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...e o pregador

Rodolfo, ex-Raimundos, continua
a fazer rock pesado. Só que com
letras cheias
de mensagens religiosas

Sérgio Martins

 


Rodolfo: as plantinhas já não morrem dentro de seu apartamento


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Trechos (em áudio) da entrevista concedida por Rodolfo ao subeditor de VEJA Sérgio Martins.
Para ouvir: músicas dos Raimundos na formação original do grupo, que incluía o agora evangélico Rodolfo.

Durante os nove anos em que esteve à frente do grupo brasiliense de rock Raimundos, Rodolfo Abrantes, de 29 anos, seguiu à risca o manual de comportamento do roqueiro tradicional. Bebeu em quantidades pantagruélicas, fumou hectares de maconha e farreou incansavelmente. Em fevereiro do ano passado, contudo, ele optou por rasgar essa cartilha. Virou evangélico e, quatro meses depois da conversão, anunciou sua saída do grupo. Gandaia, hoje, nem pensar. É o que ele diz – e as pessoas em torno dele confirmam. Rodolfo só não abandonou o gosto pelo som rápido e pesado que fazia no tempo dos Raimundos. A prova disso está no CD Estreito, que chega às lojas nesta semana e marca a estréia de sua nova banda, a Rodox. O disco está repleto de guitarras estridentes e vocais gritados. Já as letras são de um pregador da palavra divina. Os diretores da gravadora WEA, a mesma dos Raimundos, apelidaram seu novo estilo de HCC – Hardcore de Crente. Rodolfo repudiou os palavrões que intercalava a cada duas sílabas e tornou-se adepto dos "versos com mensagem". Eis uma palinha de uma das letras: "É por amor que ainda existo / Novo e renascido em Cristo / Mais um cego em Jericó". A música se chama Cego de Jericó e se inspira num trecho do Novo Testamento. "Virei um devorador de histórias bíblicas", diz Rodolfo.

A saída de Rodolfo dos Raimundos representou um golpe ainda longe de cicatrizar. O cantor não só largou uma das bandas mais bem-sucedidas do rock brasileiro, como ainda anunciou sua decisão em meio às entrevistas para a divulgação de um DVD. As relações entre Rodolfo e seus ex-companheiros nunca mais foram as mesmas depois disso. Eles quase chegaram às vias de fato durante uma reunião na sede da gravadora para decidir o futuro da banda. Sem Rodolfo, os raimundos remanescentes lançaram no segundo semestre do ano passado um disco de sobras chamado (ironicamente) Éramos Quatro. Foi um fracasso. Rodolfo, que não se sente vingado com o fato, acha que houve preconceito na maneira como seus colegas receberam a notícia de sua saída da banda. "Disseram que eu estava louco. Isso porque, para muita gente, o rock é uma instituição que obriga o músico a seguir determinados tipos de comportamento. É uma espécie de conservadorismo ao contrário."

Rodolfo entra em estado de graça quando fala dos efeitos da conversão em sua vida. "Minha casa tinha um clima pesado. Até as plantinhas morriam. Graças a Deus, o ambiente se purificou." Hoje, mantém um fragmento de Mata Atlântica em seu apartamento de dois quartos, num bairro de classe média em São Paulo – além de dois cachorros da raça schnauzer. Rodolfo oficializou sua união com a ex-hostess Alexandra Horn, que se converteu na mesma época que ele. E afirma que o relacionamento com os pais melhorou bastante. "Antigamente, eu só agüentava uma reunião de família depois de fumar maconha. Passei o último Natal careta e foi ótimo", celebra. Segundo o diretor artístico da gravadora WEA, Tom Capone, tornou-se mais fácil trabalhar com o rapaz. "Eu fui uma daquelas pessoas que achavam que ele tinha enlouquecido. Mas ele está mais antenado hoje. Melhorou", elogia o executivo. Parafraseando o poeta Carlos Drummond de Andrade: mundo, mundo, vasto mundo, se Rodolfo fosse um raimundo, ele só encontraria uma rima, não uma solução.

   
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