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Os novos donos
da educação

Com preços competitivos e garantia de
boas chances no vestibular, as franquias
escolares dominam o ensino privado

Gabriela Carelli

 
Claudio Rossi

Aula virtual em um dos colégios do Objetivo: tecnologia, apostilas de primeira linha e treino de professores são os principais itens do pacote oferecido às escolas pelo sistema de franquia


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Por que eles foram os primeiros.

Lucas Martins Zomignani Mendes, o estudante que tirou o primeiro lugar em três dos mais difíceis vestibulares do país, estudou durante nove anos, até o 2º colegial, no Colégio Antares, fundado por seus pais e alguns vizinhos em Goiatuba, cidade de 40.000 habitantes a 200 quilômetros de Goiânia. Quando esse grupo de pais decidiu providenciar para os filhos ensino de qualidade no interior de Goiás, não tentou reinventar a roda – eles simplesmente compraram um pacote educacional pelo sistema de franquia. O colégio Antares não é um caso isolado. Para quem tem um filho em escola privada do ensino fundamental e médio, as chances são de uma em três de que o adolescente ou jovem esteja sendo educado por um dos seis maiores sistemas pedagógicos do Brasil. O Positivo, com sede em Curitiba, o Objetivo, de São Paulo, o Pitágoras, de Belo Horizonte, os paulistas COC e Anglo e o paranaense Expoente vendem seus serviços para 4.000 escolas, com 80.000 professores e 1,5 milhão de alunos. Juntos, eles movimentam 6 bilhões de reais por ano, o que significa um negócio maior que o da laranja no Brasil, incluindo as exportações do cítrico.

Há duas ou três explicações para a fulminante expansão das franquias escolares. A principal delas é o vestibular. A prioridade de todo pai brasileiro é turbinar as chances do filho no funil do ensino superior. A rede pública não oferece, de modo geral, ensino de qualidade que garanta a aprovação. A maioria das escolas privadas também não é grande coisa nesse quesito. As redes nasceram timidamente de cursinhos pré-vestibulares há duas décadas e, se hoje têm um sistema pedagógico para vender, é porque suas marcas se converteram em sinônimo de sucesso no vestibular. Como nos cursinhos, elas condensam o material didático em apostilas para facilitar o aprendizado e focam o que costuma cair no vestibular. Mas não é só isso. O pacote inclui metodologia de ensino, grade curricular, material didático, treinamento de professores, assessoria na gestão administrativa e a respeitabilidade de uma marca consolidada – recursos que um colégio isolado teria dificuldade para desenvolver de modo satisfatório.

 
Fotos Daniela Picoral

Produção de material didático: as principais redes de ensino imprimem 30 milhões de livros e apostilas por ano

A escola em que Lucas Mendes estudou é franqueada do grupo Positivo, o maior do Brasil. Essa rede está presente em todos os Estados, com mais de 2.000 estabelecimentos conveniados. Criado em 1972 como um cursinho especializado no vestibular de medicina por Oriovisto Guimarães, um engenheiro que lecionava matemática, o Positivo fatura hoje 285 milhões de reais por ano e tem a segunda maior gráfica do país. O carro-chefe das redes educacionais é a venda de material didático, cujo conteúdo é considerado de boa qualidade até por quem torce o nariz ao sistema. "Acho que foram as apostilas que fizeram Lucas chegar em primeiro lugar", concede Mauro Aguiar, diretor do Colégio Bandeirantes, escola de primeira linha em São Paulo. Os 43,8 milhões de crianças e jovens matriculados no ensino fundamental e médio brasileiro, quando podem pagar por serviços de elite, dispõem de alternativa bem melhor que a oferecida pelas redes: podem ingressar nas instituições tradicionais e respeitadas, que são as melhores do país. São escolas de currículo puxado e professores com bons salários e nível muito mais elevado que o dos colegas dos colégios mais modestos. Ocorre que essas escolas de qualidade não chegam a 5% dos estabelecimentos particulares. E são caras.

