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Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
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O vício resiste a tudo

Livro conta como o hábito de fumar
venceu campanhas e repressões
violentas no decorrer da história

Adriana Carvalho

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Trechos do livro sobre o tabaco que mostram algumas das mais duras passagens da história da repressão ao fumo.

Pouca gente desconhece como o tabaco entrou na vida civilizada. Quando Cristóvão Colombo desembarcou no Caribe, em 1492, foi recebido pelos nativos com alguns presentes: adornos feitos de contas, frutas e punhados de folhas secas. As folhas secas eram o tabaco, cuja fumaça eles inalavam com muito gosto. Passa quase sem registro, porém, a história de que durante a expedição de Colombo nasceu também a luta antitabagista. O descobridor guardou os outros presentes, mas por não saber do que se tratava atirou aos peixes as folhas de tabaco inebriante dos nativos. A história é contada pelo jornalista inglês Iain Gately, fumante inveterado, autor de Tobacco: a Cultural History of How an Exotic Plant Seduced Civilization (Tabaco: uma História Cultural de Como uma Planta Exótica Seduziu a Civilização), que acaba de ser lançado nos Estados Unidos. Como Colombo, diz Gately, todas as gerações futuras fracassariam na tentativa de proibir o tabaco.

Rodrigo de Jerez e Luis de Torres, dois membros da própria tripulação do célebre navegador genovês, sucumbiram à curiosidade e tornaram-se documentadamente os primeiros europeus a experimentar o fumo. Jerez foi também o primeiro a enfrentar a fúria dos antitabagistas. Foi detido pela Inquisição por fumar em público, quando voltou para a Espanha, e passou três anos preso em uma masmorra. A punição de Jerez, porém, não passa de um puxão de orelha se comparada aos castigos que o tirano te;lebre navegador genovês, sucumbiram à curiosidade e tornaram-se documentadamente os primeiros europeus a experimentar o fumo. Jerez foi também o primeiro a enfrentar a fúria dos antitabagistas. Foi detido pela Inquisição por fumar em público, quando voltou para a Espanha, e passou três anos preso em uma masmorra. A punição de Jerez, porém, não passa de um puxão de orelha se comparada aos castigos que o tirano Murad IV, o Cruel, impunha aos fumantes do Império Otomano, na primeira metade do século XVII. Os historiadores contam que ele percorria as ruas de Constantinopla disfarçado, fazendo-se passar por um fumante em crise de abstinência, batendo de porta em porta para implorar que alguém lhe desse um pouco de fumo. "Quando alguma alma solidária atendia a seu pedido, ele pessoalmente lhe cortava a cabeça", descreve Gately. Estima-se que Murad IV tenha executado ou mandado assassinar cerca de 25.000 fumantes em apenas catorze anos. Não obstante, o hábito de fumar manteve-se firme entre bom número de seus súditos. A passagem é uma das mais interessantes do livro. Ela mostra que o vício do tabaco já resistiu a campanhas e métodos de repressão bem mais drásticos que os aplicados hoje aos fumantes.


O cineasta William Klein sexualizou o cigarro nesta foto de 1958

Outro governante que combateu violentamente o hábito foi o soberano James I, que sucedeu a Elizabeth I no trono inglês, em 1603. Depois que a guerra entre a Inglaterra e a Espanha acabou, James I resolveu direcionar suas energias para outros tipos de batalha e lançou uma verdadeira cruzada contra o que os documentos do reino chamavam de "erva traiçoeira". Usado pelos nativos americanos não apenas por prazer, mas para invocar espíritos e realizar curas, o fumo foi associado à prática da bruxaria na Europa. James I supervisionava pessoalmente as sessões de tortura dos acusados de feitiçaria. Ele escreveu: "Fumar é um costume repulsivo para os olhos, detestável para o olfato, daninho para o cérebro, perigoso para os pulmões". Desnecessário dizer que o hábito de fumar sobreviveu a James I e a toda a geração dos nobres Stuart iniciada por ele próprio. Na França, por outro lado, a permissividade com o tabaco é antiga. Napoleão, conta Gately, preferia inalar tabaco em pó, o rapé, e o fazia com fúria. "O general consumia 1 quilo por semana, o equivalente a fumar 100 cigarros por dia", conta.

 
Reuters/Seanramsay

Fumantes desrespeitam a proibição: no tempo do rei James I eles seriam executados

Atualmente, fumar está no grupo das atividades politicamente incorretas. Gately lembra que durante décadas, no século passado, o fumo foi ao mesmo tempo aliado do charme feminino e acessório da masculinidade. O capítulo do livro que conta a ligação de Hollywood com os fabricantes de cigarros é memorável. Bette Davis e Rita Hayworth não sabiam atuar sem um cigarro nos lábios. Humphrey Bogart teve no tabaco companheiro inseparável. Fumou até quando estava doente de câncer na garganta. Iain Gately não esconde sua militância pró-tabaco. Ele descreve com arrebatamento a devoção dos soldados americanos e britânicos ao cigarro durante a II Guerra Mundial. O presidente Franklin Roosevelt declarou o tabaco um material estratégico durante a guerra. "Do outro lado do Atlântico, quando a guerra acabou, 81% dos homens ingleses eram fumantes", escreveu Gately. Na narrativa dele, o cigarro atravessa fronteiras culturais e vence os séculos com uma força de penetração cultural a que nada, nem o café, conseguiu igualar-se. "Para o atual 1,2 bilhão de fumantes do mundo, o cigarro não é apenas um assassino; é uma fonte de prazer, de amizade e de conforto", escreve Gately. Obviamente, o autor passa ao largo das iniqüidades, das doenças e dos custos sociais associados ao hábito de fumar.

   
 
   
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