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Edição 1 744 - 27 de março de 2002
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Claudio de Moura Castro

Movimento dos
Sem-Luz

"O que hoteleiros e seus arquitetos fazem
para impedir ao máximo a perigosa
prática
da
leitura em suas instalações"



 Ilustração Ale Setti


Faz alguns anos, vazou a notícia de um encontro secreto de alguns proprietários de hotel. Segundo informantes anônimos (por medo de represálias), nessa reunião foram traçadas as grandes linhas de um plano cujo sinistro objeto era contribuir para manter nas trevas da ignorância nossa classe média e as elites. Estariam financiando o plano certos setores retrógrados das velhas oligarquias. Mas há controvérsias nesse particular, pois se suspeita também de elementos de extrema esquerda (linha albanesa) interessados em desestabilizar o país pela fragilização de suas elites.

Por trás de tudo estaria o temor de que a leitura traz o conhecimento e a ilustração, rompendo o status quo e ameaçando privilégios. A leitura seria uma atividade extraordinariamente subversiva, sobretudo quando praticada por camadas sociais com protagonismo político.

Daí que o papel crítico dos hoteleiros e seus arquitetos seria impedir ao máximo essa perigosa prática em suas instalações, dando assim sua contribuição para tão tenebrosa causa. E a maneira de fazê-lo seria pela discreta mas premeditada disposição das lâmpadas nos quartos e áreas comuns, de maneira a tornar virtualmente impossível a leitura.

Um informante conseguiu um exemplar das normas confidenciais da Associação Brasileira de Normas Técnicas de Iluminação em Hotelaria (ABNTIH). Do artigo 3º, inciso 9, reproduzimos o seguinte trecho: "As lâmpadas não devem ultrapassar 40 watts e sua colocação jamais será próxima de locais onde os incautos hóspedes possam sentar-se. Perto de mesas que convidem à leitura, não haverá lâmpadas".

De acordo com as mesmas fontes, há especificações técnicas precisas no que tange a lâmpadas junto das camas (artigo 7º, inciso 3): "Estas não poderão, em hipótese alguma, projetar seu facho sobre o material de leitura de um hóspede sentado na cama. Devem estar distantes da cama, aparafusadas à parede e recobertas por um abajur opaco... As luminárias de mesa-de-cabeceira serão obrigatoriamente baixas e seu facho só poderá iluminar o assoalho próximo, jamais a cama. Os hóspedes mais teimosamente dedicados ao nefando hábito da leitura terão torcicolos tenebrosos se tentarem ler com o livro na mesa-de-cabeceira". Note-se que ajoelhado junto à mesa-de-cabeceira é possível ler, mas, como essa posição não é mais praticada, não houve cuidado em impedir que isso aconteça. Ler em pé, em frente da pia, não chega a ser uma ameaça, portanto correm-se riscos pequenos ao iluminar o espelho. Mas, próximo a "outros equipamentos do banheiro, está terminantemente vedado o uso de lâmpadas fortes".

Conforme fonte não identificada, os fabricantes de xampu haviam aderido ao plano, com o objetivo de dar uma lição contundente às pessoas cuja idade já requer o uso de óculos de leitura (devido à presbiopia). Após entrarem no chuveiro, elas descobrem que a letra usada para identificar o xampu, os sais de banho, o condicionador e o hidratante é tão pequena que requer o uso dos óculos que estão na mesa de entrada. Trata-se de ato vil, discriminando a terceira idade e ferindo a Constituição.

Diante de tão insidiosas ameaças, foi criado o Movimento dos Sem-Luz (MSL), com o objetivo explícito de autodefesa. No website www.guerrilhaMSL.com.br há instruções de como se defender do complô tão ardilosamente urdido pelos hoteleiros. Por exemplo, na página 14, sugere-se levar uma lâmpada de 100 watts na mala. A página 45 propõe o uso de lâmpadas portáteis a pilha (vendidas no próprio site). Arrastar os móveis é às vezes uma solução. Em alguns poucos casos, a banheira é uma possibilidade. Mas todo o cuidado é pouco para não deixar traços que possam incriminar o hóspede e criar a suspeita de que ele pratica uma atividade subversiva.

Esta coluna conclama todos os brasileiros ávidos por sair das trevas da ignorância a apoiar o Movimento dos Sem-Luz, pois estamos diante de um inimigo satânico e com aparelhos instalados em todo o território nacional. Leitores do Brasil, uni-vos pelo direito de ler!

 

Claudio de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)


 
 
   
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