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André
Petry Isso é que é racismo
"É
como dizer que os deuses dos negros não merecem tantas
regalias. É como dizer que são deuses de
segunda classe. É como dizer que os nossos bichos, os bichinhos dos
brancos, ora essa, não podem ser mortos só para que deuses de
negros, ora essa, sintam-se reverenciados"
Desde que o argentino foi preso num campo de futebol sob a
acusação de racismo, ficou claro que entramos numa distraída
temporada de combate à discriminação racial. É uma
campanhazinha distraída porque, no entusiasmo da denúncia, no gozo
do espetáculo, no embalo dessa nossa americanização do racismo,
estamos enxergando racismo demais onde ele é escasso e, o que é
pior, enxergando quase racismo nenhum onde ele é farto. O prêmio
de racista do mês, por exemplo, não deve ir para jogadores de futebol
da Argentina. Deve ir para aqueles brasileiros que dizem pertencer às sociedades
protetoras dos animais. Eis o caso: os defensores
dos animais tentaram derrubar um artigo de uma lei gaúcha que autoriza
o sacrifício de animais nos cultos de religiões de origem africana
cujos adeptos, ninguém desconhece, são na maioria negros.
Os defensores dos animais acham que imolar bichos numa cerimônia religiosa
é crueldade e que a lei de proteção aos animais, portanto,
não pode permitir tal selvageria. O racismo aqui é sutil, mas é
imensamente nefasto: o que os pró-bichos estavam tentando, na prática,
era impedir que os negros exercessem na plenitude a sua cultura aliás,
uma cultura bela, rica, colorida e intensa, à qual os brasileiros devem
talvez mais do que costumam perceber. Nas religiões
de matriz africana, sacrifica-se um animal para oferecê-lo às divindades.
Impedir que tal prática seja exercida, além de constituir um agudo
desrespeito à cultura do outro, é mais ou menos como dizer que os
deuses dos negros não merecem tantas regalias. É como dizer que
são deuses de segunda classe. É como dizer que os nossos bichos,
os bichinhos dos brancos, ora essa, não podem ser mortos só para
que deuses de negros, ora essa, se sintam devidamente reverenciados. Até
porque deus que preste, ora essa, não exige que seus fiéis saiam
por aí matando bichos... Como racismo no
Brasil é sempre coisa do vizinho (argentino ou não), os defensores
dos animais que lutam contra o rito das religiões africanas vão
jurar de pés juntos que não são racistas, que jamais quiseram
dizer que o deus dos negros não é tão bom quanto o deus dos
brancos, que existem até negros entre eles e que queriam apenas evitar
atrocidades contra os animais. Pode ser verdade, mas não basta. Se for
isso mesmo, se o que os move é tão-somente a defesa dos animais,
onde estão então os protestos diante dos abatedouros de bois, porcos
e aves? Onde estão os protestos contra a condição do Brasil
de maior exportador mundial de carne bovina e de frango? Dias atrás, o
governo da Rússia anunciou que vai voltar a permitir a importação
de carnes bovina, suína e de frango de regiões do Brasil onde havia
suspeita de alguma doença. Foi uma excelente notícia para a economia
brasileira e não se ouviu o protesto dos defensores dos bois, porcos
e galinhas. Em tempo: por sorte, o Tribunal de
Justiça do Rio Grande do Sul decidiu, embora por maioria apertada, apenas
14 votos contra 10, que a lei vale. Ou seja: o racismo saiu derrotado. Mas cuidado:
ainda 'stamos em pleno mar. |