Claudio
de Moura Castro
Movimento dos
Sem-Luz
"O
que hoteleiros e
seus arquitetos fazem
para impedir ao máximo a perigosa prática
da leitura em suas instalações"
Ilustração Ale Setti
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Faz alguns anos, vazou a notícia de um encontro secreto de alguns
proprietários de hotel. Segundo informantes anônimos (por
medo de represálias), nessa reunião foram traçadas
as grandes linhas de um plano cujo sinistro objeto era contribuir para
manter nas trevas da ignorância nossa classe média e as elites.
Estariam financiando o plano certos setores retrógrados das velhas
oligarquias. Mas há controvérsias nesse particular, pois
se suspeita também de elementos de extrema esquerda (linha albanesa)
interessados em desestabilizar o país pela fragilização
de suas elites.
Por trás
de tudo estaria o temor de que a leitura traz o conhecimento e a ilustração,
rompendo o status quo e ameaçando privilégios. A leitura
seria uma atividade extraordinariamente subversiva, sobretudo quando praticada
por camadas sociais com protagonismo político.
Daí
que o papel crítico dos hoteleiros e seus arquitetos seria impedir
ao máximo essa perigosa prática em suas instalações,
dando assim sua contribuição para tão tenebrosa causa.
E a maneira de fazê-lo seria pela discreta mas premeditada disposição
das lâmpadas nos quartos e áreas comuns, de maneira a tornar
virtualmente impossível a leitura.
Um informante
conseguiu um exemplar das normas confidenciais da Associação
Brasileira de Normas Técnicas de Iluminação em Hotelaria
(ABNTIH). Do artigo 3º, inciso 9, reproduzimos o seguinte trecho:
"As lâmpadas não devem ultrapassar 40 watts e sua colocação
jamais será próxima de locais onde os incautos hóspedes
possam sentar-se. Perto de mesas que convidem à leitura, não
haverá lâmpadas".
De acordo
com as mesmas fontes, há especificações técnicas
precisas no que tange a lâmpadas junto das camas (artigo 7º,
inciso 3): "Estas não poderão, em hipótese alguma,
projetar seu facho sobre o material de leitura de um hóspede sentado
na cama. Devem estar distantes da cama, aparafusadas à parede e
recobertas por um abajur opaco... As luminárias de mesa-de-cabeceira
serão obrigatoriamente baixas e seu facho só poderá
iluminar o assoalho próximo, jamais a cama. Os hóspedes
mais teimosamente dedicados ao nefando hábito da leitura terão
torcicolos tenebrosos se tentarem ler com o livro na mesa-de-cabeceira".
Note-se que ajoelhado junto à mesa-de-cabeceira é possível
ler, mas, como essa posição não é mais praticada,
não houve cuidado em impedir que isso aconteça. Ler em pé,
em frente da pia, não chega a ser uma ameaça, portanto correm-se
riscos pequenos ao iluminar o espelho. Mas, próximo a "outros equipamentos
do banheiro, está terminantemente vedado o uso de lâmpadas
fortes".
Conforme
fonte não identificada, os fabricantes de xampu haviam aderido
ao plano, com o objetivo de dar uma lição contundente às
pessoas cuja idade já requer o uso de óculos de leitura
(devido à presbiopia). Após entrarem no chuveiro, elas descobrem
que a letra usada para identificar o xampu, os sais de banho, o condicionador
e o hidratante é tão pequena que requer o uso dos óculos
que estão na mesa de entrada. Trata-se de ato vil, discriminando
a terceira idade e ferindo a Constituição.
Diante de
tão insidiosas ameaças, foi criado o Movimento dos Sem-Luz
(MSL), com o objetivo explícito de autodefesa. No website www.guerrilhaMSL.com.br
há instruções de como se defender do complô
tão ardilosamente urdido pelos hoteleiros. Por exemplo, na página
14, sugere-se levar uma lâmpada de 100 watts na mala. A página
45 propõe o uso de lâmpadas portáteis a pilha (vendidas
no próprio site). Arrastar os móveis é às
vezes uma solução. Em alguns poucos casos, a banheira é
uma possibilidade. Mas todo o cuidado é pouco para não deixar
traços que possam incriminar o hóspede e criar a suspeita
de que ele pratica uma atividade subversiva.
Esta coluna
conclama todos os brasileiros ávidos por sair das trevas da ignorância
a apoiar o Movimento dos Sem-Luz, pois estamos diante de um inimigo satânico
e com aparelhos instalados em todo o território nacional. Leitores
do Brasil, uni-vos pelo direito de ler!
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiomc@attglobal.net)
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