Edição 1902 . 27 de abril de 2005

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Valdomiro, Jucá, Meirelles. Lula tem que aprender: não se pode tapar o sol sem a peneira.

Leio muitos livros, como todo mundo (?). Não pela cultura. Nem pensar. Porque acho um barato. E não vou fazer a defesa do livro, como fazem todos os que se sentem acuados pelas modernidades eletrônicas. Neguinho tem que explicar que não é da antiga. Com isso demonstrando que é. Mundo neurótico esse de vocês. Por exemplo, o sujeito não quer ser politicamente correto, ou porque não gosta que balancem seu antigo coreto ou porque acha mesmo incorreto ser politicamente correto. Mas tem que dar explicações. Antes de contar piada racista, "prefacia" a fala dizendo que tem muitos amigos judeus e que, parodiando Billy Blanco, até carrega embrulho e dá a mão a preto. É muito difícil viver nesse mundo de vocês, tendo que tomar cuidado com cada palavra, sílaba ou vírgula enunciada.

Mas eu estava falando de livro e passei a falar de politicamente correto e medo de não sê-lo. Pulei. Mas alguma lei me impede de pular de assunto? Claro que sim, Millôr. Quando você escreve é diferente de falar, uma idéia tem que vir certinha atrás da outra, tem que ver com a anterior e prever a posterior. Concatenação, companheiro. O que não é necessário quando se fala. Como Lula demonstra.

Bom, quando o cara fala de livro, tem que dizer que sabe exatamente onde é que está o livro na cultura atual. Sem esquecer que hoje até amendoim torrado é cultura. Tem que saber que o livro tradicional é ameaçado por e-books e que livro não faz parte da cultura de massa, mesmo quando trata do fabrico de pão ou do preparo de fettuccine.

Vamos ler juntos um best-seller. Vem comigo:

 

Código da Vinci.

Livro escrito por um adolescente autista a quem deram um computador da última geração.

O rapazola-autor fez uma salada, misturou madona com prima-dona e Genaro Hermano com gênero humano, inventou um mistério cercado por um enigma envolvido no côndito e no recôndito e transformou a ininteligibilidade numa atração para papalvos, embora ele próprio, autor, não consiga distinguir anagrama, uma bobagem, de palíndromo, uma obra de arte, como sabem os que conhecem A man, a plan, a canal – Panama.

Detalhe extraordinário – o Código é o único livro completamente assexuado escrito no século XXI. As relações do professor de simbologia (!) de Harvard com a supercriptógrafa francesa (ele bonitão, ela gostosona) lembram muito as aventuras de Flash Gordon e Dale Arden, no segundo quarto e sala do século XX. Nos quadrinhos ninguém comia ninguém, pelo menos do sexo oposto. Daí a proliferação de relações estranhas (não usuais seria politicamente correto), como Batman e Robin, Mandrake e Lothar, Zorro e Tonto, inspiradas todas na amizade descolorida de Sherlock e Watson.

É bem verdade que Dan Brown, o famigerado (gerado pela fama ou pela fome) autor, faz a heroína do livro assistir, escondida, a uma suruba do avô. Mas a suruba é muito metafísica, muito devagar, na verdade um rito sexual, menos erótico até do que um chá da Academia Brasileira de Letras.

Logo, em elucubrações político/religiosas, o autor conta, como espantosa descoberta, a velha anedota: quem está ao lado de Cristo, na Santa Ceia, é Maria Madalena. Mas, já que narra isso como coisa séria, por que não nos diz quem, dos doze apóstolos, cedeu o lugar pra ela? E, tão íntima dos apóstolos a ponto de participar desse Baile da Ilha Fiscal do cristianismo, por que Madalena nunca apareceu com os apóstolos em outras reuniões mundanas? Só posou na Ceia, pro Da Vinci?

Mas o autor é mesmo muito inocente em matéria de sexo. Diz, textualmente: "No Boá de Bolonhe, corpos chamativos à venda – do sexo masculino, do feminino e tudo o mais que houvesse entre os dois extremos". Eu gostaria muito de conhecer os sexos do meio.

De tradução, como sou tradutor juramentado – jurei que não falava – e disso não falo. Mas, como já reclamei mil vezes, reclamo ainda: Eyes wide shut. Leiam e traduzam. Depois eu traduzo direito (que pretensão, Millôr!).

Vamos ver: a frase é o título do último filme de Kubrick. Kubrick era um gênio. Com intenção evidente fez um oximoro (Houaiss, por favor!) – frase em que as palavras se contradizem (Houaiss, não precisamos mais!). A tradução, De olhos bem fechados, já vista em todas as telas, "corrige" Kubrick. Escreve o contrário do que ele pretendia. Dou de graça um título aproximativo: Olhos escancaradamente fechados.

E termino, antes que termine o espaço. Um merchandaisingue nunca visto – escritores "refutando" as afirmações históricas (ou são mercenários ou tiram partido da onda) de Dan Brown, agências de turismo levando levas (aliteração reiterativa) de turistas pra ver a Pirâmide do Louvre não como a obra audaciosa e inovadora que é, mas como personagem principal do livro. O merchandaisingue arranjou até cardeal contra o livro, o que só faz incrementar em milhões a venda do mesmo e, paralelamente, a de ex-votos sacros, carreando mais alguns trocados pro Banco Ambrosiano.

Falar nisso, o bispo Marcinkus (que nasceu em Cícero, Chicago, cidade-lar de Al Capone), ex-presidente do tal banco, condenado pela Justiça italiana, já escapou do Vaticano?

Em tempo: Nunca se falou tanto do Vaticano, o menor estado do mundo, com apenas 0,4 quilômetro quadrado. Pra vocês terem uma idéia, exatamente do tamanho do Jardim de Alá, praça aqui da Zona Sul do Rio, onde qualquer um pode me encontrar às 7 em ponto da manhã, em qualquer dia do calendário gregoriano. Pra conferir.

 
 
 
 
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