Com um papel em Eu
Sou a Lenda e outras quatro produções
estrangeiras por estrear, Alice Braga, de 24 anos, já
construiu
a mais sólida carreira internacional de um intérprete
brasileiro
Isabela Boscov
Jeff Vespa/Wireimage/Getty
Images
"Não
me preocupa virar uma atriz latina. Isso não
é tipificação. É o que eu sou
mesmo: latina e sul-americana"
Há um ano,
Alice Braga não pára em casa: revelada por Fernando
Meirelles em Cidade de Deus, no papel de uma garota da
Zona Sul que é objeto de desejo de um rapaz da favela,
essa paulistana "da gema", como se descreve, engatou
uma carreira internacional que já é mais prolífica
que a de qualquer outro ator brasileiro até aqui. Além
de Eu Sou a Lenda, a superprodução em que
interage com Will Smith, Alice rodou recentemente quatro outras
produções estrangeiras, nas quais divide a cena
com Harrison Ford, Sean Penn, Jude Law e Forest Whitaker. Num
desses filmes, Redbelt, uma história passada no
mundo do jiu-jítsu, foi dirigida pelo dramaturgo David
Mamet, um ícone do meio cinematográfico. Voltou
a se reunir com Meirelles em Blindness, adaptação
de Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.
Aos 24 anos, faladora e "muito família", Alice
ainda não prova do efeito colateral desse tipo de estouro:
a celebridade. Está num momento em que a indústria
já acompanha seu percurso com interesse, mas o público
ainda não a reconhece. Ela conversou com VEJA em duas
ocasiões nas últimas semanas de Nova York
e numa visita à família, em São Paulo.
Veja Você
tem apenas 24 anos e já montou um currículo internacional
sem precedentes para um ator brasileiro. Ele é fruto
de planejamento ou de acaso? Alice Eu sempre
quis trabalhar com cinema, desde pequena, tanto faz se aqui
ou lá fora. Cinema e ponto, esse era meu único
plano. A partir do momento em que as portas começaram
a se abrir, fui tocando de ouvido. Já fiz vários
filmes no Brasil, começando por Cidade de Deus
e depois Cidade Baixa,A Via Láctea e Só
Deus Sabe, que é meio brasileiro e meio mexicano.
E dei a sorte de engrenar também uma carreira fora do
país. Digo sorte porque eu quero papéis que me
desafiem, que me obriguem a crescer. Quanto mais oportunidades,
portanto, melhor.
Veja A fama
mudou algo na sua relação com seus amigos? Alice É
engraçado, mas tudo continua igual. Acho que é
porque eu mesma não mudei. Chego ao Brasil e ligo para
todos os meus amigos, procuro vê-los e estar perto deles.
A verdade é que ainda não provei do que é
a celebridade. Outra noite, uma moça me reconheceu no
supermercado. Ela acenou para mim, eu acenei para ela, e continuei
escolhendo minhas frutas. Isso aconteceu uma vez, em dez dias
em São Paulo. O mais comum é as pessoas olharem
para mim com aquela cara de que me conhecem mas não sabem
de onde. O resultado é que eu também fico em dúvida
se conheço a pessoa ou não. Minha irmã
me manda parar de sorrir, diz que é claro que não
é ninguém que eu tenha visto antes. Mas e se for?
Sei lá, posso ter esquecido.
Veja Você
tem medo de se tornar uma celebridade? Alice Por enquanto,
tenho mais curiosidade. É lógico que essa coisa
dos paparazzi dá medo, por causa da invasão de
sua privacidade e da de sua família. Mas não vivi
nada disso, só sei pelas histórias dos outros.
Cheguei aqui, por exemplo, e fiquei impressionada com o tamanho
do Waguinho (Wagner) Moura hoje em dia. Acho que ele
se assustou. Mas duvido que ele vá mudar ou deixar de
ir ao supermercado e ao cinema. Você só passa a
escolher melhor os horários em que vai sair por aí.
Shopping center na sexta-feira às 6 da tarde, por exemplo,
não dá.
Veja Seus
pais se preocupam? Alice Não,
porque sempre tive o pé no chão, desde a adolescência.
Os meus amigos ficavam doidos e eu tomava uma cerveja, pronto.
Nunca fui baladeira. Adoro ir a festas na casa dos outros, mas
não sou de boate. Se saio para dançar com as minhas
amigas, é para dançar com elas, não para
ficar aí pela noite.
Veja Mas
nesse meio a balada está lá, à disposição? Alice Sem dúvida
como em qualquer lugar do mundo e em qualquer meio. Se
você quiser sair de segunda a segunda em São Paulo,
não vai faltar aonde ir. Mas sou muito batalhadora para
entrar nessa.
Veja Você
se preocupa com a idéia de ser tipificada como uma atriz
latina? Alice Não
mesmo. Uma atriz é uma atriz. Sou tão nova e tenho
tanto a aprender que tudo o que vejo quero fazer, porque tudo
é novo para mim. De mais a mais, sou latina e sul-americana
mesmo. Isso não é uma tipificação,
é o que eu sou.
