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Roberto Pompeu de Toledo

Sacerdotes do pecado

Uma crise que além de humilhar
sangra os cofres assola a Igreja
Católica dos EUA

A residência do arcebispo de Boston, nos Estados Unidos, pode ser posta à venda nas próximas semanas. Trata-se de grande e elegante mansão, quase um castelo, situada em terreno com dimensões de sítio. Quem cogita de vendê-la, ou hipotecá-la, é o próprio cardeal-arcebispo de Boston, Bernard Law. A razão é que ele precisa de dinheiro, muito dinheiro. E a razão de precisar de dinheiro é das mais humilhantes: pagar indenizações a vítimas de crimes sexuais cometidos por padres da arquidiocese. A conta pode chegar aos 100 milhões de dólares.

Pedofilia: esse o crime na raiz da totalidade dos casos. Avanços de padres contra crianças – crianças do sexo masculino, sempre. Meninos. O campeão no número de acusações é um padre, ou ex-padre, já que acabou sendo expulso da Igreja, chamado John Geoghan. Em janeiro, aos 66 anos, ele foi condenado à pena de nove a dez anos de prisão por abuso de um menino de 10 anos. E essa é apenas a primeira das condenações. Contra ele pesam as denúncias de outras 130 (130!) pessoas. A arquidiocese concordou em pagar um total entre 20 milhões e 30 milhões de dólares para indenizar as vítimas de Geoghan, e não será essa sua primeira despesa com o caso. Outros 15 milhões já foram gastos, em acordos que, desde 1994 e até o caso vir a plena luz, numa reportagem publicada pelo jornal The Boston Globe em janeiro, eram feitos em sigilo.

Se o leitor está cansado dos escândalos nacionais, eis um estrangeiro capaz de fazer-lhes frente ou até empurrá-los para segundo plano. Paralelamente ao caso de Geoghan, mais de dez outros padres de Boston são réus em processos semelhantes. O próprio cardeal Law encontra-se sob pressão, acusado de, tendo conhecimento dos crimes, acobertá-los, ao longo de anos. Segundo uma pesquisa de opinião, metade dos 2 milhões de católicos da arquidiocese quer que ele renuncie ao cargo. O clima ficou carregado a ponto de haver padres que não saem com o colarinho de clérigo, para não ser identificados. Entre os fiéis, ensaia-se um movimento para interromper as doações de dinheiro à Igreja, de medo de que vá parar no bolo das indenizações. E o pior é que, no rastro do escândalo de Boston, outros foram aflorando pelo país. Casos iguais de avanços contra meninos vieram à luz em Los Angeles e Filadélfia, Chicago e Dallas. A crise nacionalizou-se. O bispo de Palm Beach, na Flórida, Anthony O' Connell, acusado de ter acariciado um garoto 25 anos atrás – delito pelo qual a diocese pagou à vítima, em surdina, 125.000 dólares –, renunciou no início deste mês.

A crise da Igreja nos Estados Unidos é fruto da confluência de três fatores, dois deles caracteristicamente americanos, e o terceiro sabe-se lá se americano ou universal. O primeiro fator é o ânimo prevalecente entre os americanos, ou talvez se deva dizer a volúpia, de ir à Justiça reclamar suas causas. O segundo são a seriedade, a tenacidade e a profundidade com que ali se encara a questão dos abusos sexuais. O terceiro fator – será americano, ou a diferença é que só lá veio a plena luz? – é a incidência espantosa de pedofilia no clero. A arquidiocese de Boston, forçada a reportar o que até agora tratava sempre intramuros, admitiu que, nas últimas quatro décadas, teve conhecimento de ocorrências envolvendo entre sessenta e setenta padres. A de Filadélfia, de seu lado, revelou que em cinco décadas registrou 35 casos. Bons tempos aqueles em que padres tinham amantes. Somados os vários casos que têm pipocado no país, atuais ou passados que só agora vieram à tona, tem-se uma concentração de pedófilos, no clero americano, como possivelmente não se encontrará em nenhuma outra corporação.

Padres são seres diferentes. Antes, eram diferentes já a começar do traje, a batina com que se apresentavam fossem aonde fossem. Hoje não estão sempre de batina, mas continuam diferentes. Para o crente, são intermediários da divindade, funcionários do céu. Pode-se imaginar ofício mais elevado? Mesmo para os não-crentes, podem ser admiráveis. São seres que optaram pela dedicação integral ao Absoluto e ao Mistério. Ainda que não atinjam esse patamar, dado que o ardor místico é privilégio de poucos, mesmo entre os padres, são admiráveis por outro motivo – a opção preferencial pela entrega ao outro, a caridade tomada como regra, o amor feito profissão.

Os padres também são pessoas diferentes porque renunciaram a esse mais ardente dos ímpetos no reino animal que é o sexo – e não deixam de ser admiráveis também por isso. São seres, pelo menos é o que se imagina – e deve ser mesmo verdade, em boa parte dos casos –, dotados por isso de autodisciplina e de espírito de sacrifício fora do alcance do comum das pessoas. Não é à toa que, quando alguém se joga inteiro numa causa ou se dá inteiro a uma nobre atividade, se diz: "Para ele, isso é um sacerdócio". Que dizer quando esse ser em princípio levado em tão alta estima, de quem se esperam amizade e consolo, vira pessoa da qual convém esconder as crianças? Eis o fantasma que confronta os católicos americanos.

   
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