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Como os
campeões dos vestibulares se
Rosana Zakabi, de Goiatuba
Nesta virada de ano, 4,1 milhões de jovens brasileiros passaram por um rito de iniciação crucial para seu sucesso na vida adulta. Eles disputaram 1,1 milhão de vagas nas 1.180 instituições de ensino superior do Brasil. É um desafio e tanto, visto que há quatro candidatos para cada vaga. O funil torna-se ainda mais estreito em torno de uma dezena de universidades de grande prestígio, que aliam a excelência acadêmica com o benefício de serem gratuitas. O simples fato de nesse grupo seleto de instituições terem se apresentado 477.000 candidatos para apenas 32.270 vagas já seria suficiente para eliminar a possibilidade de um estudante despreparado passar por pura sorte. Mas não é só isso. Os vestibulares dessas escolas de elite são elaborados para ser os mais exigentes, de modo a selecionar os melhores estudantes. Os resultados dessas provas muitos deles só divulgados na semana passada fornecem uma oportunidade excepcional para conhecer os expoentes de uma geração de jovens mais bem preparada para os desafios da vida moderna que qualquer outra no passado. Esse tipo de estudante, dono de impressionante carga de informações sobre o mundo, é produto de várias coisas. Recebe mais informações pela imprensa e pela internet, em sua família é alimentado pelas experiências de pai e mãe profissionalizados num ambiente de alta competição e de crescente complexidade, faz cursos de línguas mais cedo, viaja rotineiramente para todos os lugares, dispõe de um rol de lazer maior e, além disso tudo, estuda numa teia de colégios que, na média, está a anos-luz do que havia por aí duas ou três décadas atrás. Na semana passada, repórteres de VEJA conversaram em vários Estados com os mais destacados representantes dessa geração. São jovens que passaram em primeiro lugar em sete dos vestibulares mais concorridos do país. (A lista dos dez mais disputados ficou incompleta porque duas das principais universidades federais, paralisadas durante parte do ano por greves de professores e funcionários, adiaram seus vestibulares e a terceira não divulga classificação de suas provas.) O que se encontrou foram jovens de talentos múltiplos, competitivos e com idéias bem articuladas. Sem que por isso tenham aberto mão dos esportes, da diversão e do namoro. O estereótipo do melhor aluno como um jovem CDF, sigla que no jargão juvenil define o estudante que se afasta das atividades normais da idade para se enterrar em apostilas, não tem espaço entre os campeões do vestibular. O estudante excelente é tipicamente um jovem como Lucas Martins Zomignani Mendes, 18 anos, que foi o primeiro colocado em três dos mais concorridos vestibulares do país, os da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade de Campinas (Unicamp) e Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Lucas foi aprovado também no concorridíssimo exame de seleção do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), que não divulga a ordem de aprovação dos candidatos. Somando os candidatos das três universidades em que tirou primeiro lugar, ele superou 200.000 concorrentes. Na terça-feira passada, Lucas fez sua opção e se matriculou no curso de engenharia da Escola Politécnica da USP, em São Paulo. Fez isso porque lá pode deixar para escolher mais tarde entre quinze carreiras. "As pessoas saem da faculdade com a única intenção de conseguir um emprego, quando na verdade as escolas deveriam ensinar as pessoas a ser empreendedoras", diz Lucas. "Pretendo sair da escola como um empreendedor, procurando oportunidades para gerar empregos para outras pessoas." Antes de ter a cabeça raspada pelos veteranos da engenharia, como é praxe na Politécnica, Lucas tinha o cabelo em estilo rastafári, cheio de trancinhas. Ele nasceu em Jundiaí, em São Paulo, mas desde os 7 anos mora em Goiatuba, a 200 quilômetros de Goiânia, em Goiás. Com 40.000 habitantes e apenas três edifícios altos, Goiatuba é cercada por plantações de milho e soja. Não tem semáforos e conta somente com quatro escolas particulares. Sua família mudou-se para lá porque o pai dele, Maurício Mendes, tem negócios ligados ao beneficiamento de soja na região. Com poucas opções educacionais, os pais de Lucas tiveram uma idéia: montar a própria escola para Lucas e seu irmão Renan, quatro anos mais jovem. O casal e duas dezenas de pais da cidade criaram uma cooperativa em 1992. Contrataram a rede de ensino Positivo, de Curitiba, que forneceu todo o material didático e treinou os professores. O Colégio Antares, como foi chamado, começou com 100 alunos e hoje tem 450. Lucas estudou lá durante nove anos. "Toda minha formação vem do Antares", diz. No terceiro colegial, ele foi para o colégio WR, um dos melhores de Goiânia. O que há de significativo nessa história é a descoberta de uma nova geografia no país. A sociedade brasileira atingiu um estágio capaz de fornecer educação e informações de primeira linha numa cidade do cerrado goiano (leia mais sobre a expansão das redes de ensino).
