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Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
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O marotinho

Governador do Rio usa matemática
esperta em anúncio sobre queda
nos índices de violência

Lucila Soares

Nos últimos anos, o Rio de Janeiro tornou-se o símbolo do desafio que a violência urbana representa para o país. Erros e acertos cometidos nessa área têm, por esse motivo, suas conseqüências amplificadas nacionalmente. Não é por outra razão que o governador e candidato a presidente Anthony Garotinho destacou o tema em sua estratégia de campanha. Para melhor alardear os resultados de sua administração nesse quesito, fez mais. Publicou recentemente na imprensa um anúncio elencando sete itens que comparam seu desempenho ao de seu antecessor, Marcello Alencar. Os números divulgados lhe são amplamente favoráveis. Em todos os itens houve redução no número de ocorrências. Tudo certo, fora um detalhe revelado na semana passada pelo jornal O Globo: uma matemática marota tornou alguns números mentirosos, claro que a favor do governo. Na quantidade de assaltos a ônibus, foi omitida a informação relativa a 2001, o que fez um aumento de 23% nesse tipo de ocorrência virar queda de 13%. E na evolução da recuperação de carros uma conta errada inflou o porcentual de 34% para 45%.


Além desses pontos evidentes, há uma questão metodológica nos cálculos. O governo estadual comparou os três primeiros anos da gestão Garotinho com os três iniciais da administração de Marcello Alencar. Ou seja, não levou em conta o que aconteceu em 1998, último ano do governo anterior, que determinou o patamar em que Garotinho encontrou a segurança no Rio. A conseqüência desse procedimento fica clara na estatística de homicídios. O número caiu muito em 1998, mas isso não foi levado em conta. Assim, em lugar de registrar estabilidade nos índices, o anúncio mostrou queda de 28%. "Quando se fala de violência, o importante é analisar a tendência geral, ano a ano. É fundamental ver a curva", afirma Leonarda Musumeci, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e estudiosa da questão da segurança pública.

Tal quantidade de equívocos numa peça publicitária é algo que causa estranheza. Mais ainda quando as explicações de assessores se desmancham no ar. Um deles atribuiu os equívocos a um "erro de digitação". Outro disse que o problema era culpa exclusiva da agência de publicidade que criou o anúncio. É sabido que, embora o governador Garotinho seja dado a arroubos verbais que já o colocaram em situação constrangedora – como quando acusou a vice-governadora Benedita da Silva de desvio de recursos e não pôde provar –, seu governo é extremamente cuidadoso ao divulgar informações oficiais. Na área de segurança, montou um esquema centralizado, pelo qual só se tem acesso aos números publicados no Diário Oficial. Custa crer que o Palácio Guanabara tenha sido tão desleixado. A incômoda sensação que o episódio provoca é de que houve uma tentativa deliberada de ludibriar a opinião pública. Nem que seja pela sonegação da informação de que os índices de violência começaram a cair no governo anterior. Uma marotagem que vem em má hora para um candidato que poderia até capitalizar – sem maquiagem – seu desempenho como governador na área de segurança.

 
 
   
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