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Edição 1 744 - 27 de março de 2002
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Ao longo dos anos, a apresentadora conseguiu a proeza de conciliar uma existência bem pouco ortodoxa com uma aura inquebrantável de ortodoxia. Remonta ao comecinho de sua carreira o movimentado namoro com Pelé, que a ajudou a sair do anonimato. Xuxa guarda uma mágoa incancelável do ex-jogador. Numa entrevista que concedeu à revista Playboy, Pelé declarou que Xuxa ainda era virgem quando começou a encontrar-se com ele e que foi preciso "mandá-la resolver o assunto com outra pessoa". "Acho que ele passou por um momento de loucura para dizer uma coisa tão grosseira, que, além do mais, não era verdade", diz a apresentadora. Ela revela que deixou de ser virgem aos 17 anos, meses antes de conhecer Pelé, com um amigo de seu irmão chamado Marquinhos, seu vizinho no subúrbio carioca de Bento Ribeiro. Outro motivo por que Xuxa se irrita ao falar de Pelé é o fato de ele a ter incentivado a tomar parte no filme Amor, Estranho Amor, do diretor Walter Hugo Khoury, de 1982, em que fez o papel de uma mulher que iniciava sexualmente um menino. Xuxa acredita que o filme é prejudicial à sua imagem e conseguiu impedir na Justiça que ele volte a ser exibido. O embargo atinge ainda a publicação de fotos na imprensa. Mas essa decisão foi movida muito mais por excesso de zelo que por censura do público. Pouca gente também ficou escandalizada quando ela resolveu ter um filho de Luciano Szafir, sem se casar com o rapagão, no estilo "produção quase independente". "Eu cheguei a pensar em fazer inseminação artificial e fui até consultar algumas clínicas nos Estados Unidos", conta Xuxa. "Mas a Marlene me abriu os olhos: me fez ver que eu não deveria privar meu filho ou minha filha de ter um pai conhecido. Ela estava certíssima." Uma das críticas ao comportamento da apresentadora partiu do então ministro da Saúde, José Serra, que disse que tal atitude era um mau exemplo para as adolescentes. Por conta disso, o tucano não tem a simpatia da loira.

 
Xicão Jones
MENINA DE FUTURO
Para garantir seu futuro, Sasha tem uma conta de previdência privada que recebe depósitos de 10 000 dólares por mês

Até pouco tempo atrás, Xuxa ainda tinha dois caninos de sua arcada infantil a brilhar no sorriso. Um deles resistiu até 1997, quando foi extraído. Agora o segundo "está mole". Esse é apenas um fato curioso, mas serve de emblema do momento profissional vivido pela apresentadora. É um momento, digamos, de maturidade. Isso significa que ela deixou para trás certas pretensões – mas também que agora sabe melhor o que quer e o que deve fazer. O que Xuxa abandonou foi a idéia de concentrar seus esforços numa carreira internacional e o desejo de atingir espectadores de todas as faixas etárias. No começo dos anos 90, os dois objetivos pareciam estar ao alcance da mão. Xuxa já não era um nome conhecido apenas no Brasil. Versões em espanhol de seu programa infantil eram exibidas por várias emissoras da América Latina. Na Argentina, ela era capaz de lotar estádios e provocar histeria com suas apresentações. Lançar-se na Europa, em países como a Espanha, ou até mesmo no ultracompetitivo mercado americano, havia se tornado uma possibilidade concreta. No Brasil, para tentar cativar adolescentes e adultos, e não apenas crianças, a apresentadora resolveu encerrar o programa que a catapultara para o estrelato, o Xou da Xuxa, da Rede Globo, e bolar novas atrações. Apesar de todas as perspectivas, porém, a década acabou não sendo assim tão gloriosa. A tentativa de lançar-se nos Estados Unidos foi abortada por suas dificuldades com a língua inglesa. A aventura espanhola foi frustrante, pois Xuxa não conseguiu afinar-se com os produtores daquele país, o que resultou em rotinas estafantes de gravação, das quais pouca coisa era aproveitada. Em 1993, a apresentadora estava exausta. O stress lhe causou um problema sério na coluna – e a colocou de molho por um bom tempo.

