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Gustavo
Franco
O
centro, a periferia
e o câmbio
"A
abundância de capitais
retornará e
as moedas
da periferia, na vigência de regimes de flutuação,
vão se valorizar até o ponto em que as autoridades começarão
a questionar
o dogma da
flutuação"
Muita
gente diz que o mundo que desabou em 1914, com a eclosão da I Guerra
Mundial, era ainda mais globalizado que o de hoje. Pode ser. Mas com certeza
suas entranhas macroeconômicas, e em especial as relações
entre "centro" e "periferia", para usar uma linguagem própria dos
anos 60, tinham muito mais clareza. A city londrina era o centro do mundo,
e o Banco da Inglaterra, segundo se dizia, o regente de uma orquestra
de bancos centrais, organizados hierarquicamente em círculos concêntricos,
como o inferno de Dante.
Em épocas de abundância de capitais, e juros baixos em Londres,
a "periferia" era irrigada seqüencialmente, os mais próximos
primeiro, e um a um, a fim de se defender da enxurrada e de evitar uma
valorização cambial excessiva, adotavam o regime de câmbio
fixo, vale dizer, entravam para o padrão ouro. Ocorreu conosco
em diversos momentos, às vezes apenas por alguns meses, e em duas
ocasiões por alguns anos: 1854/57, 1858/59, 1862/64, 1888/89, 1906/14,
1926/30.
Quando os ventos viravam para pior, em geral por causa de alguma crise
financeira em algum lugar, havia uma reação em cadeia, pois
o sistema era interligado. A pressão se fazia sentir em Londres,
que chamava para si a liquidez, elevando os juros e sangrando as reservas
de toda a orquestra, que acompanhava o maestro no movimento de elevação
de juros. Assim, a periferia mais remota, nos círculos mais afastados,
era atirada para fora do padrão ouro por mais que se esforçasse
para resistir. Esses pecadores não encontravam alternativa fora
do "papel moeda inconversível", ou seja, no regime de flutuação
cambial.
Era um mundo simples, onde o padrão ouro isto é,
o câmbio fixo representava um dogma, uma espécie de
cartão de acesso às benesses da civilização,
mas na periferia o povo sabia que não era bem assim. Na prática,
o Brasil viveu "em pecado," ou seja, sob flutuação, durante
mais de 80% do período que vai de 1808 a 1929, anos em que o padrão
ouro significava um paradigma inquestionável. O câmbio fixo
era maravilhoso nos bons momentos, mas péssimo quando o tempo piorava.
Essa lição talvez tenha ficado esquecida, mercê do
longo tempo em que estivemos submetidos a controles cambiais, depois da
crise de 1929. Em nossos dias, a relevância dessa velha sabedoria
se tornou evidente.
Com efeito, a década que terminou em 1997, início da crise
da Ásia, foi de grande abundância de capitais que buscava
as economias emergentes. Os anos subseqüentes foram horríveis,
a liquidez ficou empoçada "no centro", pois a "aversão ao
risco", como se diz hoje em dia, cresceu um bocado.
Os anos anteriores à crise da Ásia, para os países
emergentes, foram de valorização cambial, liberalização
da conta de capitais (que quase emplacou nos estatutos do FMI) e de regimes
cambiais com "rigidez", vale dizer câmbio fixo, semifixo ou bandas
fixas ou inclinadas, tudo isso com vistas a mitigar a valorização
cambial e evitar déficits em conta corrente muito grandes. Nem
sempre com sucesso, especialmente na Ásia.
Os anos posteriores à crise da Ásia foram de grandes desvalorizações,
de restrições na conta de capitais e de disseminação
dos regimes de flutuação cambial. Com a flutuação
na Argentina e na Venezuela, na América do Sul só ficou
faltando o Uruguai, que ainda mantém seu regime de bandas cambiais
e, coitado, tornou-se a bola da vez. Uma agência de classificação
de risco soberano (a Standard & Poors) já piorou a nota do
Uruguai, em antecipação à tempestade.
Muito bem, alguém tem dúvida de que o regime cambial ideal
tem a ver com as circunstâncias, tal como vem ocorrendo há
dois séculos?
Como sempre acontecia no mundo globalizado anterior a 1914, a abundância
de capitais retornará. Vai demorar um ano ou dois ou três,
não se sabe. Mas sempre volta, e as moedas da periferia, na vigência
de regimes de flutuação, vão se valorizar até
o ponto em que as autoridades vão achar ruim e começarão
a questionar o dogma da flutuação. Dogmas que variam com
as circunstâncias não são propriamente dogmas, mas
os da economia são assim mesmo.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com
- www.gfranco.com.br)
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