Edição 1902 . 27 de abril de 2005

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Diogo Mainardi
A revolução geriátrica

"A fé verdadeira, segundo Joseph Ratzinger,
exige maturidade. É para adultos.
É para
gente grande. Não para a rapaziada, que
sofre de 'fraqueza mental'"

O melhor de todos foi eleito – Joseph Ratzinger. Sua maior qualidade é o profundo menosprezo que ele tem pelos jovens. Um bom exemplo do menosprezo ratzingeriano foi dado na homilia que antecedeu a eleição papal, na última terça-feira, quando ele ridicularizou a ala reformista da Igreja Católica comparando-a a um menor de idade. A fé verdadeira, segundo Ratzinger, exige maturidade. É para adultos. É para gente grande. Não para a rapaziada, que sofre de "fraqueza mental", sendo permanentemente "jogada pelas ondas e atirada de um lado para o outro por qualquer vento de doutrina".

Ratzinger tem razão. A grande ameaça à civilização ocidental é a infantilização da sociedade moderna. Na homilia da última terça-feira, ele afirmou que a Igreja Católica pode oferecer uma única resposta contra a barbárie infantilizadora: o fundamentalismo religioso. O papado de Ratzinger não tentará estabelecer um diálogo com a modernidade. Não aceitará o debate sobre o divórcio, a contracepção, o aborto, a eutanásia. Não mudará os dogmas da Igreja para adaptá-la à realidade dos dias de hoje. Pelo contrário. Ratzinger defende a atemporalidade da fé. Leonardo Boff declarou que, a partir de agora, "a Igreja terá mais dificuldade para ser reconhecida, especialmente pelos jovens". É verdade. A questão é que Ratzinger está se lixando para o reconhecimento dos jovens. Aliás, está se lixando também para o reconhecimento de Leonardo Boff. Ratzinger prefere assistir ao esvaziamento da Igreja a ceder ao catolicismo auto-indulgente praticado por aí. Sua mensagem é clara, e pode ser facilmente compreendida por qualquer menor de idade imbecilizado: o papa não irá correr atrás dos fiéis. Os fiéis é que deverão correr atrás dele, se não quiserem arder no fogo do inferno.

O menosprezo de Ratzinger pelos jovens é antigo. Seus biógrafos atestam que, no Concílio Vaticano II, ele era considerado um teólogo reformista, mas mudou de idéia depois de testemunhar o vandalismo dos estudantes em 1968. Duas décadas mais tarde, ele promoveu uma célebre cruzada contra a música "rock", por seu poder de "abater as barreiras da personalidade, e livrar o homem do peso da consciência". Nesse aspecto, Ratzinger é o exato oposto de João Paulo II. Para atrair os jovens, João Paulo II se cercou de estrelas da música popular e transformou as missas campais em grandes espetáculos profanos. Ratzinger não fará nada disso. Para ele, "a liturgia não é um espetáculo, não vive de surpresas simpáticas, cativantes, e sim de repetições solenes". Numa sociedade cuja maior preocupação é entreter e seduzir os jovens, Ratzinger tem a ousadia de lhes oferecer apenas seu menosprezo e seu sentimento de superioridade. A meninada é conformista, acomodada, titubeante. A revolução geriátrica de Ratzinger pretende enfrentá-la com o rigor intelectual, a insubmissão e o absolutismo.

Dá até uma certa pena de não ser católico.

 
 
 
 
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