A atriz sem inimigos

Unanimidade entre os brasileiros, Fernanda
Montenegro agora brilha e recebe prêmios no exterior

Okky de Souza

Fernanda: depois
do Globo de Ouro,
a possibilidade
de chegar ao Oscar
Foto: Paulo Jares  

Nunca uma atriz brasileira chegou tão longe na carreira. A simples indicação de Fernanda Montenegro ao troféu Globo de Ouro, cuja premiação acontece em Los Angeles neste domingo, já seria suficiente para lhe conferir estatura no mundo do cinema. Embora desconhecido do público brasileiro, o Globo de Ouro, distribuído pela Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood, não é pouca coisa. Sua credibilidade, em termos de escolha dos melhores do cinema, é bem menor que a do Oscar. Mas, do ponto de vista mercadológico, ele funciona como uma fantástica vitrine. Resultado: suas várias categorias são muito disputadas pelos artistas. Fernanda Montenegro conseguiu chegar ao Globo de Ouro porque o mundo gostou de sua interpretação em Central do Brasil, de Walter Salles. O filme é um sucesso internacional. Em fevereiro do ano passado, tornou-se a primeira produção brasileira a ganhar o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Por seu desempenho, Fernanda levou o Urso de Prata. Desde então, filme e atriz já faturaram quase trinta prêmios, dos Estados Unidos ao Casaquistão. Central do Brasil foi exibido em 22 países, sempre com ótimas bilheterias — na França, por exemplo, foi assistido por 400.000 espectadores. Em todos esses países, críticos e espectadores são unânimes ao apontar a grande atração do filme: a interpretação de Fernanda Montenegro. "Ela está soberba", escreveu Janet Maslin, do jornal The New York Times.

No papel de Dora,
em
Central do Brasil:
elogios e boas
bilheterias em 22 países
  Foto: Divulgação

O sucesso de Central do Brasil virou pelo avesso a vida de Fernanda Montenegro. De repente, a atriz que se habituou a ser chamada de grande dama do teatro brasileiro — título que considera bobo — passou a ser a sensação das telas. Ela já se havia destacado em filmes como A Falecida e Eles Não Usam Black-Tie, este premiado no Festival de Veneza, mas nenhum deles alcançou a projeção de Central. Para promover o filme, ela vem fazendo uma maratona de viagens pelo mundo orquestrada pela Sony Classics, encarregada de distribuir Central do Brasil nos mercados internacionais. A empresa tem também acionado seu lobby em Hollywood para que o filme e sua atriz principal recebam indicações para o próximo Oscar. No ano passado, embora tenha montado a peça Da Gaivota, apresentada em seis cidades brasileiras, Fernanda passou boa parte do tempo envolvida com a promoção de Central. "Tenho sempre uma mala pronta e minha casa ficou jogada às traças", conta. No início deste ano, a atriz começou a sentir outro efeito colateral de sua dedicação ao filme: abalos em sua conta bancária. O pequeno cachê que recebe a cada viagem promocional está longe de lhe garantir o sustento. "Quiseram os deuses que a televisão me oferecesse três trabalhos avulsos, que considero honrosos", ela diz. Fernanda se refere às recentes participações que fez na minissérie O Auto da Compadecida, no programa Você Decide e em O Belo e as Feras, do humorista Chico Anysio. Pelos três, recebeu da Rede Globo algo em torno de 80.000 reais. "Sou muito grata à TV", comenta. "Desde os tempos do Grande Teatro Tupi, nos anos 50 e 60, é ela que dá sustentação econômica para que os atores e atrizes nacionais possam aventurar-se nos palcos." Fernanda leva na esportiva os rostinhos bonitos que tentam representar nas novelas. "Com seu corpo e dentadura perfeitos, são peças descartáveis na TV", define. "Se não desenvolvem algum talento para atuar, a própria engrenagem os cospe para fora." Fernanda comunica que neste ano não pretende mais fazer televisão. Seus planos: prosseguir com as oficinas de interpretação de textos voltadas para jovens atores e protagonizar um espetáculo sobre a estilista francesa Coco Chanel.

No trato pessoal, Fernanda nada tem de diva ou de grande dama. Afetação, empáfia, arrogância, presunção — todos esses atributos tão caros aos artistas brasileiros não costumam infectá-la. Talvez por isso, e pela qualidade de seu trabalho, Fernanda se tenha transformado numa unanimidade nacional. Os críticos invariavelmente elogiam suas atuações. Entre os colegas, é impossível achar alguém que torça o nariz para ela ou se queixe de seu comportamento. É um caso raro de pessoa sem inimigos. "Ela tem uma sabedoria proletária, de gente simples", define a atriz Fernanda Torres, sua filha, referindo-se às origens modestas da mãe. A avaliação de Fernandinha explica muito sobre a personalidade de Fernanda Montenegro. Filha de um mecânico, funcionário da Light, ela nasceu no subúrbio carioca de Campinho ("numa época em que não havia favelas nem traficantes") e teve de batalhar bastante até engrenar na carreira de atriz. Nunca foi à Europa estudar teatro, como Bibi Ferreira, nem despertou cálidas paixões, como a outrora bela Tônia Carrero. Ao falar de sua trajetória, deixa transparecer que seu maior orgulho é ter saído do nada para vencer à custa de muita luta. É uma pessoa humilde de salto alto. Considera-se uma operária, como o pai, e não uma artista agraciada pela natureza. Costuma dizer que, se sua vida fosse contada em horas de trabalho, teria 150 anos. Ao exteriorizar suas opiniões sobre teatro, é capaz de elaborar teorias complicadas, mas em segundos as desmonta com um faiscar de olhos e uma risada. Nesses momentos, volta a ser a menina pobre e ambiciosa que suspirava nas sessões de cinema e sonhava virar artista.

