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O marotinho
Governador
do Rio usa matemática
esperta em anúncio sobre queda
nos índices de violência
Lucila Soares
Nos últimos
anos, o Rio de Janeiro tornou-se o símbolo do desafio que a violência
urbana representa para o país. Erros e acertos cometidos nessa
área têm, por esse motivo, suas conseqüências
amplificadas nacionalmente. Não é por outra razão
que o governador e candidato a presidente Anthony Garotinho destacou o
tema em sua estratégia de campanha. Para melhor alardear os resultados
de sua administração nesse quesito, fez mais. Publicou recentemente
na imprensa um anúncio elencando sete itens que comparam seu desempenho
ao de seu antecessor, Marcello Alencar. Os números divulgados lhe
são amplamente favoráveis. Em todos os itens houve redução
no número de ocorrências. Tudo certo, fora um detalhe revelado
na semana passada pelo jornal O Globo: uma matemática marota
tornou alguns números mentirosos, claro que a favor do governo.
Na quantidade de assaltos a ônibus, foi omitida a informação
relativa a 2001, o que fez um aumento de 23% nesse tipo de ocorrência
virar queda de 13%. E na evolução da recuperação
de carros uma conta errada inflou o porcentual de 34% para 45%.
Além
desses pontos evidentes, há uma questão metodológica
nos cálculos. O governo estadual comparou os três primeiros
anos da gestão Garotinho com os três iniciais da administração
de Marcello Alencar. Ou seja, não levou em conta o que aconteceu
em 1998, último ano do governo anterior, que determinou o patamar
em que Garotinho encontrou a segurança no Rio. A conseqüência
desse procedimento fica clara na estatística de homicídios.
O número caiu muito em 1998, mas isso não foi levado em
conta. Assim, em lugar de registrar estabilidade nos índices, o
anúncio mostrou queda de 28%. "Quando se fala de violência,
o importante é analisar a tendência geral, ano a ano. É
fundamental ver a curva", afirma Leonarda Musumeci, professora da Universidade
Federal do Rio de Janeiro e estudiosa da questão da segurança
pública.
Tal quantidade
de equívocos numa peça publicitária é algo
que causa estranheza. Mais ainda quando as explicações de
assessores se desmancham no ar. Um deles atribuiu os equívocos
a um "erro de digitação". Outro disse que o problema era
culpa exclusiva da agência de publicidade que criou o anúncio.
É sabido que, embora o governador Garotinho seja dado a arroubos
verbais que já o colocaram em situação constrangedora
como quando acusou a vice-governadora Benedita da Silva de desvio
de recursos e não pôde provar , seu governo é
extremamente cuidadoso ao divulgar informações oficiais.
Na área de segurança, montou um esquema centralizado, pelo
qual só se tem acesso aos números publicados no Diário
Oficial. Custa crer que o Palácio Guanabara tenha sido tão
desleixado. A incômoda sensação que o episódio
provoca é de que houve uma tentativa deliberada de ludibriar a
opinião pública. Nem que seja pela sonegação
da informação de que os índices de violência
começaram a cair no governo anterior. Uma marotagem que vem em
má hora para um candidato que poderia até capitalizar
sem maquiagem seu desempenho como governador na área de
segurança.
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