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Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
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Em busca do
bilionário liberal

Numa aliança esdrúxula, o PT
quer aproximar-se de seu
oposto, o Partido Liberal

José Edward e Policarpo Junior

O PT já não é mais aquele. Na semana passada, Luís Inácio Lula da Silva, o líder nas pesquisas para a sucessão presidencial, começou a costurar uma aliança de aparência um tanto esdrúxula – com o Partido Liberal, legenda com pesada influência evangélica e dona de um programa conservador. Em jantar na casa do deputado Bispo Rodrigues, um dos caciques do PL, Lula discorreu sobre as propostas do PT em questões como estabilidade econômica, dívida externa e combate à pobreza. Depois, tomou café com o senador José Alencar, do PL mineiro, um empresário bilionário que Lula corteja para ser seu vice. São conversas preliminares cujo desfecho ainda é imprevisível. A simples disposição de sentar à mesa com próceres liberais, no entanto, faz parecer que o PT está finalmente abandonando as amarras ideológicas que isolam o partido e decidindo entrar no jogo para vencer, valendo-se até de alianças com legendas que defendem idéias diametralmente opostas às suas. "Está na hora de entrarmos para vencer, não só para marcar posição", diz o petista José Genoíno, de São Paulo.

Há razões práticas para tanto. Lula quer atrair José Alencar porque se trata de um político liberal, cuja presença em sua chapa pode limar resistências que o PT costuma provocar no empresariado. Além disso, José Alencar, proprietário do maior grupo têxtil do país, a Coteminas, tem uma fortuna superior a 1 bilhão de reais. Ou seja: sozinho, é um caixa. Em 1998, o empresário fez a campanha mais cara para o Senado. Gastou quase 4 milhões de reais, sem pedir nada a ninguém. Tirou tudo do próprio bolso. Em 1994, quando foi candidato ao governo de Minas pelo PMDB, eleição em que ficou em terceiro lugar, chegou a ser acusado de abusar do dinheiro. "Ele comprou o partido, comprou a convenção e pode comprar o governo de Minas, porque tem dinheiro suficiente para isso", acusou, à época, o derrotado na convenção, o então deputado Tarcísio Delgado. Por fim, além de liberal e bilionário, o empresário tem base eleitoral em Minas Gerais. Em tese, poderia atrair à candidatura de Lula os votos do segundo maior colégio eleitoral do país.


Uma aliança com o PL de José Alencar pode, portanto, fazer sentido eleitoral, mas é exótica do ponto de vista ideológico. Com mais de duas décadas de história, o PT vem mudando o tom de seu discurso a cada campanha, sempre no sentido de torná-lo mais ameno e menos radical (veja quadro). A aliança de agora pode ser mais um sinal disso – e não deixa de ser uma boa notícia. Afinal, significaria que o partido está atento aos ares do mundo atual, desvencilhando-se de antigos dogmas, e disposto a percorrer o caminho já trilhado pela esquerda européia. Mas não é um caminho fácil. Na semana passada, publicou-se que o presidente do partido, José Dirceu, teria dito que o PT virou "um partido de centro". No dia seguinte, Dirceu declarou que fora mal interpretado. Na verdade, teria afirmado apenas que, a exemplo de eleições anteriores, o PT estaria disposto a fazer alianças com legendas de centro. Seja como for, o desmentido imediato mostra como as correntes à esquerda dentro do PT reagem mal a qualquer inflexão menos ortodoxa.

A presença de José Alencar na chapa de Lula teria uma força simbólica. Décimo primeiro filho de uma família humilde de quinze irmãos, saiu cedo de casa e começou a trabalhar aos 14 anos, como balconista numa loja de tecidos, na Zona da Mata mineira. Nessa época, o dinheiro era tão curto que Alencar não tinha como pagar um quarto de pensão – alugava, então, uma cama no corredor do pensionato. Aos 18 anos, com dinheiro emprestado por um irmão, abriu sua primeira loja de tecidos, em Caratinga. Chamava-se A Queimadeira e vendia de tudo a preços populares. Daí em diante, com dedicação integral ao trabalho, não parou mais. Na década de 60, deu o pulo-do-gato e conseguiu um financiamento subsidiado da Sudene para instalar uma fábrica de tecidos em Montes Claros, no norte de Minas. Hoje, é dono de fábricas em Minas, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina. São onze unidades, que produzem desde o fio de algodão até produtos acabados de cama, mesa e banho, que são vendidos no mercado interno e no exterior. No ano passado, a receita líquida de seu conglomerado chegou a 740 milhões de reais.

Como homem que se superou com esforço próprio, Alencar tem, nesse aspecto, uma biografia semelhante à de Lula, um pernambucano que veio de pau-de-arara para São Paulo, trabalhou como metalúrgico e tornou-se o maior líder de massas do país – embora ambos tenham batalhado por destinos antagônicos: um virou sindicalista, outro virou patrão. A união política entre os dois e seus partidos desperta resistência de todos os lados – a primeira, surgida já na semana passada, veio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, entidade católica que se revelou assustada com a aproximação petista dos evangélicos. Há resistências dentro dos próprios partidos. Bispo Rodrigues não gosta nem de ouvir falar em duas posições defendidas pelo PT: a união civil entre homossexuais e a descriminação do aborto. São propostas intoleráveis, segundo o bispo. "Essa união parece casamento de cavalo com vaca: não puxa carroça nem dá leite", ironiza o vice-líder do PT na Câmara, deputado Milton Temer. Ou, como a fábula que já reapareceu: é como o casamento entre o pavão, que era belo, e o urubu, que voava – só que a união resultou num peru. Que não é belo nem voa.

 
 
   
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