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 | Valdomiro,
Jucá, Meirelles. Lula tem que aprender: não se pode tapar o sol
sem a peneira. |
Leio muitos livros, como
todo mundo (?). Não pela cultura. Nem pensar. Porque acho um barato.
E não vou fazer a defesa do livro, como fazem todos os que se sentem acuados
pelas modernidades eletrônicas. Neguinho tem que explicar que não
é da antiga. Com isso demonstrando que é. Mundo neurótico
esse de vocês. Por exemplo, o sujeito não quer ser politicamente
correto, ou porque não gosta que balancem seu antigo coreto ou porque acha
mesmo incorreto ser politicamente correto. Mas tem que dar explicações.
Antes de contar piada racista, "prefacia" a fala dizendo que tem muitos amigos
judeus e que, parodiando Billy Blanco, até carrega embrulho e dá
a mão a preto. É muito difícil viver nesse mundo de vocês,
tendo que tomar cuidado com cada palavra, sílaba ou vírgula enunciada.
Mas eu estava falando de livro e passei a falar
de politicamente correto e medo de não sê-lo. Pulei. Mas alguma
lei me impede de pular de assunto? Claro que sim, Millôr. Quando você
escreve é diferente de falar, uma idéia tem que vir certinha atrás
da outra, tem que ver com a anterior e prever a posterior. Concatenação,
companheiro. O que não é necessário quando se fala. Como
Lula demonstra. Bom, quando o cara fala de livro,
tem que dizer que sabe exatamente onde é que está o livro na cultura
atual. Sem esquecer que hoje até amendoim torrado é cultura. Tem
que saber que o livro tradicional é ameaçado por e-books
e que livro não faz parte da cultura de massa, mesmo quando trata do fabrico
de pão ou do preparo de fettuccine.
Vamos ler juntos um best-seller. Vem comigo: Código
da Vinci. Livro escrito por um adolescente autista
a quem deram um computador da última geração.
O rapazola-autor fez uma salada, misturou madona com prima-dona e Genaro Hermano
com gênero humano, inventou um mistério cercado por um enigma envolvido
no côndito e no recôndito e transformou a ininteligibilidade numa
atração para papalvos, embora ele próprio, autor, não
consiga distinguir anagrama, uma bobagem, de palíndromo, uma obra de arte,
como sabem os que conhecem A man, a plan, a canal Panama.
Detalhe extraordinário o Código é o único
livro completamente assexuado escrito no século XXI. As relações
do professor de simbologia (!) de Harvard com a supercriptógrafa francesa
(ele bonitão, ela gostosona) lembram muito as aventuras de Flash Gordon
e Dale Arden, no segundo quarto e sala do século XX. Nos quadrinhos ninguém
comia ninguém, pelo menos do sexo oposto. Daí a proliferação
de relações estranhas (não usuais seria politicamente
correto), como Batman e Robin, Mandrake e Lothar, Zorro e Tonto, inspiradas todas
na amizade descolorida de Sherlock e Watson. É
bem verdade que Dan Brown, o famigerado (gerado pela fama ou pela fome) autor,
faz a heroína do livro assistir, escondida, a uma suruba do avô.
Mas a suruba é muito metafísica, muito devagar, na verdade um rito
sexual, menos erótico até do que um chá da Academia Brasileira
de Letras. Logo, em elucubrações
político/religiosas, o autor conta, como espantosa descoberta, a velha
anedota: quem está ao lado de Cristo, na Santa Ceia, é Maria Madalena.
Mas, já que narra isso como coisa séria, por que não nos
diz quem, dos doze apóstolos, cedeu o lugar pra ela? E, tão íntima
dos apóstolos a ponto de participar desse Baile da Ilha Fiscal do cristianismo,
por que Madalena nunca apareceu com os apóstolos em outras reuniões
mundanas? Só posou na Ceia, pro Da Vinci?
Mas o autor é mesmo muito inocente em matéria de sexo. Diz, textualmente:
"No Boá de Bolonhe, corpos chamativos à venda do sexo masculino,
do feminino e tudo o mais que houvesse entre os dois extremos". Eu gostaria muito
de conhecer os sexos do meio. De tradução,
como sou tradutor juramentado jurei que não falava e disso
não falo. Mas, como já reclamei mil vezes, reclamo ainda: Eyes
wide shut. Leiam e traduzam. Depois eu traduzo direito (que pretensão,
Millôr!). Vamos ver: a frase é o título
do último filme de Kubrick. Kubrick era um gênio. Com intenção
evidente fez um oximoro (Houaiss, por favor!) frase em que as palavras
se contradizem (Houaiss, não precisamos mais!). A tradução,
De olhos bem fechados, já vista em todas as telas, "corrige"
Kubrick. Escreve o contrário do que ele pretendia. Dou de graça
um título aproximativo: Olhos escancaradamente fechados.
E termino, antes que termine o espaço. Um
merchandaisingue nunca visto escritores "refutando" as afirmações
históricas (ou são mercenários ou tiram partido da onda)
de Dan Brown, agências de turismo levando levas (aliteração
reiterativa) de turistas pra ver a Pirâmide do Louvre não como a
obra audaciosa e inovadora que é, mas como personagem principal do livro.
O merchandaisingue arranjou até cardeal contra o livro, o que só
faz incrementar em milhões a venda do mesmo e, paralelamente, a de ex-votos
sacros, carreando mais alguns trocados pro Banco Ambrosiano.
Falar nisso, o bispo Marcinkus (que nasceu em Cícero, Chicago, cidade-lar
de Al Capone), ex-presidente do tal banco, condenado pela Justiça italiana,
já escapou do Vaticano? Em tempo: Nunca
se falou tanto do Vaticano, o menor estado do mundo, com apenas 0,4 quilômetro
quadrado. Pra vocês terem uma idéia, exatamente do tamanho do Jardim
de Alá, praça aqui da Zona Sul do Rio, onde qualquer um pode me
encontrar às 7 em ponto da manhã, em qualquer dia do calendário
gregoriano. Pra conferir. |