O presidente mundial da indústria de materiais esportivos
Adidas, o alemão Erich Stamminger, torce para um time
de futebol pouco expressivo de seu país, o FC Nuremberg.
Mas é ele quem administra os contratos de patrocínio
da marca com os maiores clubes do mundo, como o Real Madrid
e o Milan, e com jogadores do porte de Kaká. De passagem
pelo Brasil, ele falou ao repórter Rafael Corrêa
O senhor trabalha
há 25 anos com equipamentos esportivos. Hoje é
mais fácil vender tênis?
As vendas de material esportivo não param de crescer.
A razão para isso é que as pessoas em todo o mundo
estão cada vez mais preocupadas com a saúde e
querem manter o corpo em forma. Além disso, as marcas
se beneficiam do crescimento do que podemos chamar de moda esportiva.
Quando você vai à academia e olha para as mulheres,
percebe que elas querem parecer bonitas em sua roupa esportiva.
Enquanto as mulheres desfilam com os lançamentos mais
recentes, os homens usam camisetas de dez anos atrás.
São mundos diferentes. Antigamente, não se relacionava
roupa esportiva à moda. Hoje, há mais moda no
esporte, e as mulheres são mais sensíveis a isso.
Como é possível
vender o mesmo produto em 200 países, para consumidores
de culturas tão díspares?
É preciso identificar as preferências de cada país
e adaptar os produtos a elas. O Japão, por exemplo, exige
os padrões de qualidade mais altos do mercado de acessórios
esportivos. A mão-de-obra, o acabamento, os materiais,
tudo tem de ser da melhor qualidade. O produto feito para o
mercado americano não serve para o Japão, e vice-versa.
Os asiáticos, em geral, preferem produtos muito coloridos,
ao contrário dos europeus.
A Teamgeist, bola
oficial da Copa de 2006, fabricada pela Adidas, foi criticada
por alguns jogadores por ser muito rápida. A tecnologia,
às vezes, pode prejudicar o jogo?
Teoricamente, sim. Mas, como fã de futebol, acho que,
quanto mais gols se fizerem num jogo, melhor. O espetáculo
fica mais bonito. Se uma bola mais rápida resultar num
jogo de 4 a 3, em vez de um fraco 1 a 0, fico com a Teamgeist.
Aliás, as críticas às nossas bolas partem
de jogadores patrocinados por nossos concorrentes. Em geral,
são sempre os mesmos. Por que será?
Beleza conta na
hora de um fabricante de artigos esportivos fechar um contrato
de patrocínio com um atleta?
Não há como negar que beleza ajuda bastante na
hora de fazer publicidade, embora esse não seja o critério
principal para patrocinarmos jogadores. Os verdadeiros atletas
sabem que têm de treinar muito e ganhar. Para nós,
o que conta é o rendimento esportivo e o potencial que
vemos no atleta. Ele precisa se comportar bem, cultivar bons
valores e tratar bem os fãs, dar autógrafos e
não ser arrogante.
Fidel Castro freqüentemente
aparece em fotos e na TV vestindo um agasalho Adidas. Isso é
bom para a marca?
O que posso fazer? Qualquer um pode entrar numa loja e comprar
Adidas. Preferiria evitar que certos políticos aparecessem
usando a marca. O chefe de estado de uma ditadura queria muito
que fizéssemos o uniforme de sua seleção,
mas dissemos que não estávamos interessados. Outro
fabricante acabou vestindo a seleção. Por outro
lado, as aparições de Fidel usando agasalhos de
nossa marca são boa publicidade nos países do
Leste Europeu, onde temos boas vendas de agasalhos. Lá,
a imagem de Fidel tem um apelo chique, meio mítico.
Haverá mais
atletas excepcionais como Pelé e Michael Jordan?
Não acho que haverá jogadores como Pelé
ou Jordan porque o mundo mudou. Não é possível
construir tanta popularidade em torno de um único jogador.
Haverá, sim, mais jogadores de elite. É claro
que torço para Kaká ser eleito o melhor do mundo
pelos próximos dez anos, já que o patrocinamos.
Mas, quando você vê as eleições de
melhor jogador dos últimos anos, percebe que tudo muda
muito rápido.