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Edição 1 744 - 27 de março de 2002
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As lágrimas de Roseana

"Considerando as crises de choro, os
'laranjas',
as notas frias, os cenários
exóticos, arriscaria dizer que os corruptos
criaram a nossa melhor literatura"

Agora que o assunto morreu, posso confessar que, enquanto a imprensa investigava os negócios ilícitos de Roseana Sarney, eu, estupidamente, só me interessava em saber quantas vezes ela chorou. Quando foi informada sobre a batida policial em seu escritório, ela chorou de raiva. Depois ligou para uns amigos, como o presidente do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, e chorou mais um pouco. Alguns dias mais tarde, reunida com a cúpula do PFL, ela chorou chupando picolés de limão, "para aliviar o stress". Chorou quando Jorge Bornhausen entrou no palácio do governo do Maranhão e chorou de novo quando ele saiu. Ao receber um telefonema de solidariedade do ministro Paulo Renato Souza, ela, comovida, chorou. Só um personagem de novela pode chorar tanto assim. Aliás, eu mereço uma medalha. Sou melhor do que imaginava. No auge da candidatura de Roseana Sarney, escrevi um artigo profético comparando-a à protagonista de Desejos de Mulher. No meio do artigo, tracei um paralelo entre Jorge Murad e o inescrupuloso marido da heroína da novela, que se envolve em trapaças financeiras e a arrasta para o fundo do poço. Os únicos fatos que não consegui prever foram a baixa audiência da novela e o tombo de Roseana Sarney nas pesquisas eleitorais.

Além das crises de choro de Roseana Sarney, as fraudes na Sudam me proporcionaram farto material sobre "laranjas". Eu coleciono perfis de "laranjas". Acho que nossa cultura não os valoriza o suficiente. Se eu tivesse algum talento literário, faria com os "laranjas" do Brasil contemporâneo o mesmo que Nicolai Gogol fez com os servos russos em Almas Mortas. Nesse caso, A.C. Rebouças seria o meu Chichikov, o fraudador que, na Rússia czarista, saía comprando títulos de propriedade de servos mortos para alavancar empréstimos estatais. A.C. Rebouças é considerado o principal articulador das fraudes da Sudam, responsável pela corrupção de políticos e pela remessa ilegal de dinheiro para o exterior. Um de seus "laranjas", Carlos Antônio Correia Costa, era um marceneiro miserável que trabalhava sem carteira assinada em sua fábrica de panelas. Foi em nome dele que A.C. Rebouças registrou duas empresas nas Ilhas Virgens. O pai de Carlos Antônio Correia Costa, atualmente numa cama de hospital, sem dinheiro para se tratar de um câncer, virou "laranja" de outra empresa no paraíso fiscal.

As empresas de fachada que A.C. Rebouças montou em nome de seus "laranjas" chamavam-se Greenwich Business, New Clare Finance, Carney Holdings, Fedar Assets, Aluminium Anodizing. Nomes fantasiosos parecem ser a prerrogativa desse tipo de negócio. Paulo Maluf, por exemplo, é acusado de ser o proprietário da Red Ruby e da Blue Diamond, na ilha de Jersey. Já a Hillside Trading, das Bahamas, é ligada ao escândalo do TRT. Noticiou-se que a Igreja Universal comprou a TV Record por meio da Investholding e da Cableinvest, das Ilhas Cayman. A Rainier Engineering, sediada nas Ilhas Virgens, apareceu nas investigações sobre o superfaturamento das plataformas da Petrobras.

Considerando as crises de choro, os "laranjas", as notas frias, os cenários exóticos e as empresas de fachada, eu arriscaria dizer que, nos últimos trinta anos, empresários e políticos corruptos criaram a nossa melhor literatura, com tramas mais engenhosas e personagens mais verossímeis e cheios de pathos que todos os escritores brasileiros juntos.

 
 
   
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