A existência de boa educação não significa apenas dispor de material didático ou ensinar truques para passar no vestibular. O processo de seleção das melhores universidades foi elaborado para eliminar exatamente aquele estudante que só sabe decorar. O aluno de um centro de excelência precisa ser capaz de pensar sobre o que aprendeu. "Queremos um aluno que conheça bem o conteúdo do ensino médio e seja capaz de analisar situações do cotidiano a partir dele", diz José Coelho Sobrinho, coordenador da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), responsável pela prova da USP. "Isso elimina automaticamente o estudante que apenas decora fórmulas e datas." Lucas é um campeão do vestibular graças a seus múltiplos talentos, e certamente muitos são inatos. O que faz dele e de outros jovens de sua geração estudantes magníficos é a combinação de disciplina nos estudos com uma carga ampla de informações.
Nesse aspecto, o valor que a família dá ao estudo e à cultura tem papel decisivo. Os pais de Lucas, ambos com formação universitária, gostam de relembrar que ele aprendeu a ler aos 4 anos de idade tentando desvendar o letreiro de uma sorveteria. "Meus pais sempre me deram muita oportunidade de ler, de ter contato com a internet, de assistir a bons filmes, de ter vários discos, de viajar muito", diz ele. Para a mãe, Telma Mendes, que é analista de sistemas e trabalha na empresa da família, um dos segredos para dar boa educação aos filhos é não economizar em livros. "Às vezes eu comprava uma obra só pela capa e deixava à disposição das crianças", lembra. Há quatro anos, Lucas fez um curso de astronomia de uma semana numa das unidades da agência espacial americana, a Nasa, nos Estados Unidos. "O que eu mais gosto de fazer durante as viagens é visitar os museus de ciência", conta. "É educação interativa: você entra, você toca naquilo, ouve, é um jeito muito gostoso de aprender."
Lucas gosta de ler, com preferência para o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, e para o americano John Grisham, autor de histórias policiais. Em relação ao cinema, outra de suas paixões, espera ansioso pela estréia do filme do Homem Aranha. No ano passado, morou em Goiânia numa república com outros dois colegas. Não estudava muitas horas por dia, mas o fazia com disciplina. "Lia e resolvia os exercícios por quinze minutos ou por duas horas, dependendo da matéria. O que importa não é o número de horas a que você se dedica, mas o seu plano de estudos", diz. Ele gostava de estudar ouvindo rock (Oasis, U2, Titãs e Skank) no último volume, deitado no chão. Depois, para relaxar, praticava squash ou tênis. Durante o período em que se preparou para o vestibular, raramente estudou nos fins de semana. Aos sábados, voltava para Goiatuba ou ensaiava com sua banda de rock, a Melanogaster. Lucas toca baixo e seu irmão, Renan, guitarra. Longe de casa, a dieta básica do campeão era composta de Miojo, ovo frito e macarrão com sardinha e atum. "Só não tomo refrigerante, café e bebidas alcoólicas porque aí é demais", afirma ele. "Se você perguntar se eu sou um CDF, eu digo que não e ainda fico ofendido, porque eu nunca estudei quantitativamente", diz. "Para mim, CDF é o cara que abre mão da vida para se dedicar somente aos livros, e esse não é o meu caso." Lucas fala inglês com fluência, arranha italiano e francês e toca flauta transversal, um de seus passatempos prediletos há 12 anos. Ele namora a estudante goiana Maria Luiza Rios, de 17 anos, que espera o resultado do vestibular de direito. Há um mês, Lucas descobriu que tem 1,5 grau de miopia no olho esquerdo e passou a usar óculos.