 
Divulgação
PRODUÇÃO QUASE INDEPENDENTE
Luciano Szafir, Sasha e Xuxa: a apresentadora pensou em fazer inseminação artificial, depois engatou um namoro com o ator e finalmente optou por engravidar sem casamento

No Brasil, enquanto isso, a decisão de mirar nos "altinhos" não colaborou para ampliar sua visibilidade. Por conta disso tudo, nos últimos quatro anos Xuxa voltou a investir com força no mercado infantil nacional. "É isso que eu mais tenho vontade de fazer", diz. Ela realizou três filmes que estouraram na bilheteria e lançou dois vídeos que venderam, juntos, mais de 1,5 milhão de cópias. Xuxa agora vai dar um passo ambicioso: assumirá novamente um programa diário infantil na Rede Globo. A atração está em produção e foi batizada provisoriamente de Xuxa Só para Baixinhos (o mesmo nome dos vídeos que ela produz). No mês que vem, Xuxa já deve entrar no ar apresentando desenhos. Até julho, estréia a fase dois do programa, com quadros em que ela vai interagir com a garotada.

A volta à programação infantil da TV traz embutidas ótimas oportunidades comerciais. Uma pesquisa encomendada por Xuxa algum tempo atrás demonstra que as crianças continuam dispostíssimas a adquirir com avidez qualquer coisa com a sua marca. Hoje, há 300 produtos licenciados por Xuxa no Brasil. Algumas dessas parcerias comerciais vêm de longa data, como aquela com a fábrica de calçados Grendene, iniciada em 1986. Só no ano passado, vendeu-se 1,8 milhão de pares de sapatinhos com o nome dela gravado na fivela. Com o programa diário lhe servindo de vitrine, a expectativa é que o número de licenciamentos dobre até 2003. Uma das críticas mais comuns a Xuxa é que ela, na televisão, estimulou o surgimento de uma geração de pequenos consumistas desmiolados. Para responder a isso, a apresentadora assume ares de pensadora econômica. "Estimular o consumo é uma coisa benéfica, porque sem consumo não existe progresso", diz. "É uma bobagem dizer que, pelo fato de desejar uma boneca ou uma roupa com grife, a criança vai se tornar uma mercenária ou uma ignorante." Xuxa garante que seu programa novo terá uma carga educativa mais acentuada do que a exibida pelo antigo Xou da Xuxa. É esperar para ver.

Quando comenta o seu retorno ao universo infantil, Xuxa faz questão de lembrar que o fato de ter tido uma filha foi importantíssimo. A apresentadora acredita que a maternidade aguçou seu instinto para lidar com crianças em geral. "Eu fui aprendendo muita coisa a respeito dos baixinhos nesses anos todos. Por exemplo, como me comunicar com eles sem ser tatibitate. Ter a Sasha em casa está sendo uma espécie de pós-graduação", diz ela. Nos bastidores, Xuxa ganhou algum grau de independência em relação a Marlene Mattos. Entenda-se bem: Marlene, uma mulher de negócios de habilidade incomum, continua sendo a eminência parda por trás de Xuxa. Desde 1988 ela embolsa 20% de tudo que Xuxa fatura, excetuados os royalties por vendas de discos e o salário da loira na televisão. A partir de 1995 passou a lucrar sobre esses dois itens. É um acerto justo já que, sem o talento gerencial de Marlene, Xuxa dificilmente teria chegado aonde chegou. No ano 2000, contudo, Marlene precisou submeter-se a uma cirurgia para retirar um tumor no timo, uma glândula localizada na parte superior do tórax. No período em que esteve internada, Xuxa tomou as rédeas das gravações de seus programas na TV. E se saiu bem. "Ela fez tudo direitinho", elogia Marlene, que, hoje, sem abrir mão de sua autoridade, se mostra mais disposta a dar ouvidos à apresentadora em "questões artísticas".

