
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
Roberto
Pompeu de Toledo
Saudade
do televizinho
Não
é que a
TV tenha ocupado
todos
os cantos
da vida.
É mais:
ela
tomou o
lugar da
vida
Houve tempo em que havia o televizinho. Será que sobra algum televizinho?
Será que sobra, até mesmo, quem saiba o que é televizinho?
Televizinho era a pessoa que, não tendo televisão em casa,
se aproveitava da do vizinho. O jovem leitor duvida? Acha que se está
aqui inventando vocábulo exótico, só para fazer graça?
Pois corra aos dicionários. A palavra ali está, tanto no
Aurélio como no Houaiss. Os dicionários têm
isso de bom: conservam as palavras em desuso como os sedimentos conservam
os fósseis. Neles repousam, em sono esplêndido, palavras
como bufarinheiro e alcouceira, mandrana e parvajola. Ou então,
diriam os moralistas, palavras que, embora em uso, identificam práticas
em desuso: honestidade, vergonha, intimidade, virgindade...
Quem viveu os primeiros anos da televisão sabe que o fenômeno
da televizinhança não foi desprezível. Poucos tinham
televisores em casa. Aos sem-TV, essa maioria de deserdados, restava correr
à casa dos que a possuíam como os famintos correm aos sopões
da caridade. O televizinho era um tipo social definido e reconhecido em
seus direitos e sua individualidade. Os próprios apresentadores
da TV se referiam a eles. Davam boa noite "aos televizinhos". Depois,
ele desapareceu. Desapareceu como, por exemplo, a figura do agregado,
tão popular nos romances do século XIX. O agregado, mal
comparando, era um televizinho sem televisão.
As famílias livraram-se do agregado. Livraram-se em seguida, acrescente-se
de passagem, do excesso de filhos e ficaram mais enxutas, para usar a
palavra que lhes conviria se famílias fossem empresas se
é que não são. Mas, na medida em que, nos lares,
se iam cortando os excessos, em matéria de seres humanos, iam-se,
inversamente, multiplicando os aparelhos de TV. Ninguém mais deixava
de tê-los. Nem mesmo os moradores de barracos. Triunfo! O televizinho
de antes agora tinha seu próprio aparelho. Foi alcançado
por ele, em seu avanço irresistível, como a maré,
ao subir, alcança a praia toda. O vocábulo que o identificava
virou forma sem conteúdo.
A era do televizinho coincidiu com os anos de inocência da televisão.
Basicamente, tal inocência consistia na crença de que televisão
era uma coisa, e vida era outra. O televizinho, assim como a amável
família que o acolhia, olhava para aquela caixinha luminosa com
deslumbramento, sim, mas também com suave distanciamento. Apreciavam
seus truques como se apreciam os truques do mágico no circo, mas
depois iam cuidar de suas existências. Reinava a ilusória
impressão de que a TV ocupava um lugar determinado no mundo, um
pedaço pequeno e restrito, de onde não tinha como extrapolar.
Admitir o contrário seria convir com a hipótese absurda
de o caleidoscópio proporcionar algo mais, na existência
de uma pessoa, do que um divertimento ligeiro para os olhos. Ou de o gramofone
ir além de produzir algs truques do mágico no circo, mas
depois iam cuidar de suas existências. Reinava a ilusória
impressão de que a TV ocupava um lugar determinado no mundo, um
pedaço pequeno e restrito, de onde não tinha como extrapolar.
Admitir o contrário seria convir com a hipótese absurda
de o caleidoscópio proporcionar algo mais, na existência
de uma pessoa, do que um divertimento ligeiro para os olhos. Ou de o gramofone
ir além de produzir alguns breves instantes agradáveis
ou desagradáveis para o ouvido.
Aquela inocente caixa de luz revelou-se muito mais que uma caixa de luz,
porém. Revelou-se uma caixa de surpresas, caixa de Pandora, caixa-preta
escolha o leitor a caixa de sua preferência. Cedo transbordou
para muito além de seu suposto lugar certo e determinado. Hoje
se conhece todo seu alcance. Não é que a televisão
tenha ocupado todos os cantos da vida. Essa também não deixa
de ser uma visão ingênua. É outra coisa: a televisão
tomou o lugar da vida. Substituiu-a. Engoliu-a e vomitou-se a si mesma
no lugar.
No doce tempo do televizinho, ocorriam fenômenos que hoje parecem
nada menos que prodigiosos. Enquanto a televisão tinha sua sede
na sala do vizinho, o Carnaval era na rua e o futebol era no campo. Sim,
meninos: o Carnaval era na rua e o futebol no campo! Aos poucos, tudo
foi entrando TV adentro, como se aquela caixa tivesse um ímã,
ou como se fosse um buraco negro a atrair a matéria cósmica
à sua volta. Hoje, tanto o Carnaval como o futebol são na
TV. Tire-se deles a TV, e será como cortar-lhes o ar. Não
sobreviverão. E a eleição? No tempo do televizinho,
a televisão ficava lá na sala, quieta, enquanto o comício
era na praça. Eleição agora também foi sugada
pelo campo gravitacional da televisão. Neste ano haverá
Copa do Mundo e eleição. Se por alguma espécie de
desgraça a televisão sumir do mundo, não haverá
nem uma nem outra. Ou melhor, pode até haver, mas serão
coisas de naturezas tão diversas das que nos habituamos que não
merecerão os mesmos nomes.
Dito o que, chegamos aos programas de TV como o chamado de Big Brother.
O Big Brother original, do romance 1984, de George Orwell, espionava
os cidadãos de modo tão sufocante que a vida ficava irrespirável.
O Big Brother de hoje é o contrário. Sem a presença
dele, sem seu olho benfazejo, aí sim é que a vida some.
Estou na TV, logo existo. A vida é representar para a câmara,
e representar para a câmara é a vida. Estar na TV, mesmo
que seja a troco de nada, sem ter nada a dizer, nem habilidade a demonstrar,
eis o programa supremo da existência. O televizinho ficaria intrigado.
Hesitaria em voltar à sala onde reinava aquela caixa.
|
|
 |
|
 |

|
 |