Veja Você
imagina chegar a um ponto em que venha a inverter sua situação
ou seja, em que se mudará para os Estados Unidos
e apenas visitará o Brasil? Alice Não.
Primeiro porque os filmes americanos hoje são feitos
em todo lugar, não só nos Estados Unidos. Agora,
por exemplo, acabei de filmar Repossession Mambo em locação
no Canadá, onde foi rodada também parte de Blindness,
de Fernando Meirelles. Logo depois de concluir Eu Sou a Lenda,
no ano passado, passei três semanas em Santa Catarina
trabalhando num curta-metragem daí fui para os
Estados Unidos fazer Redbelt, com David Mamet. No segundo
semestre, volto para fazer Cabeça a Prêmio,
em que Marco Ricca vai me dirigir, e que temos de rodar antes
que comece a estação das chuvas em Mato Grosso.
Moro onde o filme está. Mas o Brasil é a minha
casa, e não penso mudar isso.
Veja Por
que não? Alice Fico com
muita saudade de casa. Sempre que posso, volto correndo.
Veja Tem
algum namorado nessa história? Alice Pulo tanto
de lá para cá que acho que ninguém quer
me namorar. Mas tenho muita vontade de ter uma família.
Fui criada muito junto com meu pai, minha mãe e minha
irmã, sou ligadíssima neles. Eles são supercorujas,
carinhosos, sempre me deram a maior força. Nem vou começar
a falar neles porque senão não paro. Minha família
é, para mim, a base de tudo: quem eu sou, para onde eu
volto.
Veja Você
usa o sobrenome da sua mãe, Braga, mas fala o mínimo
possível sobre o fato de ser sobrinha de Sonia Braga.
Vocês não são próximas ou é
pudor de capitalizar a fama de sua tia? Alice
Na verdade, passei a usar Braga em vez de Moraes, que é
o sobrenome do meu pai, porque em pequena eu ia aos sets de
filmagem de comerciais com a minha mãe e, como falo pelos
cotovelos e sou muito extrovertida, começaram a me convidar
para fazer comerciais também. O pessoal dizia: "Vamos
chamar a Lili, a filha da Aninha Braga". E acabei virando
Lili Braga. Mais tarde troquei o Lili por Alice porque depois
de certa idade apelido não dá, né? Mas
sou fã do trabalho da minha tia. Não a menciono
muito porque nunca passamos grandes períodos perto uma
da outra. Quando eu nasci, ela morava fora. Agora ela voltou
e eu é que não paro aqui.
Veja Quando
um ator começa a despontar com força no cinema
americano, como é o seu caso agora, habitualmente o agente
dele o pressiona a aceitar trabalhos que rendam o máximo
de exposição e de cachê, mas que nem sempre
são os que o ator gostaria de fazer. Essa é também
a sua experiência? Alice Desde 2003
sou representada nos Estados Unidos pela Endeavor, uma agência
até bem grande. Mas me entendo às mil maravilhas
com a minha agente. Ela sempre apoiou a minha decisão
de continuar a filmar também no Brasil e jamais me pressionou
a mudar de vez para Los Angeles. Também nunca tentou
me empurrar projetos. Ela procura não necessariamente
coisas em que eu apareça muito, mas sim em que eu apareça
bem.
Veja O cinema
americano paga cachês tremendamente maiores que o brasileiro.
O dinheiro é uma tentação na hora de escolher
um projeto? Alice Dinheiro
paga as contas, e não se deve fazer pouco da independência
e da estabilidade que ele proporciona. Neste momento, por exemplo,
estou passando umas semanas no Brasil, com a minha família,
sem me angustiar por não estar recebendo neste mês.
Mas estou tão no começo! O prazer de fazer uma
coisa diferente, pela qual se tenha entusiasmo, é inestimável.
Além disso, esse tipo de cachê que pode constituir
uma tentação está bem fora da minha categoria.
É coisa para gente muito maior do que eu.
Veja À
parte alguns flashbacks, em Eu Sou a Lenda você
é a única pessoa que contracena com Will Smith.
Como surgiu essa oportunidade? Alice Quando eu
estava lançando Cidade Baixa no Festival de Sundance,
minha agente me avisou do teste para Eu Sou a Lenda.
Fiz a audição com a produtora de elenco e voltei
para o Brasil. Nem pensei mais no assunto. Nesse meio-tempo,
o diretor Francis Lawrence, o roteirista Akiva Goldsman e Smith
viram o videotape, gostaram e me convidaram para fazer uma leitura.
Não basta que o ator pareça bem no teste; é
preciso se certificar de que existe uma química interessante
entre ele e o protagonista. Então fiz a leitura com Will
Smith e aí... rolou.
Veja Você
é naturalmente mignone, mas está magérrima
em Eu Sou a Lenda. Os produtores exigiram que você
perdesse peso? Alice Fiz oito
meses de dieta puxada eu e Will Smith. Num mundo pós-apocalíptico,
certamente esses personagens não estariam indo à
pizzaria toda semana. Fiquei um mês sem comer nada de
carboidrato, só proteínas e vegetais, sem sal
e sem temperos. Depois introduzimos um pouco de fruta na dieta
mas só um pouco. E todos os dias eu corria 8 quilômetros
de manhã e, à tarde, malhava. Minha mãe
ficou toda preocupada. Mas se sentir faminta e no limite do
seu físico ajuda você a entender o que o personagem
estaria passando.
