Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
Artes e Espetáculos Livros
 

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
  A guerrilha de Silvio Santos contra a Globo
Os marombados do vídeo
O Homem que Não Estava Lá, dos irmãos Coen
Entre Quatro Paredes, com Sissy Spacek
Igor Cavalera, o estilista
Rodolfo, ex-Raimundos, o pregador
Relançadas as obras do crítico Sílvio Romero

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

Turbilhão da crítica

Voltam a circular as obras de Sílvio
Romero, que fez tremer a cultura
do país no começo do século XX

Jerônimo Teixeira

 
AE
Romero: "Não o aflige ver os miolos do adversário espalhados pela arena"

A cerimônia começou de acordo com os rituais da Academia Brasileira de Letras. Euclides da Cunha, o novo imortal, leu seu discurso de posse, um elogio protocolar a seu antecessor, Valentim Magalhães, e a Castro Alves, patrono da cadeira. Mas, quando o crítico Sílvio Romero (1851-1914) subiu à tribuna para dar as boas-vindas ao autor de Os Sertões, a ABL assistiu a um momento de iconoclastia inédita. Romero atacou Magalhães e Castro Alves. Não contente, fez críticas acerbas ao governo, na presença do presidente Affonso Penna. Esse escândalo de 1906 não foi excepcional na carreira do sergipano Romero, definido pelo professor Antonio Candido como um "turbilhão". A editora Imago, em parceria com a editora da Universidade Federal de Sergipe, está reeditando a obra completa do turbilhão. Já lançou alguns volumes, entre os quais sua produção capital, História da Literatura Brasileira. Acaba de pôr nas livrarias outro texto importante, Estudos de Literatura Contemporânea (536 páginas; 50 reais). É a oportunidade de conhecer uma porção significativa do pensamento brasileiro na virada do século XIX para o XX.


A polêmica jornalística era um evento constante na época de Romero. Megalômano e um tanto paranóico, ele se destacou nesse metiê. Araripe Júnior, um de seus contendores, disse que seus livros eram sacudidos por um "contínuo tumulto" e acrescentou: "Se é agredido, defende-se a cacete, e não o aflige ver os miolos do adversário espalhados pela arena". Um bom exemplo de cacetada é o título do livro com que Romero encerrou, em 1909, uma polêmica de três anos com o também crítico José Veríssimo: Zeverissimações Ineptas da Crítica – Repulsas e Desabafos. Veríssimo e Romero seguiam orientações ideológicas divergentes. O primeiro acreditava que uma obra literária deveria ser avaliada por seus atributos estéticos. Romero era antes crítico cultural do que literário. No seu sistema, uma obra só tinha valor na sua relação histórica com a sociedade que a produziu. Preocupava-se especialmente com o caráter nacional das obras, o que explica em parte o seu maior equívoco crítico, a monografia Machado de Assis (1897).

Para Romero, Machado, com seu "pessimismo de pacotilha" e seu "humorismo de almanaque", nada traria de novo à literatura brasileira, nem responderia às suas necessidades evolutivas. Romero conclui pela superioridade do hoje esquecido Tobias Barreto, a quem o livro é dedicado. Tobias, como Romero, era sergipano e havia estudado direito em Pernambuco. Os dois fizeram parte do movimento que ficou conhecido como Escola do Recife, responsável pela divulgação no Brasil de muitas idéias científicas e filosóficas, especialmente o evolucionismo. Doze anos mais velho, Tobias tornou-se uma espécie de guru para Romero, que perdia o senso de proporção quando elogiava o amigo.

Romero não foi apenas um polemista hidrofóbico. Sua contribuição ao pensamento brasileiro é grande. Pesquisador do folclore e da literatura popular, foi dos primeiros a estudar a influência cultural africana na formação do Brasil – e criticava o romantismo justamente por sua ênfase exagerada no indianismo. Seu pioneirismo ao apontar a mestiçagem como elemento constitutivo da identidade nacional seria reconhecido por Gilberto Freyre. O problema é que Romero entendia a mestiçagem dentro de esquemas deterministas. No limite, acreditava na superioridade dos brancos. Tanto que, muitas vezes, usou o termo "mestiço" como um insulto.

Os pressupostos raciais do pensamento de Romero há muito foram desmascarados como pseudociência, e muitas das suas avaliações críticas são equívocos flagrantes, moldadas por preconceitos de época ou pela idiossincrasia. Mas o interesse de sua obra não é meramente museológico. Antonio Candido fala de uma "força estranha" que mantém Romero atual. Isso é particularmente verdade para o campo da historiografia literária, que ainda se vale de alguns de seus esquemas em História da Literatura Brasileira. A vitalidade de Romero também está ligada ao seu polemismo compulsivo. Ele percebia a vida intelectual como uma arena pública, na qual o que se diz não só pode, como deve fazer diferença. Sua atitude combativa e sua crítica ampla fazem falta hoje em dia. "Só a crítica implacável nos pode salvar", escreveu certa vez Sílvio Romero. O preceito ainda vale.

 

SEM MEIAS PALAVRAS

Algumas das opiniões polêmicas do crítico Sílvio Romero

"Machado de Assis repisa, repete, torce, retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem, que deixa-nos a impressão de um eterno tartamudear. Esse vezo é o resultado de uma lacuna do romancista nos órgãos da palavra."

Em Machado de Assis (1897)


"
Em prosa falada ou escrita, no estilo fluente, imaginoso, poético, e no gracioso e humorístico, Machado de Assis não é superior a Tobias Barreto; é-lhe sempre inferior."

Em Machado de Assis (1897)


"
Se a alguém no Brasil se pudesse conferir o título de fundador da nossa literatura, esse deveria ser Gregório de Matos Guerra. Foi filho do país, teve mais talento poético do que Anchieta; foi mais do povo; foi mais desabusado, mais mundano; produziu mais e num sentido mais nacional."

Em História da Literatura Brasileira (1888)


"Cruz e Souza é o caso único de um negro, um negro puro, verdadeiramente superior no desenvolvimento da cultura brasileira."

Em Evolução do Lirismo Brasileiro (1906)

 

   
canaldecompras
O que é canal de compras
CDs DVDs Vídeos
Saraiva.com.br
 
Livros
Saraiva.com.br
Livraria Nobel
 
Ingressos
Ingresso.com.br
 
   
  voltar
   
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS