradicional via-crúcis em torno do
Coliseu, em Roma. Em sua homilia, Ratzinger surpreendeu ao falar da "sujeira dentro
da Igreja", no que se afigurou como o esboço de um programa de governo.
Nas exéquias de Wojtyla, voltaria a causar espanto, mas por outra razão
em sua fala, o duro cardeal alemão revelou-se um amigo emocionado
e grato. "O nosso papa, sabemos todos, jamais quis salvar a própria vida,
tê-la para si; quis dar-se sem reservas, até o último momento,
por Cristo e também por nós", disse Ratzinger. Sua candidatura desabrocharia
por inteiro na missa que antecedeu o conclave. Ali, na presença de todos
os cardeais eleitores e milhares de fiéis, ele atacou o que chamou de "ditadura
do relativismo" e defendeu que a Igreja mantivesse com rigor seus princípios
nos campos da moral e da ética. A homilia, que ficou conhecida como "o
manifesto de Ratzinger", foi interpretada como uma mensagem corajosa aos participantes
do conclave de que ele não abriria mão de sua linha para angariar
votos (veja reportagem).
Mesmo seus inimigos (e eles não são poucos) se impressionaram. Além
disso, seu desempenho nas congregações-gerais, as reuniões
de prelados que ocorrem durante a Sé Vacante para decidir sobre aspectos
administrativos do Vaticano, foi um exemplo de firmeza e equanimidade. "Muitos
viram que ali estava alguém capaz de governar a Igreja", disse um cardeal
a VEJA.
Arturo Mari/AFP  |
"Annuntio vobis gaudium
magnum; habemus Papam: Eminentissimum ac Reverendissimum Dominum, Dominum Josephum
Sanctae Romanae Ecclesiae Cardinalem Ratzinger qui sibi nomen imposuit Benedictum
XVI" "Anuncio-vos com a maior alegria, temos o papa: Eminentíssimo
e Reverendíssimo Senhor Joseph Ratzinger, cardeal da Santa Igreja Romana,
que atribuiu a si mesmo o nome de Bento XVI" | Ratzinger
era para ser apenas um candidato simbólico da ala de cardeais mais conservadora.
Uma vez verificado o tamanho desse campo ideológico, por meio do número
de sufrágios obtido, seria lançada uma segunda candidatura, mais
palatável a outras correntes e costurada por acordos e acomodações.
Essa é uma estratégia comum nas eleições para papa.
Mas Ratzinger, tanto pela sua atuação nas diversas ocasiões
que pontuaram o pré-conclave como por falta de adversários à
altura, não demoraria a passar de candidato simbólico a efetivo.
Foram suficientes apenas quatro votações para elegê-lo, o
que também desmentiu a tese de que a opção por Ratzinger
sairia de um conclave particularmente difícil. Na primeira, de um total
de 115 votos, ele obteve em torno de quarenta. Seu rival, o italiano Carlo Maria
Martini, candidato simbólico da ala reformista, conseguiu cerca de trinta.
Nos escrutínios seguintes, Ratzinger foi aumentando gradualmente seu cacife,
até chegar aos dois terços necessários para a eleição.
Alguns jornais italianos publicaram que, na primeira votação, Martini
superou o alemão e que, ao final, Ratzinger obteve uma vitória triunfal,
com perto de 100 sufrágios. Não é verdade. VEJA apurou que
Martini nunca esteve à frente de Ratzinger e que este, para ser eleito,
angariou pouco mais de 77 votos, os dois terços requeridos.
Domenico Stinellis/AP  |
| O papa é cercado por uma multidão ao sair
de seu antigo apartamento, em Roma: os cardeais fizeram a escolha em menos de
24 horas | Entre outras coisas,
os cardeais reformistas gostariam que a Igreja permitisse a ordenação
de mulheres e anseiam por um afrouxamento nas condenações aos métodos
contraceptivos, ao aborto e ao reconhecimento legal do casamento entre homossexuais
(o último país a fazê-lo foi a Espanha). Porque o Vaticano
é contra tudo isso que está aí, argumentam eles, o catolicismo
vem sangrando há vários anos, especialmente na Europa, onde o rebanho
diminui a cada ano. Como não conseguirão nada disso sob Bento XVI,
os reformistas tendem a crer que a Igreja permanecerá congelada durante
o seu pontificado. Que dominará um wojtylismo cinzento e, pior,
sem o carisma nem a criatividade de Wojtyla no campo do diálogo inter-religioso
e do ecumenismo. Dessa perspectiva, o catolicismo teria começado a viver
um inverno com uma duração, na mais branda hipótese, de quatro
a cinco anos, até que Bento XVI seja enterrado nas grutas vaticanas. Parece
improvável, no entanto, que o vaticínio se verifique por completo.
