J. R. Guzzo
Trem fantasma
"O
lado escuro dessa maneira de governar é o incentivo
permanente à
oferta de propostas que batem de frente
com a democracia. É o que
há de melhor, como receita
para promover a incerteza"
Os governos
brasileiros, como se pode comprovar facilmente pela comparação entre
o que dizem e o que fazem, acumularam ao longo dos anos uma vasta experiência
em não cumprir compromissos. É triste, claro, mas, quando se olha
com um pouco mais de frieza para a questão, não é tão
triste como parece, e frequentemente chega até a ser bom. O motivo é
simples: boa parte do que se promete é tão ruim, mas tão
ruim, que acaba sendo uma alegria, no fundo, quando se descobre que o vendedor
não vai entregar a mercadoria que vendeu. O atual governo é um excelente
exemplo disso. Se tivesse feito tudo, ou a maior parte, do que já anunciou
que queria fazer nestes últimos sete anos, o país estaria hoje navegando
em pleno nevoeiro, com mar bravo e fazendo água na proa, na popa e a meia-nau.
Ainda bem que não fez; por uma combinação de incompetência,
preguiça e ruindade na hora de executar, pouco saiu do papel. É
o que se espera que aconteça mais uma vez, agora com esse incomparável
"Programa Nacional de Direitos Humanos", ou PNDH-3, na linguagem de
bula de remédio com o qual foi batizado, que o governo criou por decreto
no fim de dezembro e do qual já começou a correr.
Começou
a correr, é lógico, onde costuma se assustar mais depressa
ao ver que as Forças Armadas não gostaram da parte reservada a elas
no PNDH-3, onde se previa a criação de uma "Comissão
Nacional da Verdade" para apurar crimes cometidos por servidores dos órgãos
de repressão durante a ditadura militar. Não houve nenhuma grande
surpresa nisso, pois para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que assinou
o decreto, tanto faz se vai ou não vai haver apuração; a
única coisa que lhe importa, na vida real, é saber se a decisão
final é ou não é do seu interesse. Pode até errar
de cálculo e acabar optando por algo que em vez de ajudar o prejudica,
mas a ideia-chave é se dar bem em tudo. No caso, achou que se daria melhor
anulando o que havia acabado de assinar sobre a comissão; ela reencarnou,
conforme amplamente divulgado, com a nova e prodigiosa missão de examinar
violações de direitos humanos ocorridas no Brasil desde 1946 até
1988, de qualquer natureza e de qualquer autoria. Como o presidente da República
pode esperar que alguém leve a sério uma coisa dessas? Não
pode, mas também não está preocupado com isso. O que ele
queria era se livrar do incômodo que estava causando aos militares. Aparentemente,
conseguiu. (Quem sabe agora, finalmente, se consiga descobrir quem matou Dana
de Teffé. É um caso claro de violação de direitos
humanos; além disso, conforme sustenta há anos o cronista Carlos
Heitor Cony, é fato bem sabido que enquanto não se descobrir quem
matou Dana de Teffé, ou pelo menos onde estão os seus ossos, o Brasil
não vai tomar jeito.)
O mais interessante, no episódio
todo, é a tranquilidade com que o presidente vai levando adiante a sua
balada. O decreto que assinou é coisa de sanatório? Sua desculpa
é que assinou sem ler; são previstas nesse trem fantasma mais de
500 decisões, que para ser executadas exigiriam uma nova Constituição
ou um golpe de estado, mas ele diz que não leu nada. Isso ou aquilo deu
problema? É só mudar o que foi escrito e anunciar que o caso está
"superado"; agir assim, no entender do presidente, é uma forma
superior de esperteza política. Na verdade, há um método
nisso tudo. Lula é indiferente ao projeto de revolução ao
qual se dedicam tantos de seus subordinados que sonham em desenhar para
o Brasil um regime "popular" baseado em "mecanismos de democracia
direta", no qual ficam dispensados de inconvenientes como eleições,
votações no Congresso ou decisões contrárias da Justiça.
O presidente deixa que se entretenham com isso; sabe quanto é bom, para
todos eles, poderem viver o papel de revolucionários com risco zero, sem
ter de fugir da polícia e no conforto de cargos em comissão, com
carro oficial e cartão de crédito corporativo. Em compensação,
sempre que manda para o lixo alguma de suas ideias, espera que lhe digam "sim,
senhor". É o que acaba de ouvir, mais uma vez.
O
lado escuro dessa maneira de governar é o incentivo permanente à
oferta de propostas que batem de frente com a democracia. Elas podem não
ir adiante, mas estão sendo escritas por funcionários do governo,
recebem apoio oficial e acabam, como no caso desse PNDH-3, incluídas num
decreto que o presidente assina e que, agora, terá de ser combatido ponto
por ponto para não se transformar em realidade. É o que há
de melhor, como receita para promover a incerteza.
|