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Edição 1 740 - 27 de fevereiro de 2002
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O fantasma do Maranhão

Roseana quer defender os índices socioeconômicos de sua gestão –
mas, em alguns casos, é impossível

Maurício Lima

 
Paulo Fridman/Símbolo Imagem
Ana Araújo
Roseana e uma favela maranhense: na economia, fracassos retumbantes

A governadora Roseana Sarney esteve na semana passada no Rio de Janeiro. O objetivo oficial da viagem era encomendar estudos da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre os indicadores do Maranhão. Mas a preocupação real de Roseana era outra: aprender com pesquisadores das duas instituições a defender os números socioeconômicos de sua administração. Até hoje, a governadora não precisou debruçar-se sobre as estatísticas de seu Estado para subir nas pesquisas eleitorais. Bastou ser apresentada na propaganda como um produto de consumo. Roseana é bonita, elegante e tem um magnífico sorriso – e é mulher, uma condição que, dizem, conta pontos na política brasileira atual. Essa operação de publicidade em torno de Roseana conseguiu catapultar sua candidatura para além dos 20% de intenção de voto. A fase exclusivamente televisiva, porém, não deve durar muito. É natural que os competidores com cargo executivo tenham suas administrações devassadas no caminho rumo à Presidência. Tem acontecido o mesmo com a administração da governadora Roseana. Para começar, o Maranhão é um Estado paupérrimo e os adversários da candidata têm à mão toneladas de estatísticas negativas para usar contra ela. Na semana passada, Roseana reagiu. "O Maranhão não é candidato a nada. O candidato é a Roseana. O Maranhão não é o vilão do Brasil", desabafou ela.


Mas, afinal, o que há de errado com o Maranhão? É um dos Estados mais pobres de toda a federação. Se fosse um país, teria um índice de desenvolvimento humano (IDH) semelhante ao do Congo. Separado do Brasil, seria o país mais miserável da América Latina, ficando à frente apenas do Haiti. Esse quadro é resultado de séculos de miséria, escravagismo, monocultura, latifúndio e descaso. É óbvio que não se pode cobrar de um administrador que, em dez, vinte ou mesmo trinta anos, consiga superar herança tão antiga e tão pesada. Portanto, não é justo perguntar-se por que o Maranhão não está igual ao Rio Grande do Sul, Santa Catarina ou São Paulo, alguns dos Estados mais desenvolvidos do país. Seria o mesmo que acusar o presidente Fernando Henrique Cardoso de não ter, em apenas dois mandatos, transformado o Brasil numa Suécia. A pergunta certa é outra: o governo de Roseana, dadas as condições em que encontrou o Estado, foi melhor ou pior do que poderia ser? A resposta é que, considerados os números de sua gestão, o Maranhão não pode ir para a vitrine de sua propaganda.

Filha de uma oligarquia que domina o Maranhão há quatro décadas, Roseana gosta de distanciar-se dessa biografia. Ela reconhece que seu pai, o ex-presidente José Sarney, comanda os destinos políticos do Estado desde meados da década de 60, mas faz questão de dizer que seu governo começou apenas em 1995. Separar-se da oligarquia é uma saída compreensível. Afinal, Sarney reina há quarenta anos sobre uma paisagem deplorável de miséria, com suas taxas ora haitianas, ora africanas. Quarenta anos não foi o bastante para que o Maranhão se transformasse em jóia nacional, mas também não precisava manter números tão dramáticos. O Estado faz feio – muito feio – em saneamento básico, analfabetismo, mortalidade infantil, coleta de lixo, renda familiar... A tentativa da governadora de isolar-se dessa herança é inútil. Se o longo domínio dos Sarney tivesse feito do Maranhão uma vitrine nacional, alguém acredita que Roseana não estaria agora capitalizando as conquistas?

Ana Araújo
A orla da capital: em alguns casos, Roseana foi melhor que a média


Com apenas sete anos no Palácio dos Leões, a gestão de Roseana, que herdou um fardo definitivamente pesado, não poderia ter melhorado muito esse quadro – mas também não deveria ter piorado. Exemplo: a massa de pessoas ganhando de zero a meio salário mínimo diminuiu em todo o país, o que significa que as pessoas passaram a ganhar mais. No Maranhão, essa massa aumentou. Foi um retrocesso único no país. Roseana, que tanto fala em crescimento e desenvolvimento para o Brasil, não teve bom desempenho nessa área dentro de seu território. Entre 1992 e 1999, o PIB per capita do Maranhão cresceu apenas 9,8%. Isso é menos que a média do Nordeste, do Brasil e, para comparar com Estados de porte semelhante ao do Maranhão, é menos que a de Alagoas, Sergipe, Ceará e Piauí.


É obvio que a administração de Roseana tem seus méritos e exibe alguns feitos elogiáveis (veja quadro ao lado). Mas ela carrega problemas de método. Seu marido, Jorge Murad, é o todo-poderoso do governo. Cuida da economia, indústria e comércio, ciência e tecnologia, turismo e agricultura. Estão sob seu comando 40% do orçamento do Estado, e é Murad quem dá a última palavra sobre a liberação dos outros 60%. No Brasil de hoje, seria impensável que um presidente chegasse a Brasília e entregasse todo o ouro na mão da mulher – ou do marido. Jorge Murad é um administrador competente, mas o fato de reunir tanto poder por ser casado com a governadora seria intolerável na maioria dos Estados brasileiros. Em Brasília, um arranjo desse tipo seria considerado afrontoso. São práticas de curral, que só acontecem sem escândalo no ambiente de atraso do Maranhão. Em São Luís, tudo é Sarney – a escola, a praça, a rua, a vila, o bairro, numa onipresença que sufoca os forasteiros e dá uma medida da promiscuidade entre o público e o privado.

Os Sarney, no entanto, são o que se poderia chamar de uma oligarquia moderna. José Sarney não construiu um clã nos moldes antigos, baseado essencialmente no poder agrário. Em vez disso, ergueu um império de comunicação, embora lide com ele no melhor estilo do coronelismo eletrônico. Com uma longa vida pública, Sarney ganhou suas concessões – e, na Presidência, promoveu o maior festival de concessões de que se tem notícia na história da República – e pôde alçar seu império. Os Sarney são donos do principal jornal, da principal rádio e da principal emissora de televisão – veículos que, naturalmente, não costumam amplificar críticas à administração de Roseana e estão agora a serviço da propaganda da representante jovem da oligarquia. Isso ajuda a explicar por que Roseana tem o apoio de 88% dos maranhenses e é a governadora mais popular do país. Colocando-se na balança, seu governo não serve para desacreditá-la no páreo presidencial, mas também não é uma bandeira vistosa a ser exibida. Daí por que a governadora faz tanta questão de dizer que a candidata é ela, e não o Maranhão.

 
 
   
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