Maílson da Nóbrega
Banco Central antidemocrático
"Como
Lula provou, politicamente esperto é o cara capaz
de abandonar velhas visões
e atribuir ao BC a missão
de manter a estabilidade, fonte básica
de popularidade"
A autonomia operacional dos bancos centrais é a norma nos países
desenvolvidos, mas é rejeitada em países de instituições
fracas, baixo conhecimento econômico e rala percepção das
vantagens do capitalismo. A Argentina deu recentemente um bom exemplo dessa última
categoria.
De fato, sem prévia autorização
do Senado (como manda a lei), a presidente Cristina Kirchner demitiu o presidente
do Banco Central, Martín Redrado, porque ele se recusou a cumprir sua ordem
de transferir 6,5 bilhões de dólares das reservas internacionais
para um fundo de resgate da dívida externa. A confiança no país
foi abalada.
No Brasil, considerou-se absurdo que alguém
sem mandato se insubordinasse contra uma presidente eleita e, por isso, com poder
legítimo para tomar decisões. Falou-se que criticar Cristina seria
coisa de "mercadistas alucinados" que querem o BC como um quarto poder.
Resistir à demissão seria atropelar a democracia.
Conceitos
esquisitos, esses. Por eles, um chefe de governo, desde que eleito democraticamente,
pode tomar qualquer decisão. Na verdade, a democracia surgiu, entre outros
motivos, da limitação de poderes dos governantes. Presidentes não
recebem cheque em branco do eleitorado.
A autonomia operacional
dos bancos centrais é uma inovação institucional do século
XX. Começou com o Federal Reserve americano, na lei de sua criação
(1913). Na Europa e no Japão, a autonomia também existia, mas foi
confirmada em lei apenas nos anos 1990.
A ideia é evitar
que governantes despreparados usem o BC para expandir gastos com objetivos políticos.
Há abundante evidência de que as correspondentes emissões
de moeda produzem inflação e nefastas consequências sociais.
O Brasil que o diga.
Antes, no padrão-ouro, a oferta
de moeda era em função do estoque do metal. Bancos privados eram
autorizados a emitir moeda, desde que observada a regra. Os governantes não
tinham poder para financiar gastos de forma inflacionária.
Esse
arranjo limitava o crescimento econômico. Nas crises, as saídas de
ouro diminuíam o meio circulante. Havia contração violenta
da economia, da renda e do emprego. O poder de barganha dos sindicatos de trabalhadores
que dificultava a queda dos salários nominais foi uma complicação
adicional. Na grande crise dos anos 1930, sofreu mais quem mais demorou a abandonar
o padrão-ouro.
Com o fim do padrão-ouro, o estado
assumiu a exclusividade das emissões. Sem lastro, as notas eram simples
papel pintado. Para evitar abusos e inflação, criou-se uma regra
para fornecer a mesma credibilidade do velho regime: a autonomia operacional do
BC, com mandato para a diretoria e proibição de financiar diretamente
o Tesouro.
Cabe ao BC zelar pela estabilidade da moeda, precondição
para o desenvolvimento. Ele não pode receber ordens para baixar juros ou
gastar reservas internacionais com o objetivo de expandir irresponsavelmente a
economia. A lei de autonomia o obriga a prestar contas ao Congresso, que pode
demitir seus diretores em caso de falta grave.
O BC é,
pois, uma instituição deliberadamente antidemocrática. Sem
mandato eletivo, seus diretores tomam decisões que repercutem no crédito,
na atividade econômica, no emprego e na renda. Ocorre que esse status lhe
é concedido por representantes da sociedade, eleitos pelo povo. Ou seriam
idiotas os parlamentares que assim o fizeram no mundo rico e em muitos países
emergentes?
Na prática, o BC brasileiro é autônomo.
É uma consequência natural das mudanças mentais da maioria
da sociedade. Como Lula provou, politicamente esperto é o cara capaz de
abandonar velhas visões e atribuir ao BC a missão de manter a estabilidade,
fonte básica de popularidade. Não é neoliberal nem afronta
a democracia.
Melhor seria uma lei específica, mas
o apoio é escasso. A julgar pelas manifestações em defesa
de Cristina, ainda se pensa em um BC "desenvolvimentista", que receba
ordens para baixar juros.
Formados de seres humanos, os bancos
centrais erram. Por isso, precisam ser transparentes e previsíveis, e prestar
contas. Devem ser monitorados para evitar erros ou sua repetição.
É melhor assim do que ter um BC "democrático", que cede
a caprichos de políticos, empresários e comentaristas.
Maílson da Nóbrega é
economista |