O normal é que os terceiranistas do paulistano Colégio Santa Cruz, um dos melhores do Brasil, cheguem à universidade sem fazer cursinho. O tradicionalíssimo Colégio de São Bento é o campeão em aprovações na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nas escolas de elite, a mensalidade anda em torno dos 1.000 reais – e esse é o problema. Paga-se metade disso nos mais bem-sucedidos colégios que integram redes de ensino como as do Positivo, Pitágoras e Objetivo. Livros e apostilas também saem mais em conta nessas escolas de franquia. Como operam em escala industrial, as redes têm recursos para investir em equipamentos e contratar bons professores sem precisar com isso encarecer em demasiado o custo por aluno. É claro que não se deve esperar dessa versão industrial de ensino grande preocupação com a formação cultural, cívica e religiosa do estudante, objetivos que adicionam qualidade aos estabelecimentos tradicionais. A alma do negócio das redes é concentrar-se no preparo do aluno para o tudo ou nada do vestibular. "O preparo para a vida nas escolas de elite é bem maior", diz a educadora Guimar Namo de Mello, do Conselho Nacional de Educação.

 

Hora da saída em um colégio da rede Positivo: os seis principais franqueadores somam 4 000 escolas, 80 000 professores e 1,5 milhão de alunos

Ainda assim, o sistema de rede está produzindo uma revolução silenciosa na educação privada brasileira. Pela primeira vez se está oferecendo aos estudantes de rincões afastados o padrão de ensino dos centros prósperos do Sudeste. Com seus produtos feitos em série, as redes conseguiram uniformizar para melhor a qualidade da escola particular de norte a sul do Brasil. Uma aluna do Colégio Objetivo em Boa Vista, capital de Roraima, recebe a mesma educação de um estudante que freqüenta a sede do grupo em São Paulo. Já é impossível encontrar um Estado que não disponha de escolas atreladas ao Positivo e ao Objetivo, as duas maiores redes, com 900.000 alunos. O mineiro Pitágoras, com 150.000, está presente em 25 dos 27 Estados brasileiros. O COC, de Ribeirão Preto, no interior paulista, concentra uma fatia considerável de seus 170.000 alunos no Nordeste. Há cinco anos, Márcia de Souza, diretora de uma escola em Macapá, no Amapá, comprou um pacote Pitágoras. Antes de se decidir por uma franquia, ela tentou criar por conta um método para 480 interessados. Pagou salários fora dos padrões a professores vindos de São Paulo até concluir que não tinha cacife financeiro para bancar a operação. Desde que entrou em rede, sua escola triplicou de tamanho. É a maior da cidade, com 1.200 alunos, e tem a reputação de ser um trampolim para as melhores universidades. Cerca de 70% dos estudantes passam na faculdade. "Hoje tem gente na fila de espera no primário para ver o filho se formar aqui", diz ela.

A escola-parceira pode comprar o pacote completo ou apenas alguns itens, como materque entrou em rede, sua escola triplicou de tamanho. É a maior da cidade, com 1.200 alunos, e tem a reputação de ser um trampolim para as melhores universidades. Cerca de 70% dos estudantes passam na faculdade. "Hoje tem gente na fila de espera no primário para ver o filho se formar aqui", diz ela.

A escola-parceira pode comprar o pacote completo ou apenas alguns itens, como material didático ou assessoria pedagógica. Dessa forma, o custo varia bastante. Pode ir de 20 a 300 reais por aluno, dependendo da série e dos opcionais tecnológicos. Uma sala para projeção em terceira dimensão e laboratórios de química saem por 100.000 reais. As grandes redes possuem editoras próprias e uma complexa infra-estrutura de entrega, que inclui caminhões e aviões. Só na gráfica paulista do Objetivo são impressos 9,5 milhões de livros e apostilas por ano. É possível que, sem o advento das redes educacionais, o ensino particular no Brasil estivesse aos frangalhos. De acordo com dados preliminares do censo realizado pelo Ministério da Educação, o número de matrículas no ensino básico da rede privada em 2001 era quase 10% menor que o de dez anos atrás. Isso não apenas porque aumentou o número de vagas na rede pública mas também porque muitos pais fugiram do reajuste das mensalidades acima da inflação. Um estudo concluído pela Associação Nacional de Mantenedoras de Escolas Católicas do Brasil revelou que essas instituições, que dominaram o ensino de qualidade até os anos 60, perderam 20% de seus alunos entre 1995 e 2000, a maioria para as redes. Mais de 130 estabelecimentos foram fechados nesse período. Os colégios passaram a roubar alunos uns dos outros e está mais bem colocado na luta pela sobrevivência aquele que oferecer metodologia com índice comprovado de sucesso no vestibular. "Desde o fim da década de 80, a escola tem um diferencial ou fecha de tanto perder alunos", diz o deputado federal Walfrido dos Mares Guia, um dos donos do Pitágoras.

