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Edição 1 744 - 27 de março de 2002
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Um impressionista no Brasil

AP
Ziegler com uma criança pobre: erros grosseiros

Os graves e persistentes problemas sociais brasileiros ganharam na semana passada mais um comentarista internacional dos tantos que, de tempos em tempos, fazem análises apressadas ou francamente erradas sobre o país. A revista inglesa The Economist escreveu, a propósito do assassinato do prefeito Celso Daniel, que os crimes políticos tinham voltado ao Brasil. Newsweek, revista semanal de notícias americana, defendeu em sua edição latino-americana a tese de que a reforma agrária brasileira é "um desastre do começo ao fim". Agora foi a vez do sociólogo Jean Ziegler, um conhecido polemista suíço de orientação socialista. Em visita ao Brasil na qualidade de relator especial da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, Ziegler cometeu erros grosseiros de avaliação, como o de dizer que o Brasil é o mais injusto entre todos os 189 países membros da ONU. É indiscutível que o país tem uma antiga e gigantesca dívida social. Mas, a partir da afirmação de Ziegler, o ouvinte incauto sai com a convicção de que, no campo social, o Brasil está pior que Afeganistão, Albânia ou Angola, para ficarmos apenas nos países membros da ONU que começam com a letra "a". Mesmo se dando ao suíço o benefício de estar trabalhando com o conceito de desigualdade social – e não com o de miséria –, a comparação não se sustenta.

Outra confusão conceitual de Ziegler embaralhou desnutrição e fome. O suíço disse que no Brasil há 25 milhões de famintos. Justificou apresentando dados oficiais brasileiros que apontam que o número de pessoas sem renda suficiente para comprar comida é muito próximo de 25 milhões. A estatística é correta, mas a conclusão é errada. Falta de renda para comprar comida não é necessariamente sinônimo de fome, pois muita gente, especialmente nas zonas rurais, planta e colhe o que come, enquanto outros tantos brasileiros recebem cestas básicas. Trata-se de uma confusão de bom calibre, sobretudo para um cidadão que fala em nome da ONU.

 
 
   
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