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Diogo
Mainardi
A revolução geriátrica
"A fé verdadeira, segundo Joseph
Ratzinger,
exige maturidade. É para adultos. É
para
gente grande. Não para a rapaziada, que
sofre de 'fraqueza mental'"
O melhor de todos foi eleito Joseph
Ratzinger. Sua maior qualidade é o profundo menosprezo que
ele tem pelos jovens. Um bom exemplo do menosprezo ratzingeriano
foi dado na homilia que antecedeu a eleição papal,
na última terça-feira, quando ele ridicularizou a
ala reformista da Igreja Católica comparando-a a um menor
de idade. A fé verdadeira, segundo Ratzinger, exige maturidade.
É para adultos. É para gente grande. Não para
a rapaziada, que sofre de "fraqueza mental", sendo permanentemente
"jogada pelas ondas e atirada de um lado para o outro por qualquer
vento de doutrina".
Ratzinger tem razão. A grande ameaça
à civilização ocidental é a infantilização
da sociedade moderna. Na homilia da última terça-feira,
ele afirmou que a Igreja Católica pode oferecer uma única
resposta contra a barbárie infantilizadora: o fundamentalismo
religioso. O papado de Ratzinger não tentará estabelecer
um diálogo com a modernidade. Não aceitará
o debate sobre o divórcio, a contracepção,
o aborto, a eutanásia. Não mudará os dogmas
da Igreja para adaptá-la à realidade dos dias de hoje.
Pelo contrário. Ratzinger defende a atemporalidade da fé.
Leonardo Boff declarou que, a partir de agora, "a Igreja terá
mais dificuldade para ser reconhecida, especialmente pelos jovens".
É verdade. A questão é que Ratzinger está
se lixando para o reconhecimento dos jovens. Aliás, está
se lixando também para o reconhecimento de Leonardo Boff.
Ratzinger prefere assistir ao esvaziamento da Igreja a ceder ao
catolicismo auto-indulgente praticado por aí. Sua mensagem
é clara, e pode ser facilmente compreendida por qualquer
menor de idade imbecilizado: o papa não irá correr
atrás dos fiéis. Os fiéis é que deverão
correr atrás dele, se não quiserem arder no fogo do
inferno.
O menosprezo de Ratzinger pelos jovens é
antigo. Seus biógrafos atestam que, no Concílio Vaticano
II, ele era considerado um teólogo reformista, mas mudou
de idéia depois de testemunhar o vandalismo dos estudantes
em 1968. Duas décadas mais tarde, ele promoveu uma célebre
cruzada contra a música "rock", por seu poder de "abater
as barreiras da personalidade, e livrar o homem do peso da consciência".
Nesse aspecto, Ratzinger é o exato oposto de João
Paulo II. Para atrair os jovens, João Paulo II se cercou
de estrelas da música popular e transformou as missas campais
em grandes espetáculos profanos. Ratzinger não fará
nada disso. Para ele, "a liturgia não é um espetáculo,
não vive de surpresas simpáticas, cativantes, e sim
de repetições solenes". Numa sociedade cuja maior
preocupação é entreter e seduzir os jovens,
Ratzinger tem a ousadia de lhes oferecer apenas seu menosprezo e
seu sentimento de superioridade. A meninada é conformista,
acomodada, titubeante. A revolução geriátrica
de Ratzinger pretende enfrentá-la com o rigor intelectual,
a insubmissão e o absolutismo.
Dá até uma certa pena de não
ser católico.
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