A tecnologia é uma peça importante no marketing agressivo das redes. "Nossa estrutura permite luxos como informar os responsáveis pelo sistema wap de celulares se o filho está cabulando a aula", diz Chaim Zaher, dono do COC. "Isso é uma vantagem e tanto num mundo em que os pais não têm tempo de acompanhar os filhos." De modo geral, as redes procuram manter minucioso controle de qualidade nas franqueadas. Se o corpo docente for um fiasco e o treinamento não mostrar resultado, a matriz pode exigir a troca dos docentes ou descredenciar a escola. "A receita do sucesso é aluno feliz e pai satisfeito", afirma João Carlos Di Genio, dono do Objetivo. "Demitimos e rompemos contratos para segui-la à risca." A marca Objetivo foi criada por ele e outros quatro médicos, em 1965, numa saleta no centro de São Paulo. A primeira "parceria" foi assinada dez anos depois, em Bauru. Hoje são 595. O COC nasceu com o nome de Curso Oswaldo Cruz, em 1963, e hoje tem 128 escolas. O mineiro Pitágoras começou em 1966 numa sala em Belo Horizonte com 35 alunos. Primeiro virou colégio e começou sua expansão de modo inusitado: abriu escolas para filhos de brasileiros que trabalhavam em obras de empreiteiras no exterior. Chegou a ter 14.000 alunos no Iraque. Hoje são 310 estabelecimentos franqueados.

No rastro do sucesso das pioneiras, surgiram pelo menos vinte outras redes educacionais. Os grupos Expoente e Anglo somam juntos mais de 200.000 alunos, o que os coloca no primeiro time. A maioria das outras franqueadoras tem menos de 40.000 matriculados cada uma. Por motivos óbvios, as redes caminham para o ensino superior. Só em 2002, 8,2 milhões de jovens vão concluir o ensino médio. Em dois anos devem chegar a 10,5 milhões. "Quem tiver uma universidade privada com vagas suficientes para atender a essa demanda terá a galinha dos ovos de ouro", diz Oliver Mizne, analista da Ideal Invest, a principal consultoria especializada em negócios na área de educação. A empresa estuda setenta projetos de investimento estrangeiro no Brasil, boa parte deles nas redes. O Pitágoras já fechou um contrato com o Apollo International, o maior grupo de investimentos em educação, com sede nos Estados Unidos. A Unip, do Objetivo, é a maior universidade privada do país em número de alunos, com 88.000. A UnicenP, braço universitário do Positivo, tem 7.000 matriculados em 24 cursos de graduação. Em 2000, o COC inaugurou sua primeira faculdade em Ribeirão Preto, com doze cursos e 1.000 alunos.

As redes surgiram porque a prova do vestibular era muito previsível. Agora, começam a pensar como vão acompanhar as mudanças no processo seletivo. O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que avalia o que o aluno aprendeu nos anos do ensino médio, já é aproveitado no processo seletivo de 300 faculdades. Por isso, em seus anúncios, as redes estão alardeando ser campeãs no Enem. Também fazem planos para oferecer aos alunos um pacote completo, do ensino fundamental ao superior dentro da rede, sem necessidade de vestibular. As franqueadoras são mesmo as novas donas da educação no Brasil.

   
 

 


Fonte: estimativas Ideal Invest e redes de ensino

 

   
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