O mercado fonográfico e o cinema são verdadeiras minas de ouro para Xuxa. Ela vendeu mais de 20 milhões de cópias de seus discos, e é a atual campeã nacional de bilheteria. Nenhum dos cinco filmes que estrelou ficou abaixo dos 2 milhões de espectadores. O último, Xuxa e os Duendes, atingiu a marca de 2,6 milhões de ingressos vendidos (veja quadro). Ainda em cartaz, o filme nasceu de um episódio protagonizado por Xuxa quando tinha 18 anos. Em 2000, ela veio a público dizer que não apenas acreditava nas pequenas entidades de chapéu pontudo, mas que tinha sido visitada por uma delas em seu quarto. Xuxa nunca voltou atrás nessa declaração. Pelo contrário, reiterou-a incessantemente na época da divulgação de Duendes. O trabalho serviu para promover a reaproximação entre Gugu Liberato e Xuxa. O loiro do SBT faz o papel de vilão na fita. As relações entre eles estavam estremecidas desde que um incêndio destruiu o estúdio em que era gravado o Xuxa Park, em janeiro do ano passado, deixando várias crianças hospitalizadas – uma delas com queimaduras graves. No SBT, Gugu mostrou as imagens do acidente, o que Xuxa considerou uma traição. "Espero que nada de grave aconteça num programa dele. Mas, se acontecer, terei o direito de mostrar", ameaça ela.

Xuxa inaugurou a fórmula do programa de auditório para crianças no Brasil. As apresentadoras que vieram depois precisaram arcar com o ônus da comparação. Nenhuma conseguiu roubar seu espaço. Angélica, que a sucedeu nas manhãs da Globo, teve um começo promissor, mas depois foi empalidecendo. Numa pesquisa realizada no ano passado, Angélica obteve um índice de 31% de rejeição entre as mães que precisam deixar seus filhos aos cuidados da "babá eletrônica". Eliana, que apresenta de segunda a sexta o Eliana e Alegria na Record, é um caso diferente. Ela é um nome comercialmente forte. Só em 2001, faturou cerca de 46 milhões de reais. As crianças gostam dela – e as mães também. Mas Eliana está longe de ter o carisma de Xuxa. Não tem vocação para ícone.

A filha da apresentadora, Sasha, tornou-se presença constante nos vídeos produzidos por Xuxa. Não é improvável que a menina passe a ser vista com freqüência no novo programa infantil comandado por sua mãe. "Se Sasha quiser, as portas estão abertas", diz a madrinha Marlene. A garota de 3 anos tem uma agenda bem lotada. Estuda na Escola Americana do Rio de Janeiro e faz aulas de balé e natação. É uma menina graciosa e desinibida. Tem traços da família Szafir. O quarto de Sasha é maior que muitos apartamentos de classe média: tem 102 metros quadrados. A segurança que cerca a menina é pesada, mas não impede que faça programas normais ao lado de Xuxa. Aliás, a apresentadora passou a sair mais depois do nascimento da filha. Não bastasse a imensa herança que Sasha deve herdar, ela tem uma conta de previdência privada de causar inveja a presidente de multinacional. Todos os meses, Xuxa deposita o equivalente a 10.000 dólares para Sasha nesse fundo. Se a conta for mantida até a menina completar 18 anos, e ela resolver usufruir do dinheiro com essa idade, já terá garantida uma renda vitalícia mensal de 31.000 reais. Mas, com seu interesse precoce pelos holofotes, é improvável que Sasha venha a lançar mão de sua previdência privada tão cedo. Xuxa conta que, não faz muito tempo, pôs dois pompons nas mãos da filha e perguntou se ela gostaria de ser paquita. A garota respondeu que não. E, então, gritou: "Planeta Sasha!".

 

Rainha também no cinema

A carreira de Xuxa como estrela cinematográfica é cada vez mais sólida. Com suas produções mais recentes, ela ocupou o espaço que os Trapalhões deixaram vago. Abaixo, o número de espectadores dos filmes estrelados por ela

Divulgação
Armando Gonçalves
Divulgação
1988
Super Xuxa contra Baixo Astral
2,5 milhões
1990
Lua de Cristal
3,9 milhões
1999
Xuxa Requebra
2,1 milhões

 

Reginaldo Teixeira
André Lobo
2000
Popstar
2,4 milhões
2001/2002
Xuxa e os Duendes
2,6 milhões

 



   
 
   
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