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As
lágrimas de Roseana
"Considerando
as
crises de choro, os
'laranjas', as
notas frias, os cenários
exóticos, arriscaria dizer que os corruptos
criaram a nossa melhor literatura"
Agora que o assunto morreu, posso confessar que, enquanto a imprensa investigava
os negócios ilícitos de Roseana Sarney, eu, estupidamente,
só me interessava em saber quantas vezes ela chorou. Quando foi
informada sobre a batida policial em seu escritório, ela chorou
de raiva. Depois ligou para uns amigos, como o presidente do Supremo Tribunal
Federal, Marco Aurélio Mello, e chorou mais um pouco. Alguns dias
mais tarde, reunida com a cúpula do PFL, ela chorou chupando picolés
de limão, "para aliviar o stress". Chorou quando Jorge Bornhausen
entrou no palácio do governo do Maranhão e chorou de novo
quando ele saiu. Ao receber um telefonema de solidariedade do ministro
Paulo Renato Souza, ela, comovida, chorou. Só um personagem de
novela pode chorar tanto assim. Aliás, eu mereço uma medalha.
Sou melhor do que imaginava. No auge da candidatura de Roseana Sarney,
escrevi um artigo profético comparando-a à protagonista
de Desejos de Mulher. No meio do artigo, tracei um paralelo entre
Jorge Murad e o inescrupuloso marido da heroína da novela, que
se envolve em trapaças financeiras e a arrasta para o fundo do
poço. Os únicos fatos que não consegui prever foram
a baixa audiência da novela e o tombo de Roseana Sarney nas pesquisas
eleitorais.
Além das crises de choro de Roseana Sarney, as fraudes na Sudam
me proporcionaram farto material sobre "laranjas". Eu coleciono perfis
de "laranjas". Acho que nossa cultura não os valoriza o suficiente.
Se eu tivesse algum talento literário, faria com os "laranjas"
do Brasil contemporâneo o mesmo que Nicolai Gogol fez com os servos
russos em Almas Mortas. Nesse caso, A.C. Rebouças seria
o meu Chichikov, o fraudador que, na Rússia czarista, saía
comprando títulos de propriedade de servos mortos para alavancar
empréstimos estatais. A.C. Rebouças é considerado
o principal articulador das fraudes da Sudam, responsável pela
corrupção de políticos e pela remessa ilegal de dinheiro
para o exterior. Um de seus "laranjas", Carlos Antônio Correia Costa,
era um marceneiro miserável que trabalhava sem carteira assinada
em sua fábrica de panelas. Foi em nome dele que A.C. Rebouças
registrou duas empresas nas Ilhas Virgens. O pai de Carlos Antônio
Correia Costa, atualmente numa cama de hospital, sem dinheiro para se
tratar de um câncer, virou "laranja" de outra empresa no paraíso
fiscal.
As empresas de fachada que A.C. Rebouças montou em nome de seus
"laranjas" chamavam-se Greenwich Business, New Clare Finance, Carney Holdings,
Fedar Assets, Aluminium Anodizing. Nomes fantasiosos parecem ser a prerrogativa
desse tipo de negócio. Paulo Maluf, por exemplo, é acusado
de ser o proprietário da Red Ruby e da Blue Diamond, na ilha de
Jersey. Já a Hillside Trading, das Bahamas, é ligada ao
escândalo do TRT. Noticiou-se que a Igreja Universal comprou a TV
Record por meio da Investholding e da Cableinvest, das Ilhas Cayman. A
Rainier Engineering, sediada nas Ilhas Virgens, apareceu nas investigações
sobre o superfaturamento das plataformas da Petrobras.
Considerando as crises de choro, os "laranjas", as notas frias, os cenários
exóticos e as empresas de fachada, eu arriscaria dizer que, nos
últimos trinta anos, empresários e políticos corruptos
criaram a nossa melhor literatura, com tramas mais engenhosas e personagens
mais verossímeis e cheios de pathos que todos os escritores
brasileiros juntos.
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