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Guinada à
direita na Europa
Vitória
em Portugal reforça tendência
favorável aos partidos de centro-direita
AFP Photo/EPA/Lusa/Inacio Rosa/FOB

Durão
Barroso na festa da vitória: sem mudanças na área macroeconômica |
Com a vitória
dos partidos de centro-direita na eleição em Portugal na
semana passada, o eleitorado deu mais um sinal de que as coalizões
de centro-esquerda estão cada dia menos populares na Europa. Apenas
três anos atrás, doze dos quinze países da União
Européia eram governados por partidos de centro-esquerda. Hoje,
somente sete governos podem ser classificados como representantes da vertente
mais à esquerda do espectro político. Nas últimas
eleições na Espanha, Itália, Áustria e Dinamarca,
a preferência foi por candidatos conservadores. Pelo menos na Europa,
isso não significa grandes mudanças em termos de metas de
inflação e déficit público. Nos anos 80, a
primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher e os socialistas do presidente
francês François Mitterrand estavam em trincheiras diametralmente
opostas. Isso acabou. O banco central europeu é o responsável
pela condução da política macroeconômica há
dois anos nos doze países que adotaram o euro (Alemanha, Áustria,
Bélgica, Espanha, Finlândia, França, Grécia,
Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo e Portugal). Em alguns deles,
a divisão ideológica é tão tênue que
fica difícil classificar a linha de governo. Na Bélgica,
o primeiro-ministro Guy Verhofstadt é de centro-direita, mas conta
com o apoio de socialistas e ecologistas.
Mesmo sem
poder realizar mudanças na política macroeconômica,
o grande vencedor das eleições em Portugal na semana passada,
José Manuel Durão Barroso, espera estabelecer diferenças
claras com os socialistas que governaram o país nos últimos
seis anos. "Os socialistas foram castigados porque criaram muitas expectativas
e não corresponderam", disse a VEJA José Carlos Vasconcelos,
analista político do canal de televisão português
RTP. Durão Barroso quer dar um choque fiscal, reduzindo os impostos
das empresas para tentar reanimar a economia. Além da questão
fiscal, a imigração é outro tema em que há
divergências marcadas entre os partidos de esquerda e de direita
europeus. Na Dinamarca, a coalizão de centro-direita chegou ao
poder em novembro com a promessa de diminuir a imigração.
Os imigrantes são apenas 7% da população, mas essa
taxa parece já ser alta para o eleitorado. Os dinamarqueses estão
dificultando até mesmo a entrada de parentes dos estrangeiros estabelecidos
no país. A explicação é que o índice
de desemprego entre jovens imigrantes é muito alto. Grupos ligados
à causa dos direitos humanos estão protestando, mas a polarização
em nada se parece com a da Itália, governada pelo controverso barão
da mídia Silvio Berlusconi numa coalizão que conta com um
partido neofascista.
O bilionário
com ego digno de imperador romano venceu as eleições do
ano passado com um discurso que defendia a mudança. A ajuda de
seu conglomerado de comunicações, de muito dinheiro e de
um tom fortemente moralista também contou para a vitória.
Num país com larga tradição de governos de centro-esquerda,
a segunda ascensão de Berlusconi em menos de dez anos assombrou
por causa das acusações que pesam sobre ele. Algumas das
denúncias de lavagem de dinheiro, evasão fiscal, suborno
e conexões com a Máfia foram transformadas em processos.
Isso, no entanto, não tira o brilho da sua reforma da legislação
trabalhista. As leis que regem as relações entre trabalhadores
e patrões na Itália eram das mais rígidas da Europa.
No sul do país, uma de cada cinco pessoas está procurando
emprego. Como o exemplo de Margaret Thatcher mostrou na Inglaterra dos
anos 80, mudanças nas leis trabalhistas exercem efeitos benéficos
na criação de empregos. Apesar da oposição
dos poderosos sindicatos italianos, Berlusconi tem chances de ver sua
reforma aceita.
Até
o final do ano, franceses e alemães irão às urnas
para escolher seus representantes. Na França, o conservador Jacques
Chirac e o socialista Lionel Jospin lutam cabeça a cabeça
pela Presidência. Sabendo que o eleitorado não está
dócil, Jospin declarou recentemente que seu programa não
era socialista. Diante da gritaria dos partidários, foi obrigado
a voltar atrás na semana passada. Na Alemanha, o chanceler social-democrata
Gerhard Schroeder, aquele que acabou com a supremacia de dezesseis anos
da coalizão conservadora de Helmut Kohl, tentará a reeleição
em setembro. Mas sabe que não será fácil. "Em épocas
de incerteza, os eleitores tendem a apoiar o discurso forte e direto dos
partidos de centro-direita", disse a VEJA Joan Subirats, professor de
ciência política da Universidade Autônoma de Barcelona.
Na Alemanha, o desemprego atinge 4 milhões de pessoas, 500.000
acima da meta apresentada no programa de Schroeder. Caso a centro-direita
vença as eleições na maior economia da Europa, o
poder dos conservadores estará solidificado no continente.
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