Educação é um processo acumulativo, não apenas para os indivíduos, mas também para as famílias e para toda a sociedade. No início dos anos 60, quando o sistema universitário brasileiro oferecia apenas 100.000 vagas, só uma minoria de abastados podia exibir diplomas universitários. Hoje, o perfil de quem tira primeiro lugar nos vestibulares mais concorridos coincide com o fato de todos terem pai e mãe com curso universitário. São famílias que dão valor à educação e têm presença ativa no desenvolvimento cultural dos filhos. Os estudantes, por sua vez, souberam desenvolver o hábito da leitura e dominam pelo menos uma língua estrangeira. É interessante que todos considerem improdutivo mergulhar desesperadamente no estudo durante a preparação para a prova. "Jamais virei uma noite estudando, isso não rende", diz Eduardo Famini Silva, 18 anos, primeiro colocado no ultraconcorrido vestibular do Instituto Militar de Engenharia do Rio de Janeiro (IME). Como Lucas, Eduardo foi aprovado no ITA. Nascido no Rio e criado na Bahia, Eduardo estudou no Colégio Militar de Salvador. Seu pai é engenheiro e a mãe, hoje dona-de-casa, formou-se em letras. Disciplinado como um soldado, Eduardo dispensou o cursinho e tomou para si a tarefa de se preparar para as provas. Em alguns momentos chegou a estudar seis horas diárias além das cinco do colégio. "Quando cansava, pensava nos concorrentes que estavam estudando e tirava força disso." Na disputa em que saiu vencedor absoluto, enfrentou 3.877 rivais de vários Estados que competiam por apenas 100 vagas. No ITA classificou-se depois de passar por um funil concorrendo com 8.289 candidatos a um dos 120 lugares. Acostumado à ginástica das escolas militares, Eduardo só teve tempo, no ano passado, para jogar umas poucas partidas de futebol. A brasiliense Aline Catunda de Clodoaldo Pinto, de 18 anos, primeira colocada no vestibular da Universidade de Brasília (UnB) no curso de medicina, passou por um moedor de candidatos em que a concorrência é de 83 vestibulandos por vaga. "Havia tentado passar em 2000 e no meio de 2001 e não consegui. Estudava como uma maluca. Depois da segunda reprovação, relaxei. O resultado está aí", diverte-se Aline. Filha de um auditor da Receita Federal e de uma funcionária aposentada do Banco do Nordeste, Aline tem quatro irmãos um deles formado e outro estudando na mesma UnB e montou um esquema especial de estudo. "Em casa havia a geladeira, a cama, o telefone, que não paravam de me distrair", conta. "Ia para a sala de leitura da Legião da Boa Vontade. Era o refúgio da turma que queria estudar em paz." Para descarregar a tensão, Aline aderiu ao boxe no último mês antes das provas. "Aprendi que tranqüilidade é tudo. Não adianta ser uma enciclopédia ambulante e ficar nervosa na hora da prova", diz.
O campeão do vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Breno Córdova Matte, de 17 anos, aprovado no curso de medicina, estudou numa das escolas mais tradicionais do Sul, o Colégio Anchieta. Filho de uma médica e de um advogado, Breno não embarcou na neurose que acomete a maioria dos vestibulandos. "Meus pais deixaram claro que o vestibular não era a coisa mais importante do mundo, e o fato de não ter de enfrentar cobranças me ajudou muito", diz ele. "Eu até usava o escritório deles em casa para estudar escutando as músicas de que gosto." Como todos os primeiros colocados nos principais vestibulares, Breno foi um excelente aluno no ensino médio ficou em recuperação uma única vez, em religião, exatamente no terceiro colegial. "Preferi assistir a um filme no vídeo a fazer o trabalho final de avaliação", lembra. O pernambucano Ruben Corrêa de Oliveira Andrade Filho, de 18 anos, campeão da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), também estudou em um tradicional colégio católico do Recife, o Santa Maria. Neto e sobrinho de médicos, sempre quis cursar medicina. Ruben ficou à frente do segundo colocado por apenas um centésimo de ponto. Tirou 9,15, contra 9,14. "Não existe fórmula certa para passar no vestibular. É apenas uma questão de dedicação para não fugir dos objetivos, apoio das pessoas que nos cercam e até um pouco de sorte", avalia. Devido ao espetacular crescimento da quantidade de estudantes no ensino médio, que dobrou nos últimos sete anos, a demanda por vagas no ensino superior é assombrosa. A resposta do governo federal tem sido estimular a abertura de faculdades privadas. Das 1.180 instituições de ensino superior, 1.004 são particulares, 61 públicas federais e 61 públicas estaduais. É natural que a disputa seja maior pelas públicas, que são gratuitas e têm maior tradição. O que fica evidente no grupo de campeões de 2002 é que o sistema de vestibular das principais instituições públicas, por mais massacrante que seja para os candidatos, está cumprindo a missão de selecionar os melhores. É um sinal positivo para o país.
Com
reportagem de Gabriela
Carelli e Natasha Madov,
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