Definitivamente, ela não mitifica seu ofício. "O que faço, na maioria das vezes, é artesanato. Só às vezes isso vira arte", ela explica. "Quem não aprende a fazer esse artesanato jamais chega a roçar a expressão artística." A lembrança da infância pobre talvez explique também o desentendimento de Fernanda com Walter Salles, numa das viagens para promover Central do Brasil. A atriz se queixou de que o diretor, um dos herdeiros do Unibanco, fingia emocionar-se nas entrevistas e usava roupas gastas para disfarçar a condição de milionário. Hoje, quando se toca no assunto da briga, ambos desconversam e disparam elogios mútuos.

A atriz vive atualmente num apartamento em frente da Praia de Ipanema. Confortável, mas sem luxos. Com ela mora o ator Fernando Torres, seu marido há 45 anos e que ela se orgulha de ser o único homem que teve na vida. Fernando tem acompanhado a mulher em várias das viagens promocionais de Central do Brasil, mas no passado ela nem sempre pôde contar com sua presença. No final dos anos 80, o ator foi acometido de uma depressão profunda que abalou a vida de Fernanda em todos os aspectos. Na biografia da atriz, escrita em 1990 pela jornalista Lucia Rito, um depoimento de Fernanda mostra claramente o que ela estava passando: "Cada ciclo da vida é uma passagem dolorida. (...) Meu querido companheiro de tantos anos passa por um momento delicado de saúde. Luto com ele e por ele".

No apartamento de Ipanema funciona também o QG executivo do casal. Eles produzem quase todas as peças em que atuam e ainda outras, para os colegas. É uma forma de não depender de produtores e, caso a bilheteria ajude, de ganhar um dinheiro extra. Fernanda tem fama de durona nos negócios. Ou, como circula no meio teatral, de cultivar certa avidez pelo vil metal. Comenta-se também que não é de esbanjar dinheiro e gosta de pechinchar. No terreno da vaidade, Fernanda, aos 69 anos, tem uma característica que a diferencia das demais atrizes famosas do país. Ela fez apenas uma cirurgia plástica, e assim mesmo para diminuir as bolsas sob os olhos, sua característica facial mais marcante desde os tempos de juventude. "Não sou contra plásticas, mas dar puxadinha na cara, para quem já dobrou o cabo da Boa Esperança, é arriscado", ela diz. E emenda, numa autocrítica impiedosa: "Admito que meu pescoço está completamente tombado, talvez o opere". O público de Central do Brasil nem liga para o pescoço de Fernanda Montenegro. Quando ela entra em cena, detalhes como esse desaparecem sob sua interpretação.

O jeito Fernanda de ser

Profissão, família, histórias, manias passagens marcantes da vida da atriz e algumas de suas opiniões a respeito

AUTODEFINIÇÃO
Fernanda nos anos 70: "Desde o início me chamam de grande dama do teatro brasileiro. Mas nós, atrizes, não somos um bando de éguas alinhadas em busca do grande prêmio"
INICIO SEM PALMAS
As Alegres Canções da Montanha marca a estréia de Fernanda como atriz profissional, em 1950 (na foto, com o ator Walter Amendola). A peça foi um fracasso, mas rendeu-lhe o namoro com Fernando Torres, seu futuro marido, que fazia parte do elenco.
ADEUS, ARLETTE
Arlette Pinheiro Esteves da Silva inventou o pseudônimo Fernanda Montenegro. O nome Fernanda lhe evocava personagens de Balzac
MÃE "PÃO COM MANTEIGA"
O casal posa com os filhos adolescentes em 1980. Eles receberam uma educação tradicional. "Ela é uma mãe conservadora, faz o estilo pão com manteiga", avalia Cláudio, hoje diretor de cinema.
Foto: Amicucci Gallo  
ORÇAMENTO MENSAL GARANTIDO PELA TV
Os cachês obtidos com O Auto da
Compadecida
e outros dois papéis recentes
na televisão compensaram os meses em que
Fernanda ficou promovendo Central do
Brasil.
"Todo brasileiro está fazendo bico e
eu também: anúncios, especiais de TV..."
  Foto: Andre Lobo
FUGINDO DA TOSSE
Ritual antes de entrar em cena: tomar um cafezinho com uma pequena colher de margarina. "Lubrifica a garganta, que fica seca por causa do ar condicionado", explica.

GENRO CABEÇA
Em The Flash and Crash Days (1992), Fernanda contracenou com a filha, Fernanda Torres, então casada com Gerald Thomas, autor e diretor da peça. A encenação não tinha diálogos e o público não entendeu nada, mas a atriz considera o ex-genro genial.

Foto: Luiz Bittencourt

A DECOLAGEM DE CENTRAL
Central do Brasil
ganha o Urso de Ouro em Berlim e Fernanda (na foto com Walter Salles), o Urso de Prata. "Ganhamos, em parte, por apresentar algo diferente dos clichês das mulatas rechonchudas", diz Fernanda.

94 609 km

Essa foi a distância que Fernanda percorreu até agora, no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, para divulgar Central do Brasil. "Tenho uma mala daquelas de aeromoça, sempre arrumada, esperando o próximo vôo", ela conta.




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