Logo em seu primeiro discurso aos cardeais, o novo papa abordou uma questão
muito cara aos reformistas e esconjurada pelos conservadores: a da colegialidade
no governo da Igreja, uma das deliberações do Concílio Vaticano
II que permanecem em aberto. E o fez de uma forma que não se esperava:
emitindo um sinal positivo. Disse Bento XVI: "Como Pedro e os outros apóstolos
constituíram por vontade do Senhor um único colégio apostólico,
do mesmo modo o sucessor de Pedro e os bispos, sucessores dos apóstolos
o Concílio reafirmou isso com força , devem estar estreitamente
unidos. Esta comunhão colegial, apesar da diversidade dos papéis
e das funções do pontífice romano e dos bispos, está
a serviço da Igreja e da unidade na fé, da qual depende em importante
medida a eficácia das ações evangelizadoras no mundo contemporâneo.
Neste caminho, portanto, no qual avançaram os meus venerados predecessores,
entendo prosseguir, unicamente preocupado em proclamar ao mundo inteiro a presença
viva de Cristo".
AFP  |
AP  | Aos
8 anos, em 1935, Ratzinger fez a primeira comunhão em Aschau am Inn, na
Alemanha (acima). Aos 14, tornou-se membro da Juventude Hitlerista, o que
era compulsório para estudantes. Aos 16 anos, ele fez parte da guarnição
de uma unidade antiaérea em Munique (ao lado, em uniforme militar).
Em 1945, desertou do Exército nazista | Está
certo que, como várias das conclusões do Concílio Vaticano
II são vagas, é possível dizer que se está seguindo
o caminho previsto por aquela grande assembléia, cujo escopo era abrir
as portas da Igreja à modernidade, ainda que se faça o contrário.
Mas Ratzinger, na juventude um reformista empedernido, integrante do grupo apelidado
de "Teenagers do Concílio", é de uma sinceridade e uma objetividade
bem acima da média clerical, qualidades que sempre ficaram evidentes ao
longo dos 23 anos em que permaneceu à frente da Congregação
para a Doutrina da Fé. Se falou em colegialidade, não terá
sido apenas para fazer média. Vaticanistas abalizados acreditam que ele
talvez tenha constatado que é impossível governar bem uma multinacional
gigante como a Igreja sem uma participação mais ativa dos gerentes
de suas filiais pelo mundo ou seja, os bispos. Longe de abrir mão
da autoridade de Roma, e de resvalar no assembleísmo demagógico
tão ao gosto dos padres de conveniência, como o brasileiro Frei Betto,
Bento XVI poderá, sim, propor um sistema de colegialidade que diminua um
pouco a influência e as responsabilidades do aparato burocrático
encastelado no Vaticano, a Cúria na qual, por enquanto, manteve
os mesmos nomes do pontificado de João Paulo II. Entre eles, o cardeal
Angelo Sodano, secretário de Estado e um de seus desafetos.
AFP  |
| Em 1951, Ratzinger foi ordenado sacerdote com seu irmão
mais velho e dois anos mais tarde concluiu doutorado em teologia na Universidade
de Munique. Trabalhou no Concílio Vaticano II nos anos 60 e, em 1968, tomou
posição contra os movimentos estudantis que abalaram a Europa |
Teólogo brilhante, ainda
mais poliglota do que João Paulo II (fala catorze línguas, o dobro
do papa anterior) e dono de uma cultura literária e filosófica vastíssima
(leu, inclusive, Karl Marx e, claro, no original alemão), Bento
XVI é autor de três dezenas de livros. Em todos, por meio de uma
prosa cristalina e envolvente, capaz de dar prazer mesmo ao leitor que se lhe
opõe, defende a validade da doutrina da Igreja e a necessidade de preservá-la
intacta, também como referência e elemento constitutivo do Ocidente.
