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O vício resiste
a tudo
Livro
conta como o hábito de fumar
venceu campanhas e repressões
violentas no decorrer da história
Adriana
Carvalho

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Pouca
gente desconhece como o tabaco entrou na vida civilizada. Quando Cristóvão
Colombo desembarcou no Caribe, em 1492, foi recebido pelos nativos com
alguns presentes: adornos feitos de contas, frutas e punhados de folhas
secas. As folhas secas eram o tabaco, cuja fumaça eles inalavam
com muito gosto. Passa quase sem registro, porém, a história
de que durante a expedição de Colombo nasceu também
a luta antitabagista. O descobridor guardou os outros presentes, mas por
não saber do que se tratava atirou aos peixes as folhas de tabaco
inebriante dos nativos. A história é contada pelo jornalista
inglês Iain Gately, fumante inveterado, autor de Tobacco: a Cultural
History of How an Exotic Plant Seduced Civilization (Tabaco: uma História
Cultural de Como uma Planta Exótica Seduziu a Civilização),
que acaba de ser lançado nos Estados Unidos. Como Colombo, diz
Gately, todas as gerações futuras fracassariam na tentativa
de proibir o tabaco.
Rodrigo
de Jerez e Luis de Torres, dois membros da própria tripulação
do célebre navegador genovês, sucumbiram à curiosidade
e tornaram-se documentadamente os primeiros europeus a experimentar o
fumo. Jerez foi também o primeiro a enfrentar a fúria dos
antitabagistas. Foi detido pela Inquisição por fumar em
público, quando voltou para a Espanha, e passou três anos
preso em uma masmorra. A punição de Jerez, porém,
não passa de um puxão de orelha se comparada aos castigos
que o tirano te;lebre navegador genovês, sucumbiram à curiosidade
e tornaram-se documentadamente os primeiros europeus a experimentar o
fumo. Jerez foi também o primeiro a enfrentar a fúria dos
antitabagistas. Foi detido pela Inquisição por fumar em
público, quando voltou para a Espanha, e passou três anos
preso em uma masmorra. A punição de Jerez, porém,
não passa de um puxão de orelha se comparada aos castigos
que o tirano Murad IV, o Cruel, impunha aos fumantes do Império
Otomano, na primeira metade do século XVII. Os historiadores contam
que ele percorria as ruas de Constantinopla disfarçado, fazendo-se
passar por um fumante em crise de abstinência, batendo de porta
em porta para implorar que alguém lhe desse um pouco de fumo. "Quando
alguma alma solidária atendia a seu pedido, ele pessoalmente lhe
cortava a cabeça", descreve Gately. Estima-se que Murad IV tenha
executado ou mandado assassinar cerca de 25.000
fumantes em apenas catorze anos. Não obstante, o hábito
de fumar manteve-se firme entre bom número de seus súditos.
A passagem é uma das mais interessantes do livro. Ela mostra que
o vício do tabaco já resistiu a campanhas e métodos
de repressão bem mais drásticos que os aplicados hoje aos
fumantes.

O cineasta
William Klein sexualizou o cigarro nesta foto de 1958 |
Outro governante
que combateu violentamente o hábito foi o soberano James I, que
sucedeu a Elizabeth I no trono inglês, em 1603. Depois que a guerra
entre a Inglaterra e a Espanha acabou, James I resolveu direcionar suas
energias para outros tipos de batalha e lançou uma verdadeira cruzada
contra o que os documentos do reino chamavam de "erva traiçoeira".
Usado pelos nativos americanos não apenas por prazer, mas para
invocar espíritos e realizar curas, o fumo foi associado à
prática da bruxaria na Europa. James I supervisionava pessoalmente
as sessões de tortura dos acusados de feitiçaria. Ele escreveu:
"Fumar é um costume repulsivo para os olhos, detestável
para o olfato, daninho para o cérebro, perigoso para os pulmões".
Desnecessário dizer que o hábito de fumar sobreviveu a James
I e a toda a geração dos nobres Stuart iniciada por ele
próprio. Na França, por outro lado, a permissividade com
o tabaco é antiga. Napoleão, conta Gately, preferia inalar
tabaco em pó, o rapé, e o fazia com fúria. "O general
consumia 1 quilo por semana, o equivalente a fumar 100 cigarros por dia",
conta.
Reuters/Seanramsay

Fumantes
desrespeitam a proibição: no tempo do rei James I eles seriam executados
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Atualmente,
fumar está no grupo das atividades politicamente incorretas. Gately
lembra que durante décadas, no século passado, o fumo foi
ao mesmo tempo aliado do charme feminino e acessório da masculinidade.
O capítulo do livro que conta a ligação de Hollywood
com os fabricantes de cigarros é memorável. Bette Davis
e Rita Hayworth não sabiam atuar sem um cigarro nos lábios.
Humphrey Bogart teve no tabaco companheiro inseparável. Fumou até
quando estava doente de câncer na garganta. Iain Gately não
esconde sua militância pró-tabaco. Ele descreve com arrebatamento
a devoção dos soldados americanos e britânicos ao
cigarro durante a II Guerra Mundial. O presidente Franklin Roosevelt declarou
o tabaco um material estratégico durante a guerra. "Do outro lado
do Atlântico, quando a guerra acabou, 81% dos homens ingleses eram
fumantes", escreveu Gately. Na narrativa dele, o cigarro atravessa fronteiras
culturais e vence os séculos com uma força de penetração
cultural a que nada, nem o café, conseguiu igualar-se. "Para o
atual 1,2 bilhão de fumantes do mundo, o cigarro não é
apenas um assassino; é uma fonte de prazer, de amizade e de conforto",
escreve Gately. Obviamente, o autor passa ao largo das iniqüidades,
das doenças e dos custos sociais associados ao hábito de
fumar.
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