
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Coisa
ruim
Padre malvado é o mau personagem
da nova
obra de João Ubaldo
Jerônimo
Teixeira
Oscar Cabral
 |
| João
Ubaldo Ribeiro: oligarquias brasileiras à moda shakespeariana |

Veja também |
|
|
|
Para
os barbudos da Al Qaeda, são os Estados Unidos. Para George Bush,
é Osama bin Laden. A cara do mal obedece ao gosto do freguês.
Pois João Ubaldo Ribeiro resolveu expressar sua visão do
tema em Diário do Farol (Nova Fronteira; 302 páginas;
25 reais). Nesse romance, um ex-padre (que não revela seu nome),
isolado em uma ilha inóspita onde construiu um farol, decide escrever
uma autobiografia. A história é uma sucessão de crimes
e abjeções que o narrador assume com orgulho ostensivo.
Seu tom é injurioso, e ele lança seguidos vitupérios
contra a presumida ingenuidade do leitor. Mas o leitor não precisa
ficar melindrado. Pode muito bem devolver a provocação:
ingênua mesmo é a glamourização do mal feita
pelo narrador.
As
melhores páginas de Diário do Farol narram a infância
do protagonista, brutalizado pelo pai, um truculento coronel rural. A
violência primitiva das oligarquias brasileiras ganha uma certa
dignidade shakespeariana. Em Hamlet, o rei assassinado pelo irmão
volta como um espectro para exigir que o filho vingue sua morte. Em Diário
do Farol, só muda o gênero do fantasma: o narrador ouve
a voz da mãe, assassinada pelo marido, a exigir a mesma retribuição
sangrenta. A narrativa ainda segura o interesse no trecho dedicado à
vida no seminário, onde o protagonista aproveita a corrupção
reinante para fazer pequenas intrigas. Depois disso, os eventos vão
se atrope pelo irmão
volta como um espectro para exigir que o filho vingue sua morte. Em Diário
do Farol, só muda o gênero do fantasma: o narrador ouve
a voz da mãe, assassinada pelo marido, a exigir a mesma retribuição
sangrenta. A narrativa ainda segura o interesse no trecho dedicado à
vida no seminário, onde o protagonista aproveita a corrupção
reinante para fazer pequenas intrigas. Depois disso, os eventos vão
se atropelando, e o que tinha chance de ser um drama moral transforma-se
em uma manjadíssima alegoria política. Entra em cena o golpe
militar. Nosso anti-herói, mesmo sem acreditar na ditadura, resolve
servir aos vencedores para melhor atingir seus objetivos de desforra contra
Maria Helena, jovem esquerdista que desprezou suas investidas amorosas.
Em reviravoltas nem sempre verossímeis, o padre torna-se primeiro
delator, depois torturador.
O Mal, com maiúscula enfática, não passa de uma abstração.
Abstrações dão caldo para filosofia (ou, no caso,
para teologia), não necessariamente para ficção.
As especulações de João Ubaldo são por vezes
rebarbativas. O escritor baiano não consegue sustentar a pretensão
do personagem, que tem o defeito de conferir importância exagerada
a tudo que faz, diz ou pensa. Era para ser um personagem mau. Saiu apenas
um mau personagem.
|
|
 |
|
 |

|
 |