Veja Em
Eu Sou a Lenda, seu inglês chama atenção
não só pela fluência, mas também
pela pronúncia e entonação precisas. Você
já falava bem inglês antes de começar sua
carreira estrangeira? Alice Estudei
inglês desde pequenininha. Hoje em dia agradeço
a meu pai por sempre ter me obrigado a seguir as aulas, mesmo
quando eu ficava com preguiça e inventava desculpas para
parar. Mas, até trabalhar fora do Brasil, eu não
falava com a fluência e a naturalidade de alguém
que tivesse morado fora. Quando começaram a pintar essas
oportunidades, voltei então a me dedicar à língua.
Para Eu Sou a Lenda, tive um dialect coach, um
profissional que ajuda não só a limpar o sotaque,
mas, nesse caso, a melhorar a dicção e aprimorar
a entonação. Quando uma pessoa fala uma língua
estrangeira, ela tende a transferir sua entonação
nativa para o segundo idioma o que não só
muda o sentido do que é dito como desvia a atenção
do conteúdo para a forma, por assim dizer. A preocupação,
então, era que minhas falas soassem claras e também
naturais. Para isso, é preciso treinar até que
todas essas regras se tornem inconscientes. Senão, na
hora de fazer a cena, você só pensa no que está
dizendo, e não na atuação, como deveria.
Veja Em
abril estréia nos Estados Unidos Redbelt, que
você e Rodrigo Santoro fizeram com o cineasta e dramaturgo
David Mamet, um dos nomes mais celebrados do meio. O que você
aprendeu com ele? Alice Trabalhar
com Mamet foi maravilhoso. Sempre admirei não só
as peças e os roteiros dele, mas também os livros
de cinema que ele escreve, que são ótimos. Ele
é um ícone, e me senti tremendamente honrada
além de apavorada. Mas ele me guiou o tempo todo. Apesar
da fama de bravo, ele é um homem carinhoso, doce, que
pega você pela mão. Esse foi um ano especial porque
aprendi coisas diferentes com cada uma das pessoas com que trabalhei.
Com Mamet, aprendi a mergulhar nas nuances do texto, a pesar
as palavras e entender a maneira como elas devem ser ditas para
atingir o efeito que se pretende. O roteiro dele é algo
que nunca vi: vem com todas as palavras em que a ênfase
deve recair sublinhadas. É quase uma partitura.
e ninguém ousa improvisar ou mudar uma letra do que ele
determinou.
Veja Redbelt
é uma história passada no mundo do jiu-jítsu.
Como algo tão brasileiro foi parar na mão de David
Mamet? Alice Ele faz
jiu-jítsu há seis anos com um professor brasileiro
e é louco pelo esporte. Daí esse enredo sobre
um clã ligado ao jiu-jítsu. Eu faço a princesinha
da família, casada com um lutador, interpretado pelo
inglês Chiwetel Ejiofor, que acha que os campeonatos são
um desvirtuamento da filosofia da luta. O engraçado é
que não tenho nenhuma cena no filme com Santoro, que
faz um empresário do meio.
Veja Que
outros trabalhos internacionais você já completou? Alice Acabei de
filmar Repossession Mambo, uma ficção sobre
o comércio de órgãos com Jude Law e Forest
Whitaker. Esse deve ser lançado só em 2009. Em
Crossing Over, que tem estréia prevista para junho
nos Estados Unidos, faço o papel de uma imigrante ilegal
detida na fronteira mexicana. O roteiro trata da imigração
de um ângulo que tem sido pouco abordado: não só
o das pessoas que estão cruzando a fronteira, como é
o caso da minha personagem, mas principalmente do ponto de vista
de gente que está nos Estados Unidos há vinte
anos, construiu lá uma vida, e cai na malha da fiscalização.
Veja Seu
papel em Crossing Over é pequeno, mas os atores
com os quais você contracena são do primeiríssimo
time. Alice Pois é,
a maioria das minhas cenas é com Harrison Ford, que faz
um agente federal do Departamento de Imigração,
e com Sean Penn, que interpreta um patrulheiro de fronteira
aqueles policiais que ficam dentro do carro, no deserto,
à espera de observar alguma movimentação
suspeita. Ele é o patrulheiro que me apreende.
Veja Você
é daqueles atores que só enxergam defeitos quando
se vêem em cena? Alice Sempre penso
que poderia ter feito isso ou aquilo de um jeito diferente,
o que é uma reação absolutamente comum.
Mas vejo os trabalhos que fiz um, dois ou três anos atrás
quase como se fossem de outra pessoa. Tento não me julgar
demais pelo que já ficou para trás. A gente nunca
se banha no mesmo rio duas vezes, certo? Ele está sempre
passando.