Uma de suas conclusões é que a batalha em prol de um catolicismo
mais puro na crença e mais integral na prática deve ser lutada,
antes de mais nada, no berço em que, se não nasceu, cresceu: a Europa.
Mesmo que isso signifique uma redução ainda maior no número
de fiéis, seja no continente europeu, seja ao redor do planeta. Para usar
outra vez a imagem da multinacional, Bento XVI acredita que é melhor ter
uma sede mais enxuta e funcional e não tantas filiais frágeis
pelo mundo. Em linguagem mais direta, ele privilegia a qualidade dos fiéis,
em lugar da quantidade. Há muitos anos, Ratzinger disse: "A Igreja diminuirá
de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá
extraído uma grande força do processo de simplificação
que atravessou, da capacidade renovada de olhar para dentro de si. Porque os habitantes
de um mundo rigorosamente planificado se sentirão indizivelmente sós.
E descobrirão, então, a pequena comunidade de fiéis como
algo completamente novo. Como uma esperança que lhes cabe, como uma resposta
que sempre procuraram secretamente".
Ratzinger tem plano, tem projeto. Prova disso é o nome que tomou como papa.
São Bento, patrono da Europa, foi alguém capaz de reanimar a fé
cristã num momento em que ela experimentava a decadência. No discurso
"A Europa na crise das culturas", feito um dia antes da morte de João Paulo
II, Ratzinger referiu-se ao santo com enorme admiração: "Precisamos
de homens como Bento da Norcia. Em um tempo de dissipação e decadência,
ele mergulhou na solidão mais extrema e conseguiu, depois de todas as purificações
pelas quais devia passar, voltar à luz". Bento XV, por sua vez, foi o papa
que tentou evitar que o mundo se digladiasse na I Guerra de onde é
possível concluir também que o atual papa pretende ter um papel
importante na pacificação dos conflitos em curso e de profilaxia
para que outros não surjam. O primeiro, por sinal, é administrar
um problema que ele próprio criou com a Turquia. Ratzinger declarou, quando
era cardeal, que aquele país não deveria jamais entrar para a União
Européia. Na Cúria
Romana, corre a historieta de que todos os papas, quando morrem, são convidados
a ter um colóquio reservado com São Pedro, a respeito de teologia.
Desse colóquio, eles invariavelmente saem em prantos, inconsoláveis
pelo fato de que tenham errado tanto nessa matéria fundamental durante
o pontificado. Mas quando Bento XVI morrer, completam os piadistas, quem sairá
chorando dessa conversa sobre teologia será São Pedro. A rigidez
doutrinária e moral do papa, somada à disposição que
aparenta ter para remover a sujeira da Igreja, deverá causar lágrimas
em gente que não é nada santa. Os padres pedófilos, os padres
com mulher e filhos, os professores de seminários com os hormônios
endiabrados, os padres moderninhos que defendem a teologia da liberação
sexual todo esse pessoal deverá ter a vida dificultada por Bento
XVI. Prevê-se, ainda, que o
novo papa não terá a mesma sanha santificadora de João Paulo
II. O diálogo inter-religioso é outra área em que Bento XVI
deverá ser mais cuidadoso, apesar de dizer que continuará na mesma
toada de seu antecessor. Adversário ferrenho da nivelação
da fé católica às demais religiões, ele lutava contra
os próprios instintos quando João Paulo II encasquetava de promover
encontros com líderes de outras crenças. Nesse aspecto, reconheça-se,
era um soldado. Em 1986, cardeais conservadores se escandalizaram com o fato de
o papa reunir-se a protestantes, judeus, budistas, muçulmanos e representantes
de mais uma dezena de religiões na Basílica de Assis para rezarem
juntos. Para tais cardeais, isso soava como a equiparação do Deus
católico a outros deuses, uma heresia (e, no caso dos budistas, que nem
mesmo têm um Deus, uma heresia dupla). Ratzinger, então, saiu-se
com uma fórmula sutil. Disse que João Paulo II e os representantes
dessas religiões não estavam indo a Assis para rezar juntos. Estavam
indo a Assis juntos para rezar. Ou seja, cada um iria orar para seu Deus ou algo
que o valesse, e não para o mesmo Deus. Foi o bastante para acalmar os
conservadores. Que ninguém subestime o cérebro que está por
debaixo da mitra papal. |