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• Especial: Haiti, do caos à esperançaArqueologiaUm elo perdido na AmazôniaNovas descobertas sobre um povo misterioso que habitou a
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Edson Caetano![]() |
| Traços de uma cultura As formas circulares e quadrangulares delimitavam o espaço das aldeias, conectadas entre si e a mananciais de água |
É uma descoberta arqueológica fascinante: um povo
desconhecido habitou a fronteira do Acre com a Bolívia entre os séculos
I e XIV. Os primeiros vestígios de sua cultura foram descobertos por
acidente pelo arqueólogo Ondemar Dias, em 1977. Ao procurar resquícios
da Guerra do Acre, travada com a Bolívia de 1899 a 1903, ele percebeu
no solo valas que delimitavam áreas circulares ou quadrangulares. Em
geral, elas têm o tamanho de um quarteirão, são conectadas
entre si e a mananciais de água. Em uma extensão de 250 quilômetros,
foram identificadas 255 dessas estruturas, que os cientistas chamam de geóglifos,
palavra que funde os vocábulos gregos para "terra" e "marca".
As valas abertas por esse povo antigo eram cercadas por muros de terra, de até
1,5 metro de altura, que ajudavam na defesa contra inimigos e animais. Só
há três anos esses sítios começaram a ser escavados.
Os resultados da investigação feita por pesquisadores brasileiros
e finlandeses foram divulgados na última edição da revista Antiquity, uma prestigiada publicação inglesa de arqueologia.
Edson Caetano![]() |
| Rosto do passado O primeiro e o mais completo artefato encontrado nos sítios arqueológicos ficou conhecido como Vaso da Careta |
Uma versão revista e ainda inédita desse trabalho
lança mais luz sobre esses antigos moradores da floresta. Ela se debruça
sobre as descobertas de fragmentos de utensílios. Um deles é de
madeira e contém marcas de entalhe, como pequenas incisões. Duas
pedras polidas podem ter sido usadas como lâminas de machado. Embora seja
um artefato comum em várias regiões da Amazônia, no caso
do povo perdido do Acre ele carrega uma informação adicional.
Como o solo daquela região não contém pedras desse tipo,
os pesquisadores inferiram que os antigos acrianos as adquiriram por meio de
comércio ou de saque. As descobertas mais relevantes são, porém,
artefatos e cacos de cerâmica. Por serem fruto de um processo fabril,
eles permitem identificar o estágio de desenvolvimento do grupo desaparecido.
Nos anos 70, já havia sido encontrado um vaso em ótimo estado,
que exibia uma face desenhada. As escavações recentes trouxeram
à tona um pequeno recipiente intacto, mas que não apresenta nenhuma
decoração. Foi possível, no entanto, remontar os cacos
do bocal de outro vaso com desenhos geométricos. Embora revelem algum
nível de sofisticação, essas peças são bem
mais primitivas do que as atribuídas a culturas desse período:
a marajoara e a tapajoara, que deixou resquícios no norte e no oeste
do Pará.
Sanna Saunaluoma![]() |
| Riscos e espirais As escavações revelaram uma cerâmica ornamentada, além de artefatos de madeira e pedra |
Outra novidade é que, entre a versão preliminar
do trabalho, finalizada em 2007, e a atual, foram localizados mais de cinquenta
geóglifos que estavam encobertos pela vegetação. O desmatamento
possibilitou que as estruturas se tornassem visíveis e pudessem ser captadas
pelo Google Earth, o programa do Google que mostra as imagens da Terra captadas
por satélite. O número de valas identificadas permitiu que se
estimasse que o povo desaparecido era composto de 60 000
pessoas, no mínimo. Além disso, foi possível verificar
simetrias entre os geóglifos. Muitos deles possuem diâmetro idêntico.
"Quem os construiu deve ter usado cálculos matemáticos e
instrumentos de medição, o que denota uma população
complexa e organizada", diz a antropóloga Denise Schaan, uma das
responsáveis pela pesquisa. De acordo com ela, esse padrão indica
que o povo teria uma orientação central - uma espécie
de governo que se sobreporia aos chefes das aldeias que viviam em cada geóglifo.
Essa também é uma característica dos índios do tronco
aruaque, que habitavam outras partes da América do Sul, além do
Caribe e da Flórida.
Se forem confirmadas, essas suposições enterrarão a tese de que a floresta equatorial seria inóspita demais para a sobrevivência de povos relativamente avançados. Formulada há sessenta anos pela americana Betty Meggers, ela influenciou as pesquisas feitas desde então e sepultou o mito de que a região teria abrigado uma civilização muito rica. Essa lenda encantou os primeiros colonizadores europeus, que se embrenharam na mata em busca do Eldorado. Há menos de um século, ainda arrebatava aventureiros como o inglês Percy Fawcett, que desapareceu na floresta em 1925 enquanto procurava a cidade que chamava de Z e cuja história será levada ao cinema pelo ator Brad Pitt. O povo que habitou o Acre até o século XIV em nada se assemelha com o idealizado pelos desbravadores do passado. Eles nem sequer conheciam metais. Mas, ainda assim, seus traços denotam uma cultura mais elaborada do que se imaginava.
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