
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|
A seca é fogo
Pesquisa
na Amazônia demonstra que
três estiagens seguidas podem causar
danos irrecuperáveis à floresta

Leonardo
Coutinho
Foto: Janduari Simões
 |
Depois de
três anos fazendo uma experiência que simula seca intensa
numa área de 1 hectare de mata virgem, o biólogo brasileiro
Paulo Moutinho e seu colega americano Daniel Nepstad já têm
a primeira conclusão: a Amazônia não resistiria a
um período igual de estiagem. Se vier a acontecer a repetição
do fenômeno conhecido como El Niño por três anos consecutivos,
mais da metade da floresta pode se tornar combustível para a mais
espantosa fogueira que já se viu na Terra. Em 1998, última
ocasião em que ocorreu o El Niño em resumo, o aquecimento
das águas do Oceano Pacífico que influencia o clima de todo
o planeta , um terço da região amazônica esteve
sob grande risco de combustão. Em Roraima, foram queimados quase
4 milhões de hectares, no maior incêndio da história.
Veja quadro que ilustra
como apenas uma seca acentuada afetou a Amazônia.
Na experiência,
os especialistas do Centro de Pesquisa Woods Hole, de Massachusetts, nos
Estados Unidos, da Embrapa e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia
cobriram a área do estudo com 6.000
painéis de plástico alinhados a 2 metros do chão,
permitindo que apenas metade do volume regular de água das chuvas
se infiltre no solo. A idéia é manter esse laboratório
a céu aberto até que toda a floresta definhe, mas bem antes
de chegar a esse ponto já há descobertas não muito
animadoras. A primeira delas é que a água contida na massa
vegetal e no solo não é suficiente para manter o ciclo da
vida em equilíbrio depois de um ano de estiagem. Ao entrar no segundo
ano, as plantas pararam de crescer e tiveram comprometimento de 80% na
propriedade de realizar a fotossíntese. Isso significa que perderam,
além da capacidade de se alimentar, a de reter o carbono presente
na atmosfera. Daí em diante vem a perda de folhas e mais sol passa
pela copa das árvores, o que acelera o processo de desidratação.
Em seguida, a vegetação morre.
A pesquisa
demonstra como se pode perder uma das principais virtudes da floresta.
Viçosa, ela é uma aliada contra o efeito estufa, consumindo
parte do carbono emitido por fábricas e automóveis. Ressequida,
pode incendiar-se e levar para a atmosfera até mais carbono do
que absorveria em condições normais. "Mesmo que a floresta
não seja alcançada diretamente pelo fogo, a queda de árvores
mortas pode reduzir a lenha áreas imensas", diz Nepstad. A Amazônia
tem um dos maiores índices pluviométricos do mundo, mas
esse escudo de umidade vem sendo reduzido há três décadas
pelo desmatamento continuado. Nesse período, a área desmatada
avançou de 4% do total de floresta para 15%. Nesse ritmo, a conclusão
dos pesquisadores é que, daqui a cinqüenta anos, o ciclo de
chuvas na região terá sido reduzido em 20%. Isso quer dizer
que, ainda que o El Niño não se manifeste, os efeitos poderão
ser os mesmos. "A temperatura na região poderá estar até
5 graus mais alta que as médias atuais", calcula o meteorologista
Carlos Nobre, que coordena uma pesquisa climática realizada pelo
Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. A redução das
chuvas não acaba com todas as espécies, mas diminui a biodiversidade,
outra celebrada qualidade da Amazônia. O resultado pode ser uma
floresta menor e mais pobre.
|
|
 |
|
 |

|
 |