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Turbilhão
da crítica
Voltam
a circular as obras de Sílvio
Romero, que fez tremer a cultura
do país no começo do século XX
Jerônimo
Teixeira
AE
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| Romero:
"Não o aflige ver os miolos do adversário espalhados
pela arena" |
A cerimônia
começou de acordo com os rituais da Academia Brasileira de Letras.
Euclides da Cunha, o novo imortal, leu seu discurso de posse, um elogio
protocolar a seu antecessor, Valentim Magalhães, e a Castro Alves,
patrono da cadeira. Mas, quando o crítico Sílvio Romero
(1851-1914) subiu à tribuna para dar as boas-vindas ao autor de
Os Sertões, a ABL assistiu a um momento de iconoclastia
inédita. Romero atacou Magalhães e Castro Alves. Não
contente, fez críticas acerbas ao governo, na presença do
presidente Affonso Penna. Esse escândalo de 1906 não foi
excepcional na carreira do sergipano Romero, definido pelo professor Antonio
Candido como um "turbilhão". A editora Imago, em parceria com a
editora da Universidade Federal de Sergipe, está reeditando a obra
completa do turbilhão. Já lançou alguns volumes,
entre os quais sua produção capital, História
da Literatura Brasileira. Acaba de pôr nas livrarias outro texto
importante, Estudos de Literatura Contemporânea (536
páginas; 50 reais). É a oportunidade de conhecer
uma porção significativa do pensamento brasileiro na virada
do século XIX para o XX.
A
polêmica jornalística era um evento constante na época
de Romero. Megalômano e um tanto paranóico, ele se destacou
nesse metiê. Araripe Júnior, um de seus contendores, disse
que seus livros eram sacudidos por um "contínuo tumulto" e acrescentou:
"Se é agredido, defende-se a cacete, e não o aflige ver
os miolos do adversário espalhados pela arena". Um bom exemplo
de cacetada é o título do livro com que Romero encerrou,
em 1909, uma polêmica de três anos com o também crítico
José Veríssimo: Zeverissimações Ineptas
da Crítica Repulsas e Desabafos. Veríssimo e
Romero seguiam orientações ideológicas divergentes.
O primeiro acreditava que uma obra literária deveria ser avaliada
por seus atributos estéticos. Romero era antes crítico cultural
do que literário. No seu sistema, uma obra só tinha valor
na sua relação histórica com a sociedade que a produziu.
Preocupava-se especialmente com o caráter nacional das obras, o
que explica em parte o seu maior equívoco crítico, a monografia
Machado de Assis (1897).
Para Romero,
Machado, com seu "pessimismo de pacotilha" e seu "humorismo de almanaque",
nada traria de novo à literatura brasileira, nem responderia às
suas necessidades evolutivas. Romero conclui pela superioridade do hoje
esquecido Tobias Barreto, a quem o livro é dedicado. Tobias, como
Romero, era sergipano e havia estudado direito em Pernambuco. Os dois
fizeram parte do movimento que ficou conhecido como Escola do Recife,
responsável pela divulgação no Brasil de muitas idéias
científicas e filosóficas, especialmente o evolucionismo.
Doze anos mais velho, Tobias tornou-se uma espécie de guru para
Romero, que perdia o senso de proporção quando elogiava
o amigo.
Romero não
foi apenas um polemista hidrofóbico. Sua contribuição
ao pensamento brasileiro é grande. Pesquisador do folclore e da
literatura popular, foi dos primeiros a estudar a influência cultural
africana na formação do Brasil e criticava o romantismo
justamente por sua ênfase exagerada no indianismo. Seu pioneirismo
ao apontar a mestiçagem como elemento constitutivo da identidade
nacional seria reconhecido por Gilberto Freyre. O problema é que
Romero entendia a mestiçagem dentro de esquemas deterministas.
No limite, acreditava na superioridade dos brancos. Tanto que, muitas
vezes, usou o termo "mestiço" como um insulto.
Os pressupostos
raciais do pensamento de Romero há muito foram desmascarados como
pseudociência, e muitas das suas avaliações críticas
são equívocos flagrantes, moldadas por preconceitos de época
ou pela idiossincrasia. Mas o interesse de sua obra não é
meramente museológico. Antonio Candido fala de uma "força
estranha" que mantém Romero atual. Isso é particularmente
verdade para o campo da historiografia literária, que ainda se
vale de alguns de seus esquemas em História da Literatura Brasileira.
A vitalidade de Romero também está ligada ao seu polemismo
compulsivo. Ele percebia a vida intelectual como uma arena pública,
na qual o que se diz não só pode, como deve fazer diferença.
Sua atitude combativa e sua crítica ampla fazem falta hoje em dia.
"Só a crítica implacável nos pode salvar", escreveu
certa vez Sílvio Romero. O preceito ainda vale.
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SEM
MEIAS PALAVRAS
Algumas
das opiniões polêmicas do crítico Sílvio
Romero
"Machado
de Assis repisa, repete, torce, retorce tanto suas idéias
e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão de
um eterno tartamudear. Esse vezo é o resultado de uma lacuna
do romancista nos órgãos da palavra."
Em
Machado de Assis (1897)
"Em
prosa falada ou escrita, no estilo fluente, imaginoso, poético,
e no gracioso e humorístico, Machado de Assis não
é superior a Tobias Barreto; é-lhe sempre inferior."
Em
Machado de Assis (1897)
"Se
a alguém no Brasil se pudesse conferir o título de
fundador da nossa literatura, esse deveria ser Gregório de
Matos Guerra. Foi filho do país, teve mais talento poético
do que Anchieta; foi mais do povo; foi mais desabusado, mais mundano;
produziu mais e num sentido mais nacional."
Em
História da Literatura Brasileira (1888)
"Cruz e Souza é o caso único
de um negro, um negro puro, verdadeiramente superior no desenvolvimento
da cultura brasileira."
Em
Evolução do Lirismo Brasileiro (1906)
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