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A sombra da dengue
O mosquito
não estava convidado,
mas atrapalhou a festa de despedida
do ministro da Saúde
Ronaldo França
e Marcelo Carneiro
Marcia Gouthier/Folha Imagem
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| Serra:
dengue ofuscou lista de vitórias à frente do Ministério
da Saúde |

Veja também |
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O candidato
à Presidência da República José Serra enfileirou
vitórias respeitáveis ao longo de quase quatro anos à
frente do Ministério da Saúde. Entre outros feitos, a campanha
contra o tabaco, a aprovação da lei dos genéricos
e a diminuição da mortalidade infantil. O cenário
seria o pano de fundo perfeito para a cerimônia de entrega do cargo
de ministro, na semana passada, em Brasília. Só uma coisa
causou desconforto a todos os presentes: os mosquitos. Havia no ar a presença
incômoda da epidemia de dengue que se alastra pelo país fazendo
vítimas fatais. No Palácio do Planalto há o temor
de que a doença contamine também a candidatura oficial à
Presidência. Hoje, os estrategistas de Serra lutam para descobrir
uma forma de afastar a dengue da imagem do ex-ministro. Não é
tarefa fácil. É impossível não reconhecer
que o Ministério da Saúde contribuiu para o recrudescimento
da doença com sua dose de descaso no combate aos focos do mosquito
Aedes aegypti. No Rio de Janeiro, onde a situação
é mais grave, a epidemia superou todos os limites: os de risco
para a saúde pública, os do bom senso e os da irresponsabilidade
dos governantes.
Ao demitir
5.700 agentes que se dedicavam a caçar
o mosquito, em 1999, o governo federal desmobilizou uma parte expressiva
do esquema de controle para descentralizar o combate. Fez isso em um período
de troca de prefeitos e não acompanhou o processo. Houve a descontinuidade
do controle. Estado e prefeitura também tiveram sua dose de negligência.
Até agora não se sabe onde foi parar parte dos 11 milhões
de reais repassados pelo ministério para o governo fluminense.
Não foram as únicas cenas de desatenção. Larvicidas
com prazo de validade vencido e produtos inadequados também contribuíram.
O primeiro produto utilizado, o Temfhos, fazia efeito durante sessenta
dias, tempo médio entre as visitas dos agentes de saúde
às localidades infestadas. Trocou-se esse produto pelo Vectobac,
cuja eficácia se mantém por apenas catorze dias. Só
que os técnicos da prefeitura se esqueceram de reprogramar as visitas,
que continuaram sendo feitas com intervalos de sessenta e até 120
dias. Mas a inação não seria tão revoltante
não fosse pelo desrespeito. Muito tempo foi perdido no jogo de
empurra dos culpados, sem que uma medida concreta fosse anunciada. Já
são mais de 45.000 casos de pacientes
infectados, com dezessete mortes no Estado do Rio de Janeiro mais
da metade de todos os óbitos registrados no país.
Marcia Gouthier/Folha Imagem
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Marcia Gouthier/Folha Imagem
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| Exposição
no Senado: mazelas da saúde e suspeita de provocação
ao ex-ministro |
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A dengue,
que era endêmica no Brasil desde os anos 80, voltou a castigar neste
ano. Bateu a marca dos 82.000 casos e pelo
menos 28 pessoas morreram acometidas pela forma hemorrágica, o
tipo mais perigoso da doença. Já se tornou um problema de
saúde pública em seis Estados: Rio de Janeiro, Goiás,
Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia. "O número
real pode ser bem maior. A subnotificação é imensa",
afirma o superintendente estadual de Saúde do Rio, Oscar Berro.
No período de chuvas de março, quando a tendência
é aumentar a disponibilidade de água parada, deverá
ocorrer a época mais crítica. A previsão do governo
federal é que se multiplique por seis o número de casos
no Rio. Ou seja, espera-se que pelo menos 300.000
pessoas caiam doentes. Talvez não seja mero acaso a desincompatibilização
de Serra do cargo justamente agora, quando o medo ainda não deu
lugar ao pânico. Caso permanecesse ministro, seria fatalmente associado
à tragédia. Quando não pela população,
pela inevitável ajuda dos adversários políticos.
Fotos
chocantes
Uma amostra disso se viu na semana passada. No dia em que Serra voltou
a ocupar sua cadeira no Senado, inaugurou-se uma exposição
no próprio Senado, com fotos chocantes que demonstram casos de
mau atendimento em hospitais da rede pública de saúde Brasil
afora. A empresa responsável pelo evento, a Free Press, pertence
ao jornalista Mino Pedrosa, que tem como um de seus principais clientes
o senador pefelista Hugo Napoleão e trabalha informalmente para
a campanha de Roseana Sarney. Comenta-se em Brasília que a exposição
foi financiada pelo estado-maior da candidatura Roseana. Curiosamente,
não havia fotos de hospitais do Maranhão à mostra
embora o fotógrafo Ricardo Stuckert tenha percorrido diversas
capitais, inclusive São Luís, para colher imagens.
À
sessão de imagens desfavoráveis seguiram-se críticas
ao fato de Serra abandonar o ministério em meio à epidemia.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil censurou abertamente
a saída. Na terça-feira passada, o Ministério da
Saúde baixou uma portaria que, na prática, faz uma intervenção
branca nas ações contra a dengue no Rio. Pela forma abrupta
como foi feita, é previsível que haja uma reação
contrária. O que se deveria buscar é o entendimento em torno
de uma campanha de extermínio do mosquito. Em vez disso, o que
se vê são lances que só favorecem outras campanhas:
as que concorrem